Estréia a animação Carros, da Disney-Pixar

John Lasseter deveria ter vindo ao Brasil para promover "Carros", mas sua viagem, por problemas de agenda, teve de ser cancelada na última hora. Ele já esteve no País, que adorou. É fã de futebol. Por Lasseter, ficaria conversando sobre a participação do Brasil na Copa. O repórter critica a política de resultado do técnico Parreira. O show, para ele, é vencer. Dane-se a beleza do jogo. O Brasil só jogou uma boa partida até agora - contra oJapão, quando Ronaldo desencantou, um pouco porque o adversáriodeixou, mas também porque o treinador da seleção japonesa é umbrasileiro, que tentou levar para a Ásia algo da elegância emalícia do nosso futebol, é verdade que prejudicado pelo fato deque eles não têm craques. E o que tem feito a diferença é aqualidade individual do jogador brasileiro. "Mesmo nos esportes coletivos, é sempre assim", comentaLasseter. "Michael Jordan tinha estilo. Ronaldinho também tem."É - mas o Ronaldinho da Copa não tem sido o melhor do mundo.Chega de futebol e vamos ao filme. É onde começa a discordânciade Lasseter com o repórter. É possível ver no filme dele umcomentário político sobre os EUA de George W. Bush. "Você viu e,se viu, é porque ele está no filme, mas não era a minha intenção pelo menos inicial." Carros produz estranhamento no começo, principalmentese você não é fissurado em todos aqueles modelos. Carroshumanizados, falando, namorando. É mais fácil aceitar umpeixinho, como em Procurando Nemo, ou bonecos, como em Toy Story 1 e 2. O filme melhora muito com a entrada do velhocampeão, Doc Hudson, cuja voz, no original, é a de Paul Newman(no Brasil, quem faz a dublagem é Daniel Filho). É quando o resgate da velha Rota 66, abrindo-se para umcenário de vales e planícies, recupera o verdadeiro espírito daAmérica, o de John Ford, que construiu a grandeza mítica danação do Norte.Desafio para animadores: criar reflexo no metal polido Lasseter não vê o filme dessa maneira. Para ele,Carros representa uma espécie de purgação. "Sou muitocompetitivo e quero viver a vida em alta velocidade. Os carrosme fornecem uma metáfora estimulante. Minha mulher representa ofreio. Há quatro, cinco anos, ela me disse que precisava parar,que o tempo estava passando muito depressa e quando eu abrisseos olhos o tempo já teria passado e eu teria perdido o convíviocom nossos filhos." Procurando Nemo já tratava disso, do amor entre pais e filhos. "Não sou contra a competição. Sou contra o que muitas vezes se sacrifica em nome dela", explica o diretor.No filme, o carro individualista, Relâmpago McQueen, que nãoprecisa de equipe no pit-stop, vai parar, graças a um incidente,na cidadezinha estagnada no tempo. Por ali passava a Rota 66,mas ela foi desviada para dar origem a uma highway. Acidadezinha morreu.Ali reside, incógnito, o velho campeão. Você podeimaginar o que vai ocorrer - o carrinho vai retornar às pistas,a cidadezinha vai reviver, as lições do velho campeão serãoretomadas. É o eterno tema da segunda chance, que ronda o cinemae a animação americanos. "Começamos a trabalhar na história em dezembro de 1999",lembra Lasseter. Ele diz que não conhece a animação deHanna-Barbera na qual se pode ver a origem de Carros. Ouve orepórter, que lembra o caráter de bicho doméstico que os carrostinham nas velhas comédias mudas, nos primórdios do cinema. Ocarro só virou símbolo de massificação e se tornou, ao mesmotempo, objeto de desejo e ameaçador, com a industrializaçãopesada. Lasseter ressalta - "Carros sempre foram personagens de animação. Tex Avery criou um desenho clássico e a Disney fez umaanimação, em 1952, que eu adorava, Susie the Little Blue Coupe". O próprio Herbie, da série Se o Meu Fusca Falasse, da também da Disney, é um dos filmes cults da infância de Lasseter, por isso ele diz que não houve uma influência ou uma referência, mas várias.Diretor não vê diferença entre público adulto e infantil Para Lasseter, não existe uma diferença muito grandeentre o público adulto e o infantil. "Os adultos levam ascrianças aos cinemas e todo adulto já foi criança", define.Ambos, o adulto e a criança, precisam ser seduzidos pelahistória, que tem de ter camadas diversas de leitura einterpretação. "No cinema, é sempre assim. Sempre existe oespectador capaz de uma análise mais aprofundada." A história de Carros foi reescrita várias vezes, mesmo quando o processo de animação já ia avançado. "Nós, da Pixar,consideramos a técnica