Niko Tavernise/Warner Bros.
Joaquin Phoenix como Arthur Fleck em Coringa Niko Tavernise/Warner Bros.

Este Coringa também é um dançarino

A dança é o que permite a Arthur Fleck, interpretado por Joaquin Phoenix, relaxar, flutuar no espaço e empoderar-se no papel de vilão

Gia Kourlas, The New York Times

14 de outubro de 2019 | 17h55

(Este artigo contém spoilers de O Coringa)

O personagem que dá título ao filme Coringa chegou à idade adulta não da maneira que você imagina – com uma ladainha de piadas –, mas por meio da linguagem silenciosa da dança. É nesse papel não verbal que o desempenho de Joaquin Phoenix, juntamente com a partitura melancólica de Hildur Gudnadottir, dá ao filme uma tristeza incontrolável.

Você não consegue banir completamente seu eu verdadeiro quando dança; Arthur Fleck ainda está em algum lugar dentro de Phoenix, mesmo quando ele se transforma no Coringa. O que torna a interpretação de Phoenix tão comovente – e não se trata apenas de uma história do bem contra o mal – é a maneira como ele coloca basicamente dois personagens num corpo que dança.

Do mesmo modo que o Coringa assume o controle com passos confiantes e empertigados – sua postura ereta é como se ele olhasse de cima para o resto do mundo -, a dança permite a Arthur, fragilizado pela tensão, relaxar. Amolecer um pouco. Flutuar no espaço.

Coringa dividiu os críticos, mas num aspecto eles concordam: Phoenix é um grande dançarino. E estão certos. Não é só a maneira como ele se movimenta, com uma finesse não cultivada, animalista, como uma estrela de rock. Ou como quando ele estende os braços, evocando os fantasmas de Jim Morrison ou Brandon Lee em The Crow. Tem a ver mais com a maneira sutil com que seu corpo expressa emoção: você vê a mente trabalhando e por causa disto a dança entra num outro universo.

No filme, dirigido por Todd Phillips com coreografia de Michael Arnold, Arthur - que sofre de uma doença mental e foi psicologicamente afetado por abusos e bullying - trabalha como um palhaço de festas. Um aspirante a comediante stand-up, ele se consola assistindo a um talk-show apresentado por Murray Franklin (Robert De Niro). Mas Murray também é um brutamontes.

A dança é o único escape de Arthur, sua força vital. A primeira vez que ele dança não é na cena marcante num banheiro público sujo, depois de ter cometido seus primeiros crimes. É no apartamento em que vive com sua mãe enquanto assiste na TV ao filme de Fred Astaire e Ginger Rogers, de 1937, Vamos Dançar?. A música é Slap That Bass: “O Mundo está uma bagunça/com a política e os impostos/ e as pessoas disputando/ não existe felicidade”.  

Arthur, sem camiseta e usando um jeans folgado, demonstra pouca alegria. Mas quando começa a se movimentar, arma na mão, seus braços balançam sobre sua cabeça. Ele parece mais confiante, gira de um lado para outro e conversa consigo mesmo como se estivesse num talk-show.

“Hei, qual é o seu nome?”

“Arthur”

“Hei, Arthur, você é um dançarino realmente bom”.

Seus braços planam sobre sua cabeça para formar algo como uma coroa de diamantes.

“Eu sei”.

“Sabe quem não é? Ele.”.

Ele pega sua arma e atira no “ele” imaginário. A bala atinge uma parede e nesse momento Arthur fica alarmado e radiante. A dança é o seu caminho para a bravura, algo que nunca soube. À medida que Arthur regride e o Coringa assume o controle, a coreografia se prolonga mais. Na cena do banheiro, o pânico se transforma em poder assustador, Phoenix cruza um pé sobre o outro e gira, envolve os braços na cabeça e em torno do seu torso. Seus ombros se levantam e seus cotovelos se sobressaem perigosamente à medida que seu corpo flutua e infla até que, no momento final, seus braços se estendem para os lados. Esta é a pose de poder do Coringa.

Às vezes, Phoenix, que emagreceu bastante para o filme, parece um dançarino de balé numa pausa do ensaio. Pálido e esquelético, com o cabelo ondulado, colado no rosto, por vezes tem um toque de Rudolf Nureyev ou Sergei Polunin – dois russos com atitude. Sua pele esticada e as costelas salientes. Mas não é apenas uma transformação cosmética. Nem que ele faça balé. Phoenix tem a capacidade enorme de transformar seu corpo – particularmente as costas – num show de horror butô de ângulos bizarros e excêntricos.

