Estréia "Duas Vezes com Helena"

Marido da escritora Lygia FagundesTelles, uma das maiores do País, Paulo Emílio Salles Gomes foicrítico e ensaísta de cinema, para muita gente, o maior doBrasil na sua especialidade. Formavam o casal 20 daintelligentsia brasileira. Paulo Emílio foi um ficcionistatardio. Lançou, no ano de sua morte (1977), o livro TrêsMulheres de Três PPPs, que conta três histórias. Em todas, oprotagonista é um certo Polydoro, que sempre tem problemas com opróprio nome. Em cada narrativa, ele se envolve com uma mulher eé ela quem, sutilmente, comanda a ação. Uma das histórias de Três Mulheres de Três PPPs -Duas Vezes com Helena - virou filme de Mauro Farias. Estréianesta sexta-feira, na cidade. Paulo Emílio era um defensorradical do cinema brasileiro. No fim da vida, podia serconsiderado um xiita. Dizia que o melhor filme estrangeiro nãovale o pior filme nacional, pelo simples fato de que, no segundo somos nós na tela, com nossa cara, nossos problemas, nossaidentidade. E se o filme deixa a desejar, do ponto de vistatécnico e artístico, nem por isso deixa de dar um testemunhosobre o Brasil, nem que seja sobre a dificuldade de filmar noPaís. É preciso a generosidade, acaso o radicalismo de PauloEmílio, para gostar de um filme como Duas Vezes com Helena.O diretor Mauro Farias - do clã Farias, que inclui Roberto,Reginaldo e Lui, o segundo tendo, curiosamente, cortado o Sfinal do sobrenome, que é só Faria - conserva o que vem a ser atrama do livro, centrada nas relações de três personagens. Umprofessor, sua mulher e o aluno, interpretados, respectivamente,por Carlos Gregório, Christine Fernandes e Fábio Assunção. Oaluno, Polydoro, envolve-se com a mulher do professor, a Helenado título. Só mais tarde descobre que foi usado como pai dealuguel, para dar ao casal o filho que não podia ter. Conta a lenda que Paulo Emílio, ao escrever TrêsMulheres de Três PPPs, encantou-se tanto com a escrita dolivro que dizia todo dia a Lygia como era bom ser ficcionista.Lamentava não ter se iniciado antes na atividade, justamente eleque criou fama por sua competência na arte de destrinchar acriação alheia, no campo do cinema. Há um prazer do texto nolivro de Paulo Emílio que Mauro Farias não conseguiu transcriarna tela. Não há a contrapartida de um prazer do cinema em DuasVezes com Helena. Prazer, no caso, não quer dizer que o filme deveria seragradável para funcionar. Cinema é experiência, o espectadorentra no clima ou não. É difícil, senão impossível entrar noclima de Duas Vezes com Helena, principalmente se você teveacesso ao texto e conhece suas densidades e sutilezas. Umcrítico já disse que a maior virtude do livro é uma certasensação de estranhamento que produz no leitor, como se houvesse(e há) um descompasso entre o tom adotado pelo narrador e asidéias expressas no texto. O tom é clássico no limite do demodê,as idéias são avançadas. É um descompasso que poderia ser fatale a arte de Paulo Emílio torna fascinante. Nada disso passa do livro à tela. O filme se reduz àfria letra da trama e nem se pode dizer que seja bem narrado. Háamadorismos que geram constrangimento. Christine não possui asedução que se supõe deveria ter sua personagem para envolverPolydoro. E Fábio Assunção, como Polydoro, é de doer no seuenvelhecimento forçado. A barriguinha postiça que lhe arranjaramnão destrói só a imagem do galã, o que poderia ser um ato decoragem do ator. Destrói também qualquer possibilidade de seacreditar em Polydoro. Serviço - Duas Vezes com Helena. Drama. Direção de Mauro Frias.Br/2000. Duração: 75 minutos.

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