Estatal estimula produção de curtas-metragens

O processo de revitalização do cinema nacional, que ganhou fôlego em meados da década passada, alcançou resultados relevantes, é fato. Todavia, a falta de consistência desse processo deixou algumas lacunas no caminho. Uma das principais foi o relativo abandono de uma espécie de embrião do setor: o curta-metragem. A partir da próxima semana, porém, esse segmento audiovisual vai ganhar um enorme estímulo. Na segunda-feira, será anunciado, no Rio, o Programa Petrobrás de Cinema, por meio do qual a empresa estatal vai investir pesado na produção, distribuição e exibição de curtas-metragens.O novo programa complementa, de certa maneira, a ação desenvolvida pela BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras no setor audiovisual. Enquanto esta vai concentrar investimentos no cume da produção - no caso os longas-metragens -, a Petrobras holding decidiu direcionar recursos no gênero considerado o alicerce do processo cinematográfico. "A idéia central do programa é valorizar o caráter de formação do cinema", explica o gerente de patrocínios da Petrobrás, Sérgio Bandeira de Mello.O investimento total do programa ainda não foi definido, mas estima-se que se aproxime dos R$ 4 milhões que serão destinados ao Programa Petrobras de Artes Visuais, a partir de 2001. "Esse valor depende do lucro da empresa, que deve ser recorde este ano, com o aumento do preço do petróleo no mercado internacional", prevê Bandeira de Mello.A exemplo do que foi feito nas artes visuais, a formatação das diretrizes principais do novo projeto foi concebida por nomes relevantes do meio cultural. Dessa vez, os consultores do Programa de Cinema foram o diretor da Riofilme, José Carlos Avellar, e Adhemar de Oliveira, do Espaço Unibanco de Cinema. "Sempre buscamos esse contato com profissionais de cada setor, que nos indicam quais lacunas devem ser supridas", afirma Bandeira de Mello.Na realidade, a iniciativa vai abranger desde parcerias com produtores, realizadores e distribuidores até o investimento em festivais e centros culturais cinematográficos. No segmento de produção, o programa vai contemplar obras inéditas em 35 mm e no máximo 15 minutos de duração, destinadas à exibição em salas de cinema, e filmes digitais, de até 5 minutos, a serem veiculados em novas mídias, como a internet.Novos suportes - O programa apóia também a exibição de curtas em salas de cinema, complementando a projeção de longas, em emissoras de TV aberta e canais a cabo, em mostras realizadas em salas comerciais, instituições culturais ou universidades, com debates do público após as projeções. O estímulo à exibição abrange ainda novos suportes como o DVD e a internet. A iniciativa da Petrobras vai estimular também a criação de festivais dedicados especialmente a curtas-metragens, à criação de programas de filmes do gênero em festivais de longas, além da apresentação de filmes brasileiros em festivais internacionais.Anualmente, a empresa vai realizar a entrega do Prêmio Petrobras de Cinema, que vai contemplar um realizador brasileiro pelo conjunto da obra, convidando-o a produzir um curta."Um dos principais objetivos do programa é abrir as portas do mercado para novos e bons profissionais, evitando que sempre os mesmos nomes se repitam", observa Bandeira de Mello. "O público brasileiro vem de um trauma nascido na época em que a Lei do Curta era aplicada", diz o gerente, referindo-se à legislação criada em 1975 que determinava a exibição de curtas antes de filmes estrangeiros. "Como não havia uma seleção, o público era obrigado a ver produções ruins, fazendo com que o gênero tenha se depreciado com o tempo".A meta do Programa de Cinema da estatal é promover uma reaproximação entre público e curta-metragem. O que não será difícil, levando em conta o crescente aumento de qualidade da produção atual, num ritmo talvez mais acelerado do que o observado em longas. Para Avellar, muitas são as vantagens de investir em curtas-metragens. "O filme de curta