 Mas mais do que o butô – forma japonesa conhecida, em parte, por seus movimentos lentos e sombrios –, sua dança envolve o vaudeville. O que faz sentido. Quando criança, Phoenix passava o tempo tocando música com seus irmãos e irmãs em Los Angeles; o vaudeville está no seu corpo. E, quando ele disse à agência de notícias Associated Press que o The Old Soft Shoe, de Ray Bolgers, foi inspiração para a arrogância do Coringa, há também algo de Fred Astaire nos seus movimentos, especialmente na maneira como ele cria leveza e espaço em seu torso.

Mas a dança de Phoenix também é alimentada pela sensação, como se estivesse mergulhando no Gaga, linguagem de movimento criada pelo coreógrafo israelense Ohad Naharin.

O vocabulário é impulsionado pelas imagens. Numa aula de Gaga, os participantes respondem a instruções físicas, como movimentar imaginando que sua espinha é feita de algas – se fica embaraçado ou se contém, não funciona. (Não há nenhum espelho na sala de aula).  Phoenix pode não praticar o Gaga, mas parece compreender a diferença entre pele e carne. É sutil, mas diferente.

O Gaga pode ser bizarro até sensual e táctil, e tem a ver, como disse Naharin, com encontrar uma conexão com o ritmo. Como Coringa, Phoenix descobre isso quando dança descendo uma escada externa, batendo suas pernas em cada degrau numa folia que envolve o corpo todo. Em vez de ser chutado, é ele que dá o chute. É a dança do empoderamento.

O Coringa, que continuamente confunde a realidade, parece menos uma história linear do que uma sequência de danças enlaçadas pelo diálogo. No final Arthur, embora algemado, tem uma música na cabeça e uma sensação de energia. À medida que desaparece no corredor todo branco, ele usa os ombros, que têm mobilidade, que se movimentam para cima e para baixo ao som de That’s Life, de Frank Sinatra. Seus pés deixam rastros sangrentos num diagrama de Arthur Murray. São os nomes no filme, o Arthur de Phoenix, e o Murray de De Niro, uma coincidência?

De qualquer modo, a dança final é uma dança de libertação: enquanto ele conseguir se movimentar, está livre. E Phoenix sabe como se movimentar. Sua dança não é uma piada. 

Tradução de Terezinha Martino 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Joaquin Phoenix como Coringa, no filme que estreia nesta quinta: gênio do crime cruel, longe do pateta brincalhão da TV Warner

Joaquin Phoenix, ‘possuído’ pelo Coringa

Longa de Todd Phillips reflete o mundo ao revelar como se cria o supervilão

Imagem Luiz Carlos Merten

Luiz Carlos Merten , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Joaquin Phoenix como Coringa, no filme que estreia nesta quinta: gênio do crime cruel, longe do pateta brincalhão da TV Warner

Começou a temporada do Oscar, mas quem espera por uma possível candidatura, e até vitória de Brad Pitt como melhor ator em 2020 por Era Uma Vez... Em Hollywood, de Quentin Tarantino, ou principalmente Ad Astra - Rumo às Estrelas, de James Gray, já pode ir desistindo. Joaquin Phoenix está um arraso e a transformação de Arthur em Coringa, no longa de Todd Phillips, que estreia nesta quinta, 3, é de cortar o fôlego. Tudo bem que a Academia não é muito chegada em premiar astros pop, exceto os pops que ela própria elege e transforma em quetais. Joaquin já vem flertando com o prêmio há tempos, poderia até já ter ganhado, mas o seu palhaço do crime é realmente algo muito especial.

Desde Cesar Romero, nos anos 1960, o Coringa já teve várias representações na tela. Jack Nicholson, Heath Ledger, Jared Leto, as principais. Ledger chegou a ganhar, postumamente, a estatueta de melhor coadjuvante pelo filme de Christopher Nolan sobre o cavaleiro das trevas. Coringa, o filme, não é exatamente um blockbuster, nem uma aventura de super-heróis, mas mostra a construção do vilão, o que George Lucas já fez na segunda trilogia de Star Wars, que, cronologicamente, na estruturação geral da série, virou a primeira. Coringa não tem o Batman, mas tem Bruce Wayne, e o descontrole final, o caos do mundo metaforizado pela orgia destruidora dos palhaços, leva à tragédia fundadora do herói das HQs. É um drama, e fortíssimo, e isso talvez avalize as chances do filme no Oscar, já que a Academia, vale ressaltar, não gosta muito de dar prêmios para blockbusters.

