Estréia Bubble, o novo filme de Steven Soderbergh

Bubble, o novo filme de Steven Soderbergh, destaca-se pelo seu lado inquietante. O que não é novidade em se tratando de Soderbergh que, logo no começo de carreira ganhou uma Palma de Ouro em Cannes com o diferente sexo, mentiras e videoteipe - assim mesmo, com todas as palavras em minúsculas. É uma alma irrequieta, aberta às alternativas, que busca novos ângulos de abordagem de velhas histórias e emprega técnicas diferentes. Em Bubble, ele optou pela "filmagem" em vídeo de alta definição, e trabalhou com atores não profissionais. Isso, logo após ter dirigido a superprodução de entretenimento Doze Homens e outro Segredo. Enfim, Steven é surpreendente. E como surpreende nesta história de um triângulo amoroso vivido numa pequena fábrica de bonecas no meio-oeste americano. Soderbergh filmou in loco, na última fábrica de bonecas semi-artesanal que existe nos EUA. Usou gente do local. Conseguiu uma estranha veracidade nessa história sincera que, por outro lado, às vezes parece tão artificial, sobre a relação entre dois dos empregados dessa fábrica - Martha e Kyle. Ele, um rapaz, ela uma senhora de meia-idade, se tornam amigos e, ocasionalmente, mais do que amigos. Entre os dois, intromete-se a nova empregada do local - Rose, com quem o rapaz inicia relacionamento. Acontece um crime e, em seguida, a investigação. Mas seria engano considerar Bubble um filme de gênero policial ou mesmo noir, no sentido clássico do termo. A pretexto do crime, Soderbergh pinta o retrato de uma América que lhe parece um tanto excêntrica, para dizer o mínimo. Se o cinemão comercial procura vender um retrato normalizado da América, ainda que fale de assaltos ou outros atos anti-sociais, esse tipo de cinema da periferia põe o dedo no lado doente dessa sociedade. Há uma diferença fundamental entre os dois. O cinemão aponta o desvio para melhor valorizar a regra. Seu ponto de honra é o retorno à normalidade, a volta à casa, por assim dizer, depois de cumprida a aventura ou vencida a aberração. Sua ênfase é na cura. O "cineminha" vai direto à anomalia. Foca sua atenção no desvio e procura revelar como ele próprio se inscreve no âmago da experiência social. Sua ênfase é na doença. É nessa América fora dos grandes centros, e um tanto fora dos eixos também, que essa história de outsiders ganha dimensão. Não parece por acaso que, no centro do país modelo da pós-industrialização, a escolha tenha recaído sobre um resto da sociedade quase pré-industrial, uma fábrica de bonecas de fato mais obsoleta que artesanal. Não parece acaso também que seja nessa fábrica de simulacros humanos que Soderbergh concentre sua análise certeira (porém fria) de um estágio da civilização. Não se pode dizer que suas conclusões implícitas sejam otimistas.

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