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Estreia de 'Casadentro' dá mais força para os latinos nos cinemas brasileiros

Filme da peruana Joanna Lombardi, filha do grande diretor Francisco Lombardi, soma-se ao genial ‘Jauja’

Entrevista com

Joanna Lombardi Pollarolo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

26 de junho de 2015 | 04h00

Um grande filme latino-americano na semana já seria atípico, e não por falta de obras atraentes na produção continental, mas pela própria realidade do mercado. Estreou na quinta, 25, Jauja, de Lisandro Alonso, obra representativa de um cinema indagador da forma. A Jauja, somou-se Casadentro, de Joanna Lombardi Pollarolo – e dois grandes filmes latinos na mesma semana chegam a ser uma provocação, quem sabe uma revolução. Joanna é filha do diretor peruano Francisco Lombardi. Faz um cinema diferente do de seu pai. 

Casadentro é sobre uma idosa que vive com a cachorra e duas domésticas. Inesperadamente, o telefone toca e é a filha de Dona Pilar, a excepcional Elide Brero, avisando que está chegando. A rotina, mais que isso, a paz na casa será quebrada, e nada será como antes pela erupção dos ‘estrangeiros’.

No passado, grandes diretores como o italiano Vittorio De Sica e o sueco Ingmar Bergman fizeram filmes que viraram referências na investigação da solidão e da velhice. O velho De Sica em Umberto D possui um cachorro, no qual concentra seu afeto, como a Pilar de Casadentro. O filme se passa quase todo entre quatro paredes, daí o título Casadentro. No máximo, as personagens realizam algumas saídas ao jardim. Morangos Silvestres adota outro formato, o de um road movie existencial, para decifrar o enigma da vida do velho professor Isak Borg (Victor Sjostrom). 

O importante é que, sem contar muita história, Joanna Lombardi conseguiu fazer um filme sobre nada que aborda... tudo. A seguir, a entrevista realizada com a diretora. Joanna pediu para falar por e-mail, porque está participando de uma programação muito intensa na Rússia. De lá, avisou que seu segundo longa, Solos, estará no Festival de Cinema Latino-americano de São Paulo, em julho.

É um filme sobre a maternidade. Três gerações de mulheres e nenhuma parece estar feliz. Por que o tema, e por que a idosa?

Sim, é um filme que fala sobre maternidade. Sobre três gerações de mulheres que, mesmo sem querer, vão-se repetindo. Os conflitos não resolvidos voltam a aparecer em todas as relações. A maternidade foi um tema que me interessou porque, justamente, me tornei mãe e me dei conta de que a relação mãe/filho, que, no começo, parece inseparável, com o tempo, e os anos, vira uma separação irreparável. Ter a mãe que está começando, a que já vai morrer. Poder ver tudo o que se passa na vida dessas mulheres foi o que me motivou.

A cachorra, Tuna, é o centro da casa. Depois, o bebê começa a concentrar a atenção. Pode dizer como surgiu esse foco narrativo?

De verdade, Tuna é sempre o foco da casa para a sra. Pilar, e isso é o que desperta o ciúme da filha, Patrícia. Há uma cena em que Patrícia pergunta à filha se sua mãe já subiu ao quarto para ver o bebê e ela responde que não. Tuna é o único ponto de amor puro e incondicional que existe na casa. Por isso a cachorra é tão importante. Funciona como contraponto ao eixo dramático familiar.

Sem exagerar, posso afirmar que Umberto D, de Vittorio De Sica, e Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman, talvez sejam os filmes definitivos sobre a solidão e a velhice. Umberto tem o seu cachorro. Tuna é a sua homenagem a De Sica?

Embora Casadentro fale de maternidade, não deixa de ser um filme sobre solidão, sobre o tempo que passa e a morte. Tudo isso converge no final para um sentimento de perda muito forte. É uma honra ser comparada a tão grandes diretores. Admiro-os como cineasta e cinéfila.

Para uma jovem realizadora, sua mestria na composição dos planos é muito grande. Você utiliza a tela larga, mas busca a intimidade. E valoriza muito o olhar. Às vezes, o foco está fora do quadro. Por quê?

Para mim, é muito importante respeitar o tempo real, e por isso trabalho com planos-sequência e me interesso tanto pela composição do plano e pela construção do olhar das personagens. O que me interessa é conseguir momentos de verdade, mesmo que sejam poucos. A gente só consegue isso trabalhando muito com os atores e, claro, no cinema, o olhar é a ferramenta máxima da intimidade.

Numa cena, a filha de Pilar, Patrícia, está na janela e vê, refletido no vidro, a mãe brincar com a cachorra lá embaixo. É uma cena que diz muito sobre as personagens prescindindo das palavras. Como surgiu?

A cena que você menciona é a minha preferida no filme, e justamente por ser tão cinematográfica. Não há nada que acrescentar, está tudo dito somente pela força da imagem. É um desses momentos mágicos que, às vezes, ocorrem no cinema. Mas acho importante relatar que era uma cena que me deixava em pânico. Não sabia como conseguiria filmá-la sem fazer contraplano e cortar. Toda a estrutura do filme começou a balançar na minha cabeça. Entrei em crise, e foi o que me salvou. Com Inti (Briones), meu grande fotógrafo, comecei a pensar nos reflexos na janela. E conseguimos filmar a cena em plano-sequência, como precisava dentro do conceito estabelecido para Casadentro. Teria sido um desastre se tivesse cortado.

Se me perguntassem, diria que seu filme é sobre nada, mas termina abraçando tudo. Que tal?

Não é a primeira vez que me dizem isso, e estou totalmente de acordo. É um filme no qual não se passa muita coisa, mas aí você vê que se passa tudo. Gosto de fazer filmes que não tenham grandes histórias, filmes cotidianos nos quais pessoas comuns possam se ver (e identificar). Meu segundo filme, Solos, estará em julho no Festival de Cinema Latino-americano de São Paulo. É outra história que se passa no dia a dia, nos pequenos momentos de realidade da vida das pessoas. Mas também é um filme sobre o cinema, sobre a juventude e a solidão. Espero que o público que vir Casadentro, queira também ver o outro filme.

Tuas atrizes são todas boas, mas Elide Brero, que faz Pilar, é genial. Quem é?

Elide Brero é uma atriz muito conhecida no Peru. É a protagonista de Caídos del Cielo, que talvez seja meu preferido entre todos os filmes realizados por meu pai. Quando a convidei para o papel, ela resistiu. Disse que estava muito velha, que já tinha 82 anos e estava cansada de trabalhar. Por sorte consegui convencê-la e, depois de Casadentro, Elida fez mais dois filmes. Ela é espetacular. Tem muita energia e seu bom humor foi importante para agregar as pessoas no set.

Diretores sempre dizem que é difícil filmar com animais. Como foi com a Tuna?

Foi horrível! Meu pai sempre me dizia para nunca filmar com animais, mas foi a primeira coisa que fiz. O que ocorre é que não podia prescindir da Tuna. Sem ela não haveria filme. Trabalhamos com dois cachorros. Eles foram treinados e passaram muito tempo com Elida, para se acostumar e criar um laço afetivo. Ninguém percebe, mas são dois cachorros iguais.

Como filha de um diretor importante, que herança recebeu de Francisco Lombardi? Gostava de frequentar seus sets?

Quando criança, não gostava de ir aos sets. Achava aborrecida aquela coisa de ficar repetindo sempre a mesma coisa. Geralmente, é essa a impressão quando se olha de fora. Mas, depois que optei pelo cinema e comecei a estudar, virei assistente de meu pai e comecei a desfrutar os seus sets. Admiro-o muito, e não apenas por ser meu pai. Isso conta, claro, mas estamos falando de um grande diretor. O que mais aprecio em seu talento é a forma como trabalha com os atores. Papai consegue resultados incríveis com eles.

Seu pai é um diretor narrativo. Você não deixa de contar uma história, mas seu cinema é feito de observações sutis, de olhares e de conflitos que parecem subterrâneos. Essa opção, falando psicanaliticamente, é um desejo consciente de ir ‘contra’ o que faz Francisco?

É verdade que fazemos cinemas diferentes, mas nunca houve esse desejo de ir contra meu pai. Estou convencida de que o cinema que faço é o único que conseguiria fazer, mas isso não quer dizer que não desfrute outros tipos de filmes, como os de meu pai. Vários deles me encantam muito – Caídos del Cielo, La Boca del Lobo, La Ciudad y los Perros.

O cinema peruano ganhou o Urso de Ouro em Berlim, e com um filme dirigido por outra mulher – A Teta Assustada, de Claudia Llosa. Claudia é sobrinha de artistas, o diretor Luis Llosa e o escritor Mario Vargas Llosa. Vocês são a exceção ou está realmente havendo uma abertura para as mulheres?

Existem muitas mulheres diretoras no Peru. É uma coisa geracional. Elas representam uma nova geração e creio que logo estarão estourando nos festivais internacionais. Claudia e eu podemos ter tido facilidades pelo background familiar de cada uma, mas não somos exceções.

Está agora em Moscou. Casadentro está estreando ou participa de algum festival na Rússia?

Estou em Moscou por meu segundo filme, Solos, que estreou no Festival de Roterdã. Solos está fazendo o circuito dos festivais e viajando pelo mundo. Como estava contando, em julho o filme estará sendo apresentado em São Paulo. Gostaria muito, mas ainda não posso garantir que eu também vá ao Brasil. Vou tentar.

*

Claudia Llosa e seu tio cultuado por ter feito filme tão ruim

Na entrevista, Joanna Lombardi Pollarolo deixa clara sua admiração pelo pai, mesmo reconhecendo que não conseguiria fazer os filmes de Francisco Lombardi. Suja pegada é outra, de um cinema mais delicado e intimista, um cinema em que não ocorre muita coisa, mas esse também é um sentimento enganador, porque na verdade o muito que integra a narração de ‘Casagrande’ é dito com tanta sutileza que fica subentendido.

Joanna acha que outra famosa diretora peruana, Claudia Llosa  que venceu o Urso de Ouro em Berlim por La Teta Asustada – também pode ter sido, como ela, beneficiada pelo background familiar, mas já há diretoras de uma geração posterior que, sem pais e tios conhecidos, também estão conseguindo trilhar seu caminho e fazer avançar o cinema do Peru.

Claudia é sobrinha de Mario Vargas Llosa e do diretor Luis Llosa. O tio escritor venceu o Nobel de Literatura. O tio cineasta dificilmente seria referência para seu cinema autoral. Luis fez um filme cultuado às avessas  por ser tão ruim, Anaconda, com Jennifer Lopez. / L.C.M.

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