Toda a questão colocada em Coringa é basicamente uma - Joaquin Phoenix é genial no papel, mas até que ponto se trata de um bom ou mesmo grande filme? Para criar seu vilão monstruoso, o diretor Phillips retrata o estado do mundo para chegar a essa ausência de esperança que, de alguma forma, gera o que se pode definir como semente do mal. Talvez sejam conceitos muito genéricos e até fáceis, talvez a economia e a política, e a tragédia dos refugiados e imigrantes necessite de focos mais acurados, mas o que está em jogo é o “outro”. Uma das tragédias desse mundo moderno pode estar na crise da palavra, ou então nessa dificuldade, cada vez maior, que as pessoas enfrentam para se abrir para o outro. 

Nesse sentido, Coringa e Encontros, o longa do francês Cédric Klapisch que também estreia nesta quinta, 3, são como as duas faces da mesma moeda. Um filme solar e outro lunar. “A feel good movie”, como dizem os norte-americanos, para fazer o público se sentir bem, e a viagem ao coração das trevas.

Todd Phillips, que dirige Coringa, ganhou projeção com a série de comédia The Hangover/Se Beber, não Case, que completa dez anos em 2019. Bradley Cooper virou astro, tornou-se diretor, concorreu ao Oscar (com Nasce Uma Estrela) e agora produz o Coringa

Parcialmente inspirado em O Homem Que Ri, de Victor Ri - e na interpretação que Conrad Veidt deu do personagem -, o Coringa é um supervilão de ficção que surgiu nas HQs. Criado por Jerry Robinson, Bill Finger e Bob Kane, apareceu pela primeira vez em Batman #1, em abril de 1940. Desde o começo surgiu para ser um psicopata sádico e doentio, com aquela gargalhada sinistra, mas o código de censura dos comics e, depois, da TV e do cinema transformou-o num pateta brincalhão. Tim Burton e Christopher Nolan resgataram o gênio criminoso e cruel. Todd Phillips radicalizou. Como produtor e diretor, ele já andou dizendo que cansou da comédia porque o humor, segundo ele, não dá mais conta de criticar a sandice do mundo. Phillips já se perguntou: como a ficção pode competir com a realidade, se Donald Trump é presidente dos Estados Unidos?

Arthur é um palhaço que ganha a vida segurando cartazes e tropeçando nos próprios sapatões nas ruas de Gotham, que tem como base a cidade americana de Nova York nas histórias da DC Comics. Estamos nos anos 1980, a criminalidade avança, uma greve acumula lixo e os ratos proliferam. Nesse quadro, e ao reagir com violência num incidente no metrô, Arthur vai terminar dando vazão à violência reprimida da massa. O filme tem algo de Watchmen, de Zach Snyder, que também está completando dez anos. É crítico ou conivente com esse direitismo desenfreado que avança pelo mundo? No mundo que cultua o vilão, Bruce Wayne ainda é só uma criança. Um herói para o futuro? Possesso - possuído? -, Coringa surge nos anos 1980, com o neoliberalismo. Os recados estão todos dados.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Genial ou perigoso, só se fala em ‘Coringa’, filme que estreia dia 3 de outubro

Filme estrelado por Joaquin Phoenix estreia mundialmente na quarta-feira, 3 de outubro

Lindsey Bahr, AP

01 de outubro de 2019 | 08h04

Nos 80 anos em que faz parte da cultura popular, o Coringa sempre deu jeito de irritar alguém – seja por seu caráter, seja pelo que ele representa ou até pelas justificativas dos atores sobre o que os levou a fazer papel. Mas desta vez o personagem mexeu com os nervos gerais antes mesmo de estrear nesta quinta, 3 - pré-estreias estão previstas para a quarta, 2.

