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Estreia ‘Doutor Sono’, sequência de ‘O Iluminado’ aprovada por Stephen King

Filme prossegue com a história de Danny, o garoto de 'O Iluminado', de Stanley Kubrick, que sobrevivia, com a mãe, ao surto psicótico do pai, Jack Torrence, interpretado por Jack Nicholson

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2019 | 07h00


Stephen King gostou. Para os fãs do escritor e cineasta, que ainda está sendo homenageado com uma retrospectiva de filmes no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em São Paulo, essa é a grande credencial de Doutor Sono, que estreia nesta quinta, 7, em salas de todo o País. O circuito ainda estava sendo fechado na quarta-feira, mas será grande.

Doutor Sono prossegue com a história de Danny, o garoto de O Iluminado, de Stanley Kubrick, que sobrevivia, com a mãe, ao surto psicótico do pai, Jack Torrence, interpretado por Jack Nicholson. Danny cresceu para se tornar um adulto errático. Sua vida não possui um centro, e ele só o encontra em uma pequena cidade interiorana, mas principalmente ao fazer contato com outra iluminada, uma garota que está sendo caçada por uma seita que quer se apropriar de sua aura.

Danny, interpretado como adulto por Ewan McGregor, faz a ligação entre os dois filmes, mas não a única. Chega um momento, praticamente no terço final, em que a narrativa retorna ao agora decadente Hotel Overlook, habitado por todos aqueles fantasmas. É onde vai se travar a batalha decisiva entre Danny, a garota que ele tenta proteger e a personagem de Rebecca Ferguson, que vampiriza iluminados. Rebecca, você sabe, é atriz na série Missão Impossível, e, na verdade, foi a que permaneceu como possibilidade de uma ligação mais forte com o Ethan Hunt de Tom Cruise. Não espere nada parecido em Doutor Sono. Bela e cruel, Rebecca comanda uma sessão de tortura que leva o terror a limites de brutalidade (quase) insuportável. Na trama, os integrantes da seita maligna se aproveitam do medo das pessoas para retroalimentar sua energia - uma ideia que já estava na animação Monstros S.A. O diferencial é que o diretor e roteirista Mike Flanagan vai na contramão de Kubrick e torna explícito tudo o que era secreto na obra-prima de 1980.

Passaram-se 39 anos, quase quatro décadas completas (em 2020). Após todo esse tempo - Kubrick morreu em 1999 -, erigiu-se um culto sólido a O Iluminado. Kubrick sempre quis fazer a obra-prima definitiva de cada gênero em que trabalhou - guerra, ficção científica, sátira política, etc. No terror, a maioria da crítica vai dizer que ele conseguiu com O Iluminado, distanciando-se do original de Stephen King para adaptar a história e os personagens a sua visão de mundo. Jack, no filme, é um aspirante a escritor que se isola no hotel habitado por fantasmas - pelos fantasmas da sua mente distorcida? Torna-se uma ameaça para a própria família e, ao transformar o projeto de livro numa frase truncada, repetida até o infinito, coloca em discussão o tema kubrickiano por excelência: a dissolução da palavra como único elo que une os homens.

Isso transformou Kubrick no autor de O Iluminado e isso foi demais para o ego de Stephen. Ele tem agradecido a Mike Flanagan por haver reparado o “seu” Iluminado. Talvez tenha estragado. Seja como for, o filme tem momentos impressionantes e entra para faturar.

 

Detalhes que fazem diferença:

  1. De cara você vai ver uma mudança decisiva. A seita maligna comandada por Rebecca Ferguson se apropria da aura dos iluminados por meio de uma fumacinha que sai da boca deles. Stanley Kubrick jamais usaria recurso tão vulgar, típico de Stephen King. O escritor adorou.
  2. Kubrick criou a despensa, o labirinto no jardim - que o diretor Mike Flanagan repete -, mas nunca criaria a cena da tortura, com sua violência gráfica levada ao limite. O cinema de terror mudou - com a série Jogos Mortais, por exemplo. Flanagan vai na onda. Kubrick detestava o explícito, o óbvio. Atuava no imaginário, no inconsciente, o que é muito mais contundente. E artístico.
  3. A nova trama baseia-se toda no conceito do medo ligado ao ódio e à violência. Sinal dos tempos.

 

‘Doutor Sono’ é a continuação que King tinha de escrever

“Eí, você sabe o que aconteceu com aquele garoto de O Iluminado?”. A pergunta foi feita a Stephen King por um sujeito qualquer em uma sessão de autógrafos em uma das inúmeras cidades em ele passou para divulgar o livro Saco de Ossos, em 1998.

O questionamento já havia sido feito diversas vezes pelo próprio escritor em devaneios ao realizar tarefas simples, como tomar banho ou assistir TV. Viagens longas despertavam em King uma obrigação de revelar o que havia acontecido com Danny Torrance e sua mãe, Wendy, após o trauma no Hotel Overlook. “Ficava calculando qual seria sua idade e onde ele poderia estar.”

Lançado em 2013, Doutor Sono é uma continuação de O Iluminado, o livro, e não do filme de Stanley Kubrick. King faz questão de alertar o leitor sobre o fato. Até hoje, ele mantém sua posição contrária ao diretor, morto em 1999. Em 1997, o próprio escritor fez sua versão do clássico em minissérie deTV de três episódios.

Na história, Danny, agora só Dan, luta contra o mesmo vício, o alcoolismo, que levou seu pai, Jack Torrance, à insanidade e morte em O Iluminado. Trabalhando em uma casa de repouso em New Hampshire após muitos anos à deriva por causa da bebida, Dan, agora quase um quarentão, utiliza o que lhe ainda resta do dom de iluminado para dar o conforto final para pessoas que estão morrendo.

Com auxílio de um gato, que se aproxima dos moribundos, ele recebe o apelido de Doutor Sono. A calmaria termina quando ele conhece Abra Stone, uma menina de 12 anos, ainda mais poderosa e iluminada do que ele. E o mal mais uma vez está à espreita.

O que seria algo inofensivo traz à tona os fantasmas da traumática infância de Dan, em um confronto com o “Verdadeiro Nó”, horda de sugadores de almas. Esses, digamos, vampiros acreditam que o poder de Abra pode curá-los definitivamente.

Apesar de admitir que sentiu insegurança ao revisitar O Iluminado, King tinha de fazê-lo. Danny, personagem icônico da literatura e do cinema, embora o escritor não goste dessa segunda parte, não poderia ficar esquecido para sempre. (Marcius Azevedo)

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