Estréia 16 Quadras, protagonizado por Bruce Willis

Spike Lee fez um filme no qual o cinismo dá o tom das relações entre os personagens para refletir o mundo globalizado em que vivemos. O Plano Perfeito pode ter qualidades narrativas e de estilo, mas se destina aos céticos, aos que não acreditam em mais nada, aos que se cansaram de dar murro em ponta de faca. Mas o filme de Spike Lee pode crescer. Basta compará-lo com 16 Quadras, de Richard Donner, que estréia hoje. É um thriller de ação. Narrando a trajetória de uma dupla redenção, o filme não deixa de expor os limites do idealismo num mundo cada vez mais corrupto e cínico. O universo filmado por Donner não é muito diferente do retratado por Nelson Pereira dos Santos em Brasília 18%, que também estréia hoje. Como Três Enterros e A Estrela Solitária, 16 Quadras conta a história de um trajeto físico. Pode ser a fronteira, no filme de Tommy Lee Jones; a América interiorana, no de Wenders; é a cidade em 16 Quadras. O título refere-se ao número de quadras que o tira interpretado por Bruce Willis tem de percorrer para levar ao tribunal o criminoso que vai depor num processo que investiga a corrupção na própria polícia. No caminho, os antigos parceiros de Willis vão tentar matar o herói interpretado pelo rapper Moss Def. O mais virulento desses tiras bandidos é interpretado por David Morse. Willis, no começo, é um homem cansado, aborrecido da vida (e da função). É pressionado a assumir a tarefa, que não quer. Quando a assume, é o instinto que o leva a reagir num ataque a Moss Def, matando um policial e selando a sorte de ambos, que passam a ser implacavelmente perseguidos. Bruce Willis, desde que largou a série Duro de Matar, vem se especializando nesses papéis de policiais em crise, nauseados daquilo que eles próprios representam. Donner, que dirige 16 Quadras, foi o homem que criou a série Máquina Mortífera, que fez grande sucesso de público. Donner pode não ter inventado, mas com certeza aperfeiçoou, para os espectadores, a fórmula da dupla de policiais, um branco e outro negro, que vai à luta. O público adorava ver as brigas e também a união de Mel Gibson e Danny Glover. Donner volta agora à dupla branco-negro, mas não necessariamente para discutir a questão racial, como Hollywood fazia nos anos 1950 e 60, em filmes que se tornaram clássicos, como Acorrentados, de Stanley Kramer. Existem observações sobre as diferenças sociais (e raciais) entre Willis e Moss Def em 16 Quadras, mas a fórmula de ação é aqui é a de outra série - a de 48 Horas, na qual o policial Nick Nolte transforma o prisioneiro Eddie Murphy em parceiro contra o crime. 16 Quadras pode ser descartado como um filme de fórmula, mas suas boas intenções pedem uma análise um pouco mais demorada. Existe, lá pelas tantas, uma revelação que envolve o personagem do policial (mas ela, no fundo, é mais ou menos esperada). Donner, que não tem o histórico autoral e político de Spike Lee, não quer acreditar na amoralidade da corrupção como valor nesse mundo em que ela provoca escândalo, mas é inerente ao tipo de sistema socioeconômico que dá as cartas. É a tese de George Clooney e Steve Gaghan em Syriana, provada diariamente com as denúncias que atingem o governo americano, mas às quais ninguém dá a devida atenção, considerando-as intrigas da oposição. A redenção no desfecho de 16 Quadras pertence às convenções do cinema de Hollywood, mas é bom que filmes assim sejam feitos. Pelo menos, suscitam o debate. 16 Quadras. 14 anos. Em grande circuito. Cotação: Regular.

Agencia Estado,

21 de abril de 2006 | 13h16

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