Os holofotes sobre Coringa (Joker) estão testando limites. O filme sobre o incansável inimigo de Batman vem inspirando artigos a favor e contra. Coringa já está sendo considerado o filme que finalmente dará um Oscar a Joaquin Phoenix, mas também já foi chamado de “perigoso”, “irresponsável” e até “incentivador ao celibato”.

Na semana passada, parentes de vítimas mortas no tiroteio no cinema Aurora em 2012 escreveram ao presidente da Warner Bros. pedindo-lhe que apoie a campanha contra as armas. O estúdio divulgou uma declaração dizendo que o filme não incentivava “nenhum tipo de violência do mundo real”.

O filme teve uma estreia triunfal no Festival de Cinema de Veneza e ganhou o prêmio máximo. E, embora as críticas fossem  na maioria positivas, ele foi também submetido a um duro escrutínio, deixando os realizadores na defensiva.

O diretor e corroteirista Todd Phillips não foge da discussão. “Se preciso, falarei do filme o dia inteiro”, disse ele. Todd apenas gostaria que as pessoas vissem o filme antes de tirar conclusões. “É péssimo quando alguém critica argumentando que ‘não preciso assistir para saber o que é’. Fico atônito ao ver como a extrema esquerda se aproxima da extrema direita quando convém a ela.” A reação negativa antecipada é ainda mais desconcertante para Phillips porque ele esperava e espera que o filme possibilite discussões sobre armas, violência e tratamento dado a pessoas com distúrbios mentais. “É um filme engraçado? Qual é seu impacto sobre a violência no mundo real?”, pergunta o diretor.

O filme mostra como um perturbado homem de meia-idade chamado Arthur Fleck vai aos poucos se tornando o vilão Coringa. Fleck é um palhaço profissional decadente que vive com a mãe em um decrépito apartamento em Gotham e se reporta ocasionalmente a um assistente social. Distribui um cartão às pessoas explicando que suas explosões de riso, incontidas e dolorosas, são consequência de um problema médico. Sua única alegria é assistir à noite ao talk show de Murray Franklin (Robert De Niro).

“Ele é triste e espalha tristeza”, disse Philips. “E sabe o que acontece nos filmes em que o mundo é sem simpatia e sem amor? Você tem o vilão que merece.”

Em Coringa, o ator tem de ir a lugares difíceis e o filme tem complicações adicionais por seu realismo, embora se passe num mundo ficcional. Para fazer Arthur e o Coringa, Phoenix pesquisou pessoas que ele se recusa a mencionar. Também teve de perder 24 quilos numa dieta extremamente baixa em calorias, sob supervisão de um médico. Com o emagrecimento, ele temia que fosse ficar irritadiço, vulnerável, sempre faminto. Em vez disso, a perda de peso levou a uma “fluidez” que ele não previra.

O cenário também é de certo modo fluido e Phoenix disse que ele e Phillips constantemente descobriam novas características no Coringa e em Arthur. “Parecia haver infinitas maneiras de interpretar cada cena e no fim tudo fazia sentido. Em algumas vezes, eu choro, noutras faço piada, noutras me enfureço, mas tudo se completa”, disse ele.

A experiência foi “excitante e surpreendente”, mas fazer Arthur/Coringa também se revelou “complicado e desconfortável” para o ator de 44 anos. Quanto à possibilidade de o público eventualmente usar o personagem como inspiração ou desculpa para seus atos, Phoenix acredita que o ônus cabe a cada um. “O público tem que a descobrir a diferença entre certo e  errado. Não creio que seja responsabilidade do diretor dar lições de moral. Quem não compreender essa diferença poderá se julgar direito de fazer o que bem entender”,  disse Phoenix.

Ele e Phillips frisam que Coringa não é um filme para crianças, nem para todos. “Não espero que todo mundo goste”, disse Phillips. “Se um filme agrada a todos, geralmente é porque não agradou a ninguém.” / Tradução de Roberto Muniz.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Coringa' com Joaquin Phoenix entre a dor e a loucura

Ator consegue rivalizar com outros grandes nomes que interpretaram o vilão, de Jack Nicholson a Heath Ledger

Mariane Morisawa, especial para O Estado, e Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2019 | 07h00

VENEZA - A seleção de Coringa, de Todd Phillips, para a competição do 76.º Festival de Veneza era um indício de que não se tratava de um filme baseado no universo dos quadrinhos como tantos outros que vêm inundando as salas de cinema. E, de fato, o longa prescinde de grandes cenas de ação e efeitos especiais épicos para se inspirar mais nos dramas de Martin Scorsese dos anos 1970 e 1980. Mas foi com certa surpresa que o Leão de Ouro foi recebido.

