ESTREIA-Cláudio Assis retrata Recife de forma poética em 'Febre

O Recife que se vê nos filmes do diretor pernambucano Cláudio Assis é sempre inesperado. Do colorido doentio de "Amarelo Manga" (2002) à violência quase insuportável de "Baixio das Bestas" (2006), a cidade que surge na tela sempre se afasta não só dos cartões postais, como das experiências diretas que se tenha da solar capital de Pernambuco.

REUTERS

21 de junho de 2012 | 13h27

A doçura pernambucana ressurge em parte em "Febre do Rato", terceiro e premiado longa do cineasta, em que a primeira estranheza vem do fato de as paisagens do Recife serem reveladas em preto e branco - numa fotografia linda do veterano Walter Carvalho que redescobre a cidade pelo seu avesso.

De novo, Assis se debruça sobre a periferia, o mangue, as favelas, afirmando desde os primeiros fotogramas a profunda divisão do Recife, símbolo de uma desigualdade intrínseca aos quatro cantos do País.

Bem mais do que seus longas anteriores, aqui Assis procura a beleza e a extrai da poesia, recorrendo a vários poemas escritos por seu habitual roteirista Hilton Lacerda - autor também deste roteiro - e que na ficção aparecem como obras de Zizo (Irandhir Santos), o poeta marginal que edita o tabloide "Febre do Rato" - uma expressão popular do Recife para designar "fora de controle". Ou aquilo que, na antiga canção de Chico Buarque, "não tem vergonha, nem nunca terá, o que não tem juízo".

Zizo é assim, um personagem anárquico, apaixonado, intenso, extremo, que desafia a lógica e o bom senso. Imprime seu jornalzinho numa prensa primitiva e sai pelas ruas, com um carro velho, microfone acoplado, propagandeando os versos do dia. Menestrel sem patrão, vive num fundo de quintal, perto da mãe (Ângela Leal) e fazendo a alegria de duas maduras vizinhas, Stella Maris (Maria Gladys) e dona Anja (Conceição Camarotti), a quem não nega seu corpo, satisfazendo-as na água de um tanque que é o centro dos prazeres de seu pequeno mundo.

Neste espaço em que a transgressão comanda, o casal que Zizo mais admira é formado por Pazinho (Matheus Nachtergaele) e Vanessa (Tânia Granussi), um travesti. Os dois vivem uma relação conturbada, entre traições e ciúmes, se largam, voltam, se agridem, se completam de um jeito alucinado e imperfeito que cai sob medida para a visão poética de Zizo - embora nessa aliança amorosa haja também muita dor.

O próprio Zizo vai beber sua taça de fel ao apaixonar-se pela jovem Eneida (Nanda Costa), uma colegial que não se enquadra muito no seu ambiente, mas ainda assim faz o poeta perder a cabeça, especialmente por não corresponder à sua paixão. Eneida está longe de ser pudica, mas o poeta não a atrai fisicamente e isto se torna uma razão para seu desespero.

Nesse universo de personagens marginais, que vivem à procura de festa e liberdade, Zizo lidera uma "antimanifestação da Independência", conduzindo seus amigos ao centro da cidade, num 7 de setembro. Nessa sequência - que envolve nudez e um confronto em parte real com a polícia -, o filme evoca uma conexão com o passado, com o Cinema Novo, com um cinema brasileiro mais visceral e arriscado.

É o filme mais bonito de Assis, de uma beleza crua e rude, mas que ele encontra de verdade, tirando o belo da pedra, de onde não se procura, nem se espera, mas está lá. Talvez a sua ousadia incomode - há cenas que escandalizarão, quem sabe, uns tantos -, mas é o tipo de história que precisa ter o direito de também existir.

Estreando em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, "Febre do Rato" foi o grande vencedor do Festival de Paulínia 2011 - com oito prêmios, inclusive melhor ficção, ator e atriz - e também foi exibido no festival holandês de Roterdã (de cujo fundo, Hubert Bals, saiu parte de seu financiamento).

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

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