Estréia de Torero empolga público de Recife

Talvez não ganhe o prêmio do júri oficial, mas Como Fazerum Filme de Amor, do paulista (de Santos) José Roberto Torero já é ofavorito do público do 8º Cine PE - Festival do Audiovisual. Aapresentação - para mais de 3 mil pessoas presentes ao TeatroGuararapes - chegou perto do apoteótico. As pessoas riram muito comessa comédia crítica e várias vezes aplaudiram durante as cenas. "Eraum teste de risco ver se o filme funcionava para uma grande platéiacomo essa, e felizmente isso aconteceu", disse Zita Carvalhosa,produtora do longa de estréia de Torero.Era, de fato, uma operação de risco, pois Como Fazer um Filme deAmor procede exatamente segundo o que diz o título - é uma espécie deinventário dos truques, clichês e apelações presentes nesse gênerocinematográfico, de grande comunicação junto ao público aliás. "Aidéia surgiu do meu contato com esse tipo de literatura romântica etambém com os filmes românticos", diz Torero. "Não gosto nada deles e,no princípio, pensei escrever um livro sobre o assunto", diz. Depoismudou de idéia e resolveu que fazer uma ficção crítica poderia sermais eficaz, além de divertido, claro.A história não poderia ilustrar melhor o lugar-comum do gênero. Háuma mocinha (Denise Fraga), um mocinho (Cássio Gabus Mendes), e doisvilões (Mariza Orth e André Abujamra). A mocinha e o mocinho seapaixonam, mas têm de enfrentar todas as artimanhas dos vilões parapoderem ficar juntos. O longa inclui desde momentos inspirados (comouma serenata embalada ao som de Eu Sei que Vou Te Amar, de Tom Jobim e Vinícius de Morais) até cenas típicas de comédia pastelão, com tortas na cara e tudo o mais. Nos melhores momentos, ficam explícitas ainteligência e a ironia do realizador. Nas cenas mais fracas, talvezescancare o desejo de se comunicar com públicos de expectativasdiversas. Essa oscilação de tom é defendida pelo diretor (autor decurtas-metragens de sucesso como Amor e Morte, e também do romancehistórico O Chalaça): "Busco diferentes níveis de leitura, paraatingir a públicos diferentes, o que é um procedimento bem antigo, presente até mesmo em Shakespeare", defende-se.O segundo longa da noite, único documentário em competição, Mensageiras da Luz - Parteiras da Amazônia, de Evaldo Mocarzel, foivisto por um público "menor". Menor, no caso do Recife, significa pelomenos 2 mil pessoas na sala. Muita gente saiu por cansaço e também porsaber que haveria cenas de partos durante a projeção. O própriodiretor avisou à platéia que haveria uma longa cena de um partodifícil, em plena selva amazônica. Essa cena foi acompanhada comangústia pelo público - que aplaudiu, aliviado, quando o bebê nasceu. O filme contém cenas belíssimas e alguns depoimentos emocionantes dasparteiras da Amazônia. Tem problemas no entanto com a unidade detratamento do tema. Por exemplo, o foco não é sempre mantido sobre otrabalho das parteiras. Em alguns momentos o filme divaga sobre aauto-imagem dessas profissionais, o que parece ser um tema maispróximo do diretor do que delas próprias. Mas não deixa de ser umbonito trabalho, que poderia talvez ser mais forte se evitasse certa auto-referência, um vício recorrente dos documentaristas contemporâneos.

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