Com estreia prevista para 3 de outubro no Brasil, Coringa abriu a venda antecipada de ingressos na quinta, 19. No Festival de Veneza, a presidente do júri, Lucrecia Martel, que está bem longe de fazer cinema comercial, elogiou os riscos que a produção correu e a reflexão que faz dos anti-heróis como vítimas do sistema. Mas Coringa não seria o que é, um filme com capacidade de sacudir Hollywood na direção de mais ousadia, sem a interpretação de Joaquin Phoenix, que não se baseou em nenhuma das versões anteriores – de Cesar Romero, Jack Nicholson ou Heath Ledger e muito menos a de Jared Leto. 

“Sou pouco conectado à indústria do entretenimento”, disse o ator em entrevista exclusiva ao Estado, em Veneza. E jurou não ter ideia da quantidade de fãs que a história tinha. “Começaram a me perguntar da pressão dois dias antes do início das filmagens, e eu disse: ‘Não me digam isso agora!’”, contou. “Era tarde demais, mas no começo eu estava na ignorância completa. Ainda bem.” 

Phoenix ama uma reação forte aos filmes que faz. “Seja qual for”, contou. “A indiferença é que me incomoda.” Às vésperas de completar 45 anos, o ator afirmou categoricamente que não pode, no entanto, levar em conta a opinião de ninguém ao fazer um papel. “Nem a do diretor. Para mim, trata-se de uma exploração e uma experiência pessoais. Faço só para mim.” 

Mas quem é este Coringa? Arthur Fleck é um comediante frustrado que trabalha como homem-placa, vestido de palhaço. Mora com a mãe, que insistia que seu destino era ser feliz e fazer os outros rirem, e depende de remédios para seus problemas de saúde mental – ele tem uma condição que faz com que ria descontroladamente. Sendo pobre e esquisito, Arthur é invisível para a sociedade. Quando alguém o enxerga, é em geral para humilhá-lo. Só que, um dia, ele se vê com o poder nas mãos. 

Este Coringa não tem o jeito brincalhão de Romero, nem é transformado em vilão depois de cair num tanque de substâncias químicas como no caso de Nicholson. Não tem um desejo de ver o circo pegar fogo como o Coringa de Ledger, nem sabe-se lá o que Jared Leto estava fazendo. Arthur às vezes inspira pena. “Gosto que o filme peça ao espectador que pelo menos tenha empatia por alguém que é o vilão e que faz coisas horrendas. Às vezes, rotulamos uma pessoa como má, como se fôssemos incapazes dos mesmos atos.” 

Leia a seguir outros trechos da entrevista:

Você falou de divisão, e as sociedades mundiais parecem muito divididas. Acha que falta vontade de ouvir opiniões contrárias às nossas? 

Sim, claro. Não há muito debate saudável. Eu me lembro dos programas de notícia de antigamente. Hoje, eles são uma competição de quem grita mais alto. Há questões difíceis que precisamos discutir. Mas, se ficarmos gritando uns com os outros, não vai ter solução. Ficamos viciados nisso, dá mais audiência, mas isso está saindo caro. 

Mas mesmo no caso de pessoas que são detestáveis ou simplesmente fazem coisas horríveis?  

É um desafio. O Coringa é uma pessoa complexa. Mas há momentos em que se pode simpatizar com ele, ou pelo menos ter alguma empatia. Mas não se engane: ele é um vilão. Eu o interpretei como um vilão. O Coringa é a própria definição do narcisismo, que é a expectativa de que seus sentimentos devem ser validados pelos outros e que todos precisam prestar atenção porque ele é a pessoa mais importante do mundo. Agora, ele não é político. Só quer adoração. O narcisismo é muito perigoso. 

Hoje que você tem uma vida muito privilegiada consegue manter-se atento à dor dos outros? 

Não quero parecer estar me vangloriando, mas sempre fui muito sensível. Quando leio um jornal, não estou só absorvendo informação, mas vivenciando a vida de alguém e isso me afeta profundamente. Acho que é de mim, nasci assim.