de animação uma ferramenta que colocamosa serviço da história, que tem de vir primeiro." Essa trama temde resgatar valores humanos, familiares, afetivos. Em outra entrevista, há três anos, em Los Angeles,Lasseter havia confessado que o maior desafio técnico de Nemo foi criar a água, com as distorções visuais e os efeitos de cor que ela produz. Qual foi o desafio de Carros? "Na verdade, foram dois", ele diz. "Começamos a animação e, ao cabo de certo tempo, com boa parte das imagens já colhidas, tivemos de parar tudo. Nosso desenho não reproduzia o que há de mais atraente e fascinante no carro. O metal pintado e polido assemelha-se a umespelho, no qual se reflete o próprio mundo ao redor. Sem essesreflexos, nossos carros não seriam verdadeiros." Outra coisa: "Quando fiz a pesquisa para Carros,descobri todas aquelas velhas cidadezinhas abandonadas ao longoda Rota 66. Sem essa qualidade do tempo, da coisa vivida, do pó,do abandono, a cidadezinha de nossa história não iria funcionar.E isso é muito difícil de criar com computador. O que você criaali é o novo. Tivemos de desenvolver toda uma tecnologia pararesgatar o velho." No quesito ?resgatar o velho?, entra na conversa olendário Paul Newman, que, aos 81 anos (nasceu em 1925), aceitouemprestar sua voz a Doc Hudson."Quando começamos a desenvolver opersonagem, pensamos que seria maravilhoso contar com Paul. Elepassou a ser, secretamente, nosso modelo, mas chegou o momentoem que ou o teríamos ou não. Liguei para Paul, achando quereceberia um não, mas ele foi muito simpático. Pediu detalhes doprojeto e terminou aceitando. Paul é muito ligado no circuitoautomobilístico. Já correu e fez um filme sobre corridas." Lasseter refere-se a 500 Milhas, de James Goldstone,de 1969 - um belo filme pouco conhecido e valorizado, aliás. Opróprio nome do herói, Relâmpago McQueen, carrega uma homenagema outro ás - Steve McQueen, também ligadão em velocidade. Aconversa pelo telefone tem de terminar, mas uma última pergunta- técnica ou emoção? "Para nós, da Pixar, o filme tem de ter umcoração. Pode parecer piegas, mas acho que, no fundo, foi o quenos permitiu fazer a ligação com a Disney. "Nemo, Os Incríveis,Toy Story, Carros" são todos filmes com coração."Carros (Cars, EUA/2006, 116 min.) - Animação. Dir.John Lasseter. Livre. Em grande circuito. Daniel Filho dubla Paulo Newman Pouca gente sabe ou se lembra, masDaniel Filho foi dublador, no começo de sua carreira. Naquelestempos heróicos da TV, havia dois médicos de plantão na telinha,cada um tentando arrancar mais suspiros das platéias femininas -o dr. Ben Casey, interpretado por Vince Edwards, e o dr. Kildare de Richard Chamberlain. Daniel Filho adocicava a voz para fazero dedicado (e sedutor) dr. Casey. Vieram, depois, os filmes, a Globo, os filmes de novo. E agora, quase 50 anos mais tarde, ei-lo mais uma vez comodublador. O velho campeão Doc Hudson fala pela voz de DanielFilho na animação Carros, de John Lasseter, que estréia nesta sexta-feira nos cinemas brasileiros. No original, a voz é dePaul Newman. Daniel está achando um barato dublar o ator que, tendoencarnado o rebelde, quando ele próprio começava, no Brasil,adquiriu depois as tintas do galã e foi sempre um dos astrosmais queridos e respeitados de Hollywood. "Todo mundo queria osolhos azuis do Newman, eu queria a barriguinha dele. O carachegou aos 80 anos com aquela barriga de 20. É um fenômeno." Ele conta que o trabalho de dublagem ficou cada vez maisfácil. "A gente fica ali sozinho no estúdio, não contracena comninguém. Ouve o que os outros já gravaram, ou ouve o original,encaixa sua voz e tem até um diretor para controlar o timing."Dublar Paul Newman foi fácil. "Se alguém teve problemas, foiele, porque, quando um ator do porte de Newman aceita fazer adublagem de uma animação, ele não está apenas emprestando suavoz. Suas deixas são gravadas antecipadamente e os animadorespassam a trabalhar sobre elas, dando ao personagemcaracterísticas que são do ator. Meu problema, aqui, é só falarno ritmo certo e não exceder o espaço deixado para as minhasfalas."Relaxado como poucas vezes na vida, Daniel Filho curte osucesso de sua comédia com Tony Ramos e Glória Pires. "Se EuFosse Você" atingiu estratosféricos 3,7 milhões de espectadores,um número tanto mais expressivo porque a média do cinemabrasileiro anda muito baixa. Há um número grande de filmes quesequer atingiram 15 mil espectadores. Daniel curte o sucesso, mas tenta não se deixarinfluenciar por ele. Já tem um filme pronto, feito na suaprodutora Lereby e que deve estrear no começo de outubro, MuitoGelo e Dois Dedos d?