Estréia "A Noiva-Cadáver", de Tim Burton

Ex-animador que se rendeu aos prazeres e dissabores dos filmes de ficção com atores de carne e osso, o diretor norte-americano Tim Burton volta às origens com A Noiva-Cadáver, um conto de fadas de tom macabro inspirado no folclore russo. Aqui, o autor do ainda recente sucesso Charlie e a Fantástica Fábrica de Chocolate retoma a parceria com o ator Johnny Depp (a quinta com o protagonista de Edward Mãos de Tesoura), que empresta a voz a Victor, filho de novos-ricos de uma vila européia do século 19 em vias de concretizar um casamento arranjado com Victoria (Emily Watson), filha de um casal de aristocratas decadentes. Como a maior parte da filmografia de Burton, A Noiva-Cadáver tem os dois pés no além-túmulo: humilhado pela família da noiva, Victor foge para a floresta e lá pratica os votos de núpcias em um galho enterrado no chão. Este, na verdade, vem a ser o ossudo dedo de uma jovem morta a caminho do altar (Helena Bonham-Carter, mulher do diretor de 49 anos), que arrasta o pobre Victor para o mundo dos mortos, acreditando ter consumado o casamento tão esperado. Como em Beetle Juice (1988), a trama transcorre entre esses dois universos, aqui distinguidos por cores vibrantes e frias. Em entrevista ao Estado, durante o Festival de Veneza, um bem-humorado Burton disse que A Noiva-Cadáver pode ser entendido como uma história de amor que nem a morte consegue desfazer. Seus filmes, em geral, giram em torno de temas e personagens sombrios. O senhor tem alma lúgubre? É um rótulo que tem me perseguido a vida inteira. Acho que isso faz parte da cultura americana, essa coisa de ser rotulado por alguma característica particular quando se é ainda muito jovem e que gruda em você não importa o quanto você cresce, não importa o que faça para se livrar disso. Em geral, começa nos tempos de escola. E que tipo de garoto o senhor era na escola? Eu era um menino quieto, introvertido, que gostava de filmes de monstros. Mas nunca me vi como um garoto estranho. Talvez as outras pessoas me vissem assim porque eu adorava os filmes japoneses sobre Godzilla (risos). Hoje, se eu sair na rua vestido de palhaço, rindo de tudo e de todos, ainda vão dizer que tenho uma personalidade sombria. Mas o que há de mal em ser um pouco anti-social e gostar de Godzilla? Na animação tradicional, os animadores trabalham sobre os diálogos pré-gravados. Quem veio primeiro, os bonecos ou as vozes? No caso de A Noiva-Cadáver, primeiro construímos os bonecos, depois trabalhamos as vozes. O estranho é que desenhamos todos os personagens antes e, quando chamamos Johnny (Depp) para fazer o Victor, percebemos que o boneco se parecia um pouco com ele (risos). Foi muito estranho... Por que, na verdade, todos os personagens acabaram se parecendo um pouco com seus intérpretes, como o de Albert Finney. Durante as sessões de gravação dos diálogos, mostramos aos atores os desenhos de seus personagens para que eles tivessem um pouco do sabor da aparência deles na tela. E, certamente, acho que eles, os atores, se transformaram um pouco em seus bonecos. Para mim, os atores conseguiram transcender a animação e fizeram de A Noiva-Cadáver um filme tradicional, como outro qualquer com atores de carne e osso. Esta é a quinta vez que o senhor trabalha com Johnny Depp. O que há de tão especial nele? Ele é um ator raro. Ele é capaz de se transformar a cada novo trabalho. E consegue ser uma pessoa diferente em todos os filmes. A Noiva-Cadáver (Corpse Bride, R.Unido/2005, 76 min.). Dir. Tim Burton. Livre. Em grande circuito. Cotação: Bom

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