Psicopata

Personagem fictício criado por Jerry Robinson, Bill Finger e Bob Kane na DC Comics, o Coringa, ou The Joker, apareceu pela primeira na revista do Batman # 1, de abril de 1940. Rapidamente, tornou-se um dos vilões preferidos do público. No início, era um psicopata, verdadeiro gênio do crime, que utilizava sua habilidade em engenharia química para produzir misturas letais. Mau, muito mau, e aquele sorriso esculpido no rosto fez dele o pesadelo de muitas crianças. No fim da década de 1950, por pressão do Comics Code Authority – o código de censura dos quadrinhos –, converteu-se num bandido bobo e atrapalhado, e como tal foi retratado por Cesar Romero na TV e no cinema, e no Batman de Leslie H. Martinson, com Adam West como o herói mascarado.

Aquele era um Homem-Morcego inocente e o diretor incorporava o humor camp da TV e dos quadrinhos, com direito a balões com as expressões características do herói e seus vilões (além do Coringa, também o Charada, o Pinguim e a Mulher-Gato). Algo muito diferente se passou em 1989, quando Tim Burton fez seu Batman para adultos e que arrebentou na bilheteria. Michael Keaton vestia a armadura, mas o grande personagem era o vilão, Jack Nicholson como o Coringa, embora ambos, na verdade, fossem as duas faces da mesma moeda, dois malucos que perderam todo juízo, têm problemas com as mulheres, os pais e a cidade, e ameaçam destruir o mundo todo. A grande sacada de Burton, e nisso ele fez história, foi não estabelecer fronteiras muito nítidas. Um louco de máscara e capa, outro maquiado, ou será que se pode confiar, como herói, num sujeito que se pendura em telhados e anda com aquela fantasia, bancando o justiceiro, na calada da noite?

Batman surgiu otimista, virou dark durante a Guerra do Vietnã. Comparativamente, o Coringa de Heath Ledger, no filme de Christopher Nolan – O Cavaleiro das Trevas – que lhe valeu, postumamente, o Oscar de melhor ator coadjuvante, em 2008, é mais insano (de volta às origens?) e o de Jared Leto, em Esquadrão Suicida, de 2016, é mais palhaço sem deixar de ser neurótico. Justamente, o Coringa de Jared. Nove entre 10 críticos (11 entre 10?) amam falar mal dele, mas se Jared já não tivesse recebido o Oscar (por Clube de Compras Dallas, de 2014) sua interpretação talvez tivesse sido mais bem entendida, e apreciada. É magnífico. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'Coringa' joga fora o manual dos filmes de quadrinhos

Filme de Todd Phillips exibido no Festival de Veneza traz Joaquin Phoenix em estado de graça num estudo de personagem e história de origem do vilão da DC

Mariane Morisawa, Especial para O Estado de S. Paulo

31 de agosto de 2019 | 12h18

VENEZA – Coringa não é um filme de super-herói como os outros – e não apenas por tratar de um vilão da DC. O longa-metragem de Todd Phillips prescinde das cenas de ação espetaculares, das lutas sem fim, das explosões e dos prédios derrubados, com milhares de vítimas civis invisíveis. Para quem tinha alguma dúvida, faz todo o sentido o filme estar na competição do 76.º Festival de Veneza, onde foi exibido na manhã deste sábado, 31, tratando de temas relevantes como identidade, empatia, saúde mental e do abismo entre quem tem muito e quem não tem nada. Indicações ao Oscar também não devem faltar. 

A história evita a repetição das várias aparições cinematográficas recentes do personagem, de Heath Ledger em Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008) a Jared Leto em Esquadrão Suicida (2016), contando a transformação gradual de Arthur Fleck (Joaquin Phoenix, candidatíssimo à Coppa Volpi de melhor ator e ao Oscar na categoria) em Coringa. É um estudo de personagem e um drama realista na linha de clássicos dos anos 1970 e 1980 como Serpico, Taxi Driver e Rede de Intrigas, o que pode abrir uma nova via para os filmes baseados em quadrinhos da DC e da Marvel.

“Não entendo nada de competição com a Marvel”, disse Phillips na coletiva após a exibição. “Mas, quando concebemos a ideia, queríamos uma abordagem diferente. Não sei se vai ser uma inspiração para outros, até porque os filmes de quadrinhos parecem estar indo bem. Foi duro de convencer a DC e o estúdio a fazer. Mas agradeço à Warner por ter feito uma aposta tão ousada.”

