Estréia documentário que homenageia Oscar Niemeyer

No umbral dos 100 anos, Oscar Niemeyermanda um recado às pessoas que se levam muito a sério: "A vida éum sopro." Esse é o título que o documentarista Fabiano Macieldá ao filme em homenagem ao arquiteto. Niemeyer repete a frasevárias vezes, com aquela simplicidade de quem já está habituadoa pensar na finitude: olhemos para o cosmos, para a dimensão doinfinito, para nos convencermos de que somos insignificantes,piolhinhos diminutos em relação ao universo. Por paradoxo, é aconsciência da sua insignificância que permite ao homem viverbem. Maciel propõe que a trajetória de Niemeyer seja também umalição de vida para cada um de nós. Nisso está a beleza do filme. A Vida É Um Sopro trabalha com depoimentos sobre oarquiteto. Desfilam pela tela nomes ilustres: Chico Buarque,Ferreira Gullar, José Saramago, Eric Hobsbawm, entre outros. Umdos melhores depoimentos é do escritor uruguaio Eduardo Galeano.Pela negativa, ele o define: "Niemeyer odeia o capitalismo e alinha reta." Ama, portanto, o socialismo e a mulher: a sociedademais justa (sem cogitar se é uma utopia ou não) e as curvas damulher amada e do Rio, sua cidade natal, a cidade mulher. Seuprojeto arquitetônico passa por essa visão de mundo. E encontraa materialidade nas possibilidades de construção do concretoarmado. Niemeyer fala do concreto com o carinho que destinaria auma namorada. A arquitetura é uma maneira de intervir no mundo, decolocar a obra do homem em harmonia com a natureza, comoNiemeyer procura fazer. Não se trata de uma atividade técnica,no sentido mais restrito do termo. A técnica, o cálculo, oprojeto se colocam como maneiras de dar forma a uma idéia sobrea sociedade, sobre o semelhante e as possibilidades deconvivência de uma maneira menos agressiva. É uma utopia, feitade concreto, de tijolos e lajes? Sim, pode ser.Pensar o Brasil Mas, como se pode deduzir do depoimento do historiadoringlês Eric Hobsbawn, esse utopismo nada tem de "romântico", nomau sentido do termo. Quer dizer, de sonhador, delirante,inaplicável no mundo das coisas reais e da prática. Pelocontrário, sem a perspectiva utópica, torna-se difícil construirum futuro, pensar uma nação. Hobsbawm lembra que Niemeyer nãoaparece sozinho, como se fosse a magnífica exceção num mar denulidades. Nada disso, ele faz parte de uma privilegiada geraçãobrasileira, a de 1930, formada por gente como Gilberto Freyre,Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro. Uma geração que tinha ambição de pensar o Brasil, suasraízes, sua possível originalidade, seus problemas, seusimpasses. Uma geração que tentava tomar consciência do País e desi mesma para projetar um futuro. Hobsbawm compara essa geraçãoprivilegiada àquela dos anos 80 e 90, cínica, desencantada,dinheirista, individualista e estéril. Como pensar um país seessa pobre "intelligentsia" não consegue ultrapassar os limitesdo próprio umbigo e olha apenas para seus interesses de classe?O brilho de Niemeyer, quaisquer que sejam suas contradições (eele as tem aos montes), só aumenta no confronto com essamediocridade depressiva e deprimida. Por isso mesmo, pela força de Niemeyer, o documentárionão precisava evitar as contradições do personagem. Niemeyerpode ser brilhante; não é inatacável, não é um figurãochapa-branca e nem fica bem no papel, ele que usa o palavrãocomo recurso de linguagem com a desenvoltura de um moleque, queno fundo ele nunca deixou de ser.BrasíliaO próprio cinema já revelou aspectos mais polêmicos de Niemeyer,sendo o documentário Conterrâneos Velhos de Guerra, deVladimir Carvalho, o exemplo mais conhecido. Nesse filme, quetrata do outro lado da construção de Brasília, vemos um OscarNiemeyer irritado com o entrevistador quando questionado sobreum acidente que teria acontecido com trabalhadores durante aconstrução da nova capital. A acusação do filme de Vladimir éque Brasília foi feita a toque de caixa, para ser inaugurada porJuscelino, e as normas de segurança foram relaxadas. Por issoaconteceram esses e outros acidentes fatais. Irritado, oarquiteto, bem à sua maneira, acaba mandando o entrevistador "àmerda", resposta preservada no filme. A Vida É Um Sopro buscou outro caminho, o defilme-homenagem. Nem assim consegue ser chapa-branca, porqueNiemeyer é irreverente com os outros como consigo mesmo.Desconstrói a própria imagem. E nos diz que a vida pode sermesmo um sopro, e ainda assim vale a pena ser vivida, desde quecom a intensidade e paixão com que vive a sua. Oscar Niemeyer - A Vida É um Sopro(Br/2006, 90 min.) -Documentário. Dir. Fabiano Maciel. 10 anos. Cotação: Bom

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.