Estréia de Tom Ford na direção é bem recebida em Veneza

Para estilista, 'A Single Man', estrelado por Colin Firth e Julianne Moore, é uma história de amor universal'

Flávia Guerra, correspondente em Veneza,

11 de setembro de 2009 | 15h36

Depois de uma quinta-feira animada pela comédia Soul Kitchen, O Festival de Cinema em Veneza voltou a levantar questões polêmicas nesta sexta-feira, 11. Tom Ford, que foi muito aplaudido pela imprensa durante a sessão de seu filme A Single Man (Um homem solteiro), declarou abertamente sua opinião sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo.

 

"Este é um filme sobre amor, sobre a solidão de perder alguém. Mas este contexto político que ele tem talvez seja por conta do período em que eu cresci, na Nova York dos anos 70. Foi um período em que eu estava aprendendo a lidar com minha homossexualidade e não foi particularmente traumático para mim. Mas foi importante. Pelo lado político, devo dizer que acho nojenta a forma como o assunto é tratado em países como os Estados Unidos, por exemplo", declarou Ford.

 

O estilista e agora diretor fez questão de comentar sua própria experiência. "Vivo com a mesma pessoa há 23 anos. Temos uma união estável e, recentemente, ele teve de ser internado. O tempo todo tive de carregar papéis no hospital assinados por ele atestando que eu podia visitá-lo e tomar decisões medicas por ele. E se eu morrer hoje, por exemplo, meu testamento seria totalmente taxado. Mas se a gente fosse legalmente casado, tudo passaria para ele automaticamente. Não é justo que esta situação não seja bem resolvida. Acho que nosso sistema legal é errado. E também em muitos outros países. Mas este não foi o foco do filme", acrescentou o estilista, que foi longamente aplaudido após a declaração.

 

Figura importante no mundo da moda, Ford estreia na direção com tudo para manter a mesma relevância. "Resolvi fazer cinema porque para mim a moda é efêmera. Já o cinema é uma arte que fica", revela. Adaptação do romance de Christopher Isherwood, de 1964, A Single Man conta a história de George (Colin Firth) um professor universitário gay que acaba de perder seu companheiro e tem de enfrentar o duro processo de luto e, ao mesmo tempo, o preconceito de uma Califórnia conservadora dos anos 50. Para Ford, o filme não se trata de 'uma história de amor gay'. "E quando alguém vê o filme e diz que é uma história gay, eu nem sei o que pensar. Para mim, é uma história muito humana. George é, antes de tudo, alguém que sofre por amor e por isolamento", explica Ford.

 

George encontra forças para superar o trauma na amizade com uma antiga amiga Charlotte (Julianne Moore) e em um novo relacionamento com um jovem universitário Jamie Bell (Matthew Goode). Moore também recebeu elogios por sua performance. "Quando ele está com a Julienne, tudo fica mais colorido na vida deles. Minha personagem foi alguém que cresceu nos anos 50, fim dos 40. Apesar de ser uma party girl, ela não está indo adiante. Ela está presa naquela casa. Ela está lá dentro esperando a festa vir até ela na forma de seu grande amigo George", comentou a atriz.

 

Firth é citado como favorito para o prêmio de melhor ator por sua interpretação sensível e, ao mesmo tempo, contida de George. "Este George foi inventado por Christopher Isherwood, mas foi reinventado por Tom Ford. Ele tem muito de Ford, que dividiu este personagem comigo", contou Firth, que admitiu ter 'deixado o livro de Isherwood e o fantasma do personagem original de lado' quando criou seu personagem: "O fantasma do personagem é, na verdade, uma criação de nós três. O livro me ajudou muito mas eu tinha de esquecê-lo porque eu tinha o Tom sempre por perto. A criação de George sempre partiu muito dele. Foi um processo muito estranho. Estranhamente real para nós. Mas não sei de onde veio na verdade."

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