Coringa, que estreia no Brasil em 3 de outubro, se passa, justamente, na Gotham, ou seja, Nova York, dos aos 1980, quando a cidade enfrentava problemas de violência, pobreza e lixo nas ruas, além de cortes nos programas sociais. Arthur divulga uma loja vestido de palhaço, quando um grupo de garotos lhe toma a placa e dá uma surra. Não vai ser a primeira vez que ele será visto no chão. Arthur sofre de problemas de saúde mental, entre eles uma condição que o faz rir descontroladamente – especialmente quando, na verdade, quer chorar. Mas é carinhoso com a mãe, Penny (Frances Conroy), que vive no passado esperando o reconhecimento de um poderoso na cidade. 

O maior sonho de Arthur é ser comediante de stand-up e fazer os outros rirem, de preferência participando do programa de Murray Franklin (Robert De Niro). “Minha mãe sempre me diz para sorrir e fazer uma cara feliz”, ele diz. A violência existe, mas é pontual e causa impacto quando acontece. “Meu desejo é que fosse tudo em fogo brando”, disse o diretor. "John Wick tem muito mais violência. Como tentamos fazer de maneira realista, quando ela ocorre, é um soco no estômago.” 

Phoenix afirmou ter evitado encaixar o personagem numa personalidade específica. “Não queria defini-lo. Muitas vezes explorei suas motivações e terminei recuando. Queria que ele tivesse mistérios.” Mesmo depois de assistir, Coringa é um personagem inclassificável. Mas, para o ator, cuja imagem pública é de um homem angustiado, a atração de Arthur era sua luz. “Sua luta para encontrar a felicidade, a conexão, o calor humano, o amor.” Para Phillips, este Coringa não quer ver o mundo arder. “Ele está procurando sua identidade e quer ser adulado, trazer alegria ao mundo. Vira líder por engano.” 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Análise: Coringa é o louco maquiado que sempre rouba a cena

No início, era um psicopata, verdadeiro gênio do crime; passou por bandido bobo e atrapalhado e nas suas últimas encarnações assumiu faces ambíguas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

21 de setembro de 2019 | 16h00

Personagem fictício criado por Jerry Robinson, Bill Finger e Bob Kane na DC Comics, o Coringa, ou The Joker, apareceu pela primeira na revista do Batman # 1, de abril de 1940. Rapidamente, tornou-se um dos vilões preferidos do público. No início, era um psicopata, verdadeiro gênio do crime, que utilizava sua habilidade em engenharia química para produzir misturas letais. Mau, muito mau, e aquele sorriso esculpido no rosto fez dele o pesadelo de muitas crianças.

No fim da década de 1950, por pressão do Comics Code Authority – o código de censura dos quadrinhos –, converteu-se num bandido bobo e atrapalhado, e como tal foi retratado por Cesar Romero na TV e no cinema, e no Batman de Leslie H. Martinson, com Adam West como o herói mascarado.

Aquele era um Homem-Morcego inocente e o diretor incorporava o humor camp da TV e dos quadrinhos, com direito a balões com as expressões características do herói e seus vilões (além do Coringa, também o Charada, o Pinguim e a Mulher-Gato).

Algo muito diferente se passou em 1989, quando Tim Burton fez seu Batman para adultos e que arrebentou na bilheteria. Michael Keaton vestia a armadura, mas o grande personagem era o vilão, Jack Nicholson como o Coringa, embora ambos, na verdade, fossem as duas faces da mesma moeda, dois malucos que perderam todo juízo, têm problemas com as mulheres, os pais e a cidade, e ameaçam destruir o mundo todo.

A grande sacada de Burton, e nisso ele fez história, foi não estabelecer fronteiras muito nítidas. Um louco de máscara e capa, outro maquiado, ou será que se pode confiar, como herói, num sujeito que se pendura em telhados e anda com aquela fantasia, bancando o justiceiro, na calada da noite?

Batman surgiu otimista, virou dark durante a Guerra do Vietnã. Comparativamente, o Coringa de Heath Ledger, no filme de Christopher Nolan – O Cavaleiro das Trevas – que lhe valeu, postumamente, o Oscar de melhor ator coadjuvante, em 2008, é mais insano (de volta às origens?) e o de Jared Leto, em Esquadrão Suicida, de 2016, é mais palhaço sem ser deixar de ser neurótico.

Justamente, o Coringa de Jared. Nove entre dez críticos (onze entre dez?) amam falar mal dele, mas se Jared já não tivesse recebido o Oscar (por Clube de Compras Dallas, de 2014) sua interpretação talvez tivesse sido melhor entendida, e apreciada. É magnífico.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'Não queria que um psicólogo fosse capaz de identificar', diz Joaquin Phoenix sobre Coringa

Filme de Todd Phillips exibido no Festival de Veneza traz Joaquin Phoenix em estado de graça num estudo de personagem e história de origem do vilão da DC

Mariane Morisawa, Especial para O Estado de S. Paulo

31 de agosto de 2019 | 12h18

VENEZA – Coringa não é um filme de super-herói como os outros – e não apenas por tratar de um vilão da DC. O longa-metragem de Todd Phillips prescinde das cenas de ação espetaculares, das lutas sem fim, das explosões e dos prédios derrubados, com milhares de vítimas civis invisíveis. Para quem tinha alguma dúvida, faz todo o sentido o filme estar na competição do 76.º Festival de Veneza, onde foi exibido na manhã deste sábado, 31, tratando de temas relevantes como identidade, empatia, saúde mental e do abismo entre quem tem muito e quem não tem nada. Indicações ao Oscar também não devem faltar. 

A história evita a repetição das várias aparições cinematográficas recentes do personagem, de Heath Ledger em Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008) a Jared Leto em Esquadrão Suicida (2016), contando a transformação gradual de Arthur Fleck (Joaquin Phoenix, candidatíssimo à Coppa Volpi de melhor ator e ao Oscar na categoria) em Coringa. É um estudo de personagem e um drama realista na linha de clássicos dos anos 1970 e 1980 como Serpico, Taxi Driver e Rede de Intrigas, o que pode abrir uma nova via para os filmes baseados em quadrinhos da DC e da Marvel.

“Não entendo nada de competição com a Marvel”, disse Phillips na coletiva após a exibição. “Mas, quando concebemos a ideia, queríamos uma abordagem diferente. Não sei se vai ser uma inspiração para outros, até porque os filmes de quadrinhos parecem estar indo bem. Foi duro de convencer a DC e o estúdio a fazer. Mas agradeço à Warner por ter feito uma aposta tão ousada.”

Coringa, que estreia no Brasil em 3 de outubro, se passa, justamente, na Gotham, ou seja, Nova York, dos aos 1980, quando a cidade enfrentava problemas de violência, pobreza e lixo nas ruas, além de cortes nos programas sociais. Arthur divulga uma loja vestido de palhaço, quando um grupo de garotos lhe toma a placa e dá uma surra. Não vai ser a primeira vez que ele será visto no chão. Arthur sofre de problemas de saúde mental, entre eles uma condição que o faz rir descontroladamente – especialmente quando, na verdade, quer chorar. Mas é carinhoso com a mãe, Penny (Frances Conroy), que vive no passado esperando o reconhecimento de um poderoso na cidade. 

O maior sonho de Arthur é ser comediante de stand-up e fazer os outros rirem, de preferência participando do programa de Murray Franklin (Robert De Niro). “Minha mãe sempre me diz para sorrir e fazer uma cara feliz”, ele diz. A violência existe, mas é pontual e causa impacto quando acontece. “Meu desejo é que fosse tudo em fogo brando”, disse o diretor. "John Wick tem muito mais violência. Como tentamos fazer de maneira realista, quando ela ocorre, é um soco no estômago.” 

Phoenix afirmou ter evitado encaixar o personagem numa personalidade específica. “Não queria defini-lo. Muitas vezes explorei suas motivações e terminei recuando. Queria que ele tivesse mistérios.” Mesmo depois de assistir, Coringa é um personagem inclassificável. Mas, para o ator, cuja imagem pública é de um homem angustiado, a atração de Arthur era sua luz. “Sua luta para encontrar a felicidade, a conexão, o calor humano, o amor.” Para Phillips, este Coringa não quer ver o mundo arder. “Ele está procurando sua identidade e quer ser adulado, trazer alegria ao mundo. Vira líder por engano.” 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.