ESTRÉIA-David Lynch adere ao digital em 'Império dos Sonhos'

Veterano cineasta conhecido pelaousadia de seu estilo, o norte-americano David Lynchexperimentou pela primeira vez uma câmera digital, operada porele mesmo, para filmar "Império dos Sonhos", que estréia nestasexta-feira em circuito nacional. A experiência valeu-lhe um prêmio por seu uso da novatecnologia no Festival de Veneza de 2006, onde aconteceu aprimeira exibição mundial do longa. A estrela de "Império dos Sonhos" é Laura Dern,protagonista de um dos trabalhos mais conhecidos do diretor,"Coração Selvagem", que venceu a Palma de Ouro no Festival deCannes em 1990. Ela interpreta Nikki Grace, atriz convidada para atuar narefilmagem de uma produção que, iniciada na Polônia há algunsanos, foi interrompida depois da morte de seus protagonistas. Estes incidentes não impressionam Kingsley (Jeremy Irons),diretor desta nova filmagem, que convida também o ator Devon(Justin Theroux) para contracenar com Nikki. Uma figuraestranha que vaga pelo set é Freddie (Harry Dean Stanton). Apesar de apresentado como produtor, ele se veste comdescuido e vive pedindo dinheiro emprestado aos atores. A partir daí, torna-se cada vez mais difícil traçar umafronteira entre realidade e ficção. Nikki vive no dia-a-dia aproblemática de sua personagem no filme, Susan Blue, que seenvolve num caso extraconjugal com Devon, exatamente como nahistória. O caso desperta tensão, por conta do intenso ciúme doameaçador marido da atriz (Peter J. Lucas). À medida que Nikki vai abrindo portas, outras dimensõesentram em cena. Como as sequências do filme polonês que setentou fazer e especialmente a curiosa sala dos coelhinhos --onde se vêem pessoas com cabeças de coelhos agindo e falandocomo humanos, com as vozes dos atores Scott Coffey, Naomi Wattse Laura Harring (as duas estrelas de "Cidade dos Sonhos", domesmo diretor, de 2001). Anteriormente, o diretor produziucurtas com estes intrigantes coelhinhos, que foram colocadospara exibição no seu site (www.davidlynch.com). Os ambientes se sobrepõem, delimitando o território destasdiversas realidades. Há uma casa com jardim na frente, umquarto onde alguém dorme sob uma coberta verde, iluminado porvários abajures. Há uma insistente meia-luz quase sempre. Àsvezes, a luz explode e cega, em vez de revelar ou esclarecerqualquer coisa. Indomável, Nikki/Susan prossegue. Entra num galpãomisterioso, sobe uma escada, o rosto visivelmente marcado poralgum golpe. Logo mais, encontra uma espécie de detetive (Lynchvolta a símbolos de seus filmes anteriores, como "Twin Peaks"). Num cinema antigo, uma mulher polonesa que chora assiste àsobreposição de planos, fatos, ou o que quer que isto seja,numa tela. O cinema de Lynch olha incessantemente para dentrode si mesmo, desdobrando suas camadas. A passagem por Los Angeles, inclusive pela famosa Calçadada Fama, recoberta de nomes de estrelas de Hollywood, lembraque Lynch mais uma vez está fazendo referência à máquina decriação de sonhos que é a meca do cinema, como fez em "Cidadedos Sonhos". Desafiando não só a inteligência, como a paciência de seusespectadores, já que o filme tem 3 horas de duração, o diretorlança, como sempre, um desafio a eles. Pode ser que muitosdesistam de tentar a compreensão de uma história complexa emuito misteriosa. Mas ninguém pode reclamar de tédio. DavidLynch continua um dos mais criativos provocadores do cinemaatual. (Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

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