Água. Daniel reinventou o gênero ?mudançade corpos? com sua comédia que estourou na preferência dopúblico. No próximo, reinventa o filme de estrada. "É meu melhorfilme", avalia. Está preocupado com a bilheteria? "Se eu ficarpensando nisso, se vou bater ou não o Se Eu Fosse Você, não façomais nada."Começou a dirigir em 1969, com Pobre PríncipeEncantado, comédia formatada para o dublê de cantor e galãWanderley Cardoso, Daniel Filho fez, em 1983, O CangaceiroTrapalhão, que permanece como um dos maiores sucessos de RenatoAragão. Somando-se os filmes que dirigiu e produziu, elerepresenta, tranqüilamente, 22 ou 23 milhões de espectadores.Por isso mesmo, não teve dificuldade para montar, em três meses,o projeto que pretende começar a filmar em outubro. Daniel Filhovai adaptar O Primo Basílio, de Eça de Queiroz, com açãotransposta a São Paulo do fim dos anos 1950. Vai filmar aqui.Será um retrato de época da cidade e do Brasil. "A indústria automobilística estava sendo implantada,Juscelino Kubitschek construía Brasília e, nesse quadro,desenrola-se a história de amor." Dois, três filmes num ano, deformatos e ambições diversas, Daniel Filho prova a vitalidade docinema nacional. (Luiz Carlos Merten)Trilha tem rock antigo e countryMisto de score original composto porRandy Newman e compilação de canções pop, o CD com a trilhasonora de Carros (Walt Disney Records) repete a fórmulabem-sucedida, comercialmente, de uma infinidade de outras dogênero. A música incidental ocupa 11 das 20 faixas e alternaclimas de serenidade e euforia. Um dos pontos favoráveis é que não há nenhum daquelestemas lacrimosos e pomposos candidatos ao Oscar, tipoPocahontas, interpretados por cantoras gritalhonas queproliferam como Gremlins. Há um forte acento country nos temasoriginais, como seria de se esperar de um expoente do gênero,como Newman. Em certos momentos, como na Corrida de Abertura e emMcQueen Perdido, a música remete a temas de filmes famosos comoSuper-Homem ou Indiana Jones (que servem às mesmasprevisíveis funções em cenas de ação), alternando com investidasno rock. Supondo que o público infantil seja o alvo principal, édifícil que as tais faixas sejam ouvidas fora da sala deprojeção. Apesar de canções exclusivas e novas de Sheryl Crow,Brad Praisley e James Taylor, nessa parte, Carros é um tantoretrô como suas similares, mas pelo menos a molecada queacompanha filmes de animação tem sido brindada com clássicos dopop-rock e de alguma maneira isso contribui para melhorar orepertório. Assim, teve Elvis Presley em Lilo & Stitch, The Ventures em Madagáscar, James Brown em Robôs e outras coisas bacanas em Shrek. Carros tem velharias divertidas como Sh-Boom, com The Chords (1954), e duas versões do maior clássico da canção estradeira: Route 66. Uma recente, cantada por John Mayer; e a melhor, de 60 anos atrás, na voz do outro Rei do Rock: Chuck Berry. Irretocável. (Lauro Lisboa Garcia)Carangos e Motocas foi sucesso nos anos 70 e 80"Eu lhe disse, eu lhe disse... Mas eulhe disse, eu lhe disse..." John Lasseter diz que não se lembra,mas quem foi criança nos anos 70 e 80 não se esquece do bordãoda motoquinha que terminava assim os episódios de Carangos eMotocas. Em um mundo habitado só por carros e motos, o simpáticofusquinha Wheelie e sua namorada Rota viviam às voltas com aTurma do Chapa, formada por quatro motocas que estavam sempretramando armadilhas para acabar com o pobre Volkswagen e ganharo amor da bela Rota. O irônico é que todos os personagensfalavam, menos Wheelie, que, para se expressar, buzinava emostrava figuras no seu pára-brisa. Falante ou não, Wheelie, criação da Hanna-Barbera, hojeé cult de marmanjos saudosos. Em 2005, o Boomerange reprisou os39 episódios do desenho, que só durou uma temporada, exibida de1973 a 1974 na NBC e reprisada à exaustão nos anos seguintes. Antes de Wheelie, carros animados já haviam feito aalegria das crianças nos anos 50. Susie, the Little Blue Coupe foi criada em 1952 pela Disney e o lendário Tex Avery criou Car of tomorrow, uma série de curtas sobre como ele imaginava que fossem os automóveis do futuro. Com certeza, o criador do politicamente incorreto Pernalonga não imaginou que seriam como o bom moço Relâmpago McQueen. (Flávia Guerra)

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.