ESTREIA-Em 'Hotel Atlântico', Suzana Amaral reiventa obra

Suzana Amaral é uma diretora de poucos filmes - apenas três em quase 25 anos - mas de uma obra bastante marcante. Em seu mais novo longa, "Hotel Atlântico", a cineasta adapta um romance de João Gilberto Noll e, como no livro, leva para as telas uma narrativa fluida, com elementos mínimos, criando um clima de viagem ao inferno.

REUTERS

12 de novembro de 2009 | 13h11

O filme entra em circuito nacional nesta sexta-feira.

Noll é um dos autores brasileiros mais importantes da atualidade, mas pouco adaptado para o cinema - apenas "Harmada" (2003), de Maurice Capovilla, e "Nunca Fomos Tão Felizes" (1981), de Murilo Salles, baseado no conto "Alguma Coisa Urgentemente".

Talvez porque sua prosa desafie convenções formais e vá muito além de contar uma história, poucos cineastas se aventuram a traduzir em imagens a obra do escritor gaúcho.

Suzana Amaral, que já dirigiu outras duas adaptações literárias, de Clarice Lispector ("A Hora da Estrela", 1985) e Autran Dourado ("Uma Vida em Segredo", 2001), parece não ter medo de desafios.

O resultado é um filme à altura do livro original, sem ser reverente à literatura, mas reinventando a história para o cinema.

Pela primeira vez, a cineasta abre mão de uma protagonista feminina, como em seus dois filmes anteriores. Seu personagem principal aqui é vivido por Julio Andrade ("Cão sem Dono"), um ator desempregado que, após presenciar um cadáver sendo retirado pelo IML do hotel onde vive - e dá nome ao filme -, inicia uma jornada. Nunca fica claro por que o protagonista, cujo nome nunca é revelado, cai na estrada. Mas a viagem é mais importante do que suas motivações.

Com esse filme, Suzana faz um anti-road movie - é um filme de estrada, mas com um tom diferente do que se convencionou no gênero. Em seu caminho, o protagonista irá cruzar com as figuras mais distintas, que o modificarão de alguma forma.

O personagem central é um sujeito bastante passivo, que raramente age, e está sempre, a bem da verdade, reagindo às motivações promovidas pelos outros.

Suzana, que também assina o roteiro, trabalha na mesma chave de despojamento de Noll, na obra original. Sem se preocupar com psicologismos ou outros tipos de explicações e justificativas, a cineasta conduz seu personagem a um mergulho num mundo surreal de questionamento existencialista - o que lhe rendeu comparações, por publicações estrangeiras, ao cinema de David Lynch e Michelangelo Antonioni.

Há algo de surreal em "Hotel Atlântico", seja no destino dos personagens ou na forma como eles entram e saem da vida do protagonista - afinal, mesmo não sendo um filme narrado em primeira pessoa, acompanhamos todos os acontecimentos pela perspectiva desse ator desempregado.

A sequência de coadjuvantes que entram na vida do protagonista é arbitrária, já que ele não carrega vínculos com o passado. Sabemos que é um ator relativamente famoso de televisão, pois diversos personagens o dizem. Fora isso, nada se sabe sobre o seu passado, tampouco sobre o futuro para o qual ele parece não ter perspectivas.

Lorena Lobato ("O Cheiro do Ralo") é uma polonesa com quem ele trava contato num ônibus de viagem. Gero Camilo ("Carandiru") é um sacristão que lhe dá abrigo e lhe empresta a batina de um padre morto. O protagonista não apenas aceita a batina como cumpre as funções de religioso. Enfim, é um personagem que se deixa envolver com o meio e o momento.

Mais tarde, algo decisivo acontece em sua vida, ao sofrer um acidente em uma cidadezinha. Confinado ao hospital, ele conhece o enfermeiro Sebastião (João Miguel, de "Cinema, Aspirinas e Urubus) e a filha do médico (Mariana Ximenes, de "A Mulher do Meu Melhor Amigo") - duas personagens responsáveis por mudanças drásticas na vida do protagonista.

Com uma bela fotografia de José Roberto Eliezer ("O Cheiro do ralo") e a montagem ritmada de Idê Lacreta ("Antônia - O Filme"), "Hotel Atlântico" é um filme de atmosfera, de ambientação e estranhamento, bastante condizente com a jornada do personagem. O longa é um passo bastante interessante na carreira de uma cineasta vigorosa.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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