Estréia documentário sobre escândalo dos Friedmans

Nas bolsas de apostas do recente Oscar da Academia de Hollywood, havia uma forte disputa na categoria de documentários entre Na Captura dos Friedmans, de Andrew Jerecki, e Sob a Névoa da Guerra, de Errol Morris. No fim, Morris ficou com a estatueta dourada. Seu documentário, uma longa entrevista com o ex-secretário da Defesa do presidente John Kennedy, Robert McNamara, estréia sexta que vem nos cinemas brasileiros. Na Captura dos Friedmans estréia hoje. São documentários que mostram que esse gênero de cinema está mais vivo e forte do que nunca.No ano passado, o vencedor da categoria - o Michael Moore de Tiros em Columbine - usou o palco do Kodak Theatre como tribuna para atacar o presidente George W. Bush. Morris foi de novo incisivo contra o presidente. Jerecki, se tivesse vencido, com certeza também não teria sido conciliador. Alguém que faz um documentário como o dele não pode estar disposto a compactuar. Na Captura dos Friedmans se baseia num desses casos reais que volta e meia confrontam os EUA. Talvez não seja só um problema americano. De perto, você sabe que ninguém é normal. Por trás das convenções do comportamento social, às vezes escondem-se verdadeiras tragédias. Uma história como a de Na Captura dos Friedmans guarda muitas semelhanças com Sobre Meninos e Lobos, de Clint Eastwood. Talvez fosse interessante fazer outra ponte entre o documentário de Jerecki e a ficção de As Virgens Suicidas, no qual a estreante Sofia Coppola - diretora de Encontros e Desencontros - mostra o que se esconde por trás da tal "beleza americana".Os Friedmans eram uma típica família de subúrbio. Pareciam estruturados e felizes. E aí estourou o escândalo - pai e filho, Arnold e Jesse Friedman, molestavam crianças nos cursos de computação que davam no subsolo da casa. Se fosse ficção, não era tão elaborada. Os crimes ocorriam no porão da casa, no subsolo de uma sociedade que vive de aparência. Os Friedmans foram presos. O pai se suicidou na cadeia. O filho, que já cumpriu 15 anos de pena, está pedindo a anulação do processo que o condenou. Existem filigranas jurídicas que autorizam a batalha judicial. O próprio filme, ao qual você não ficará indiferente, está longe de ser uma unanimidade.Assim como Michael Moore podia ser chamado de manipulador e tendencioso, Andrew Jerecki também tem sido muito criticado. Na Captura dos Friedmans é acusado ora de omitir, ora de distorcer os fatos, de forma a traçar um retrato afinal de contas simpático dessa família que se desintegra diante da câmera. Simpático, em termos. As vítimas da violência sexual dos Friedmans pensam assim, mas o filme mostra registros audiovisuais gravados por integrantes da própria família que levantam dúvidas sobre a autenticidade do material. Tudo parece tão excessivo, tão cruel, que você duvida que aquilo seja verdadeiro. A realidade, como ocorre tantas vezes, supera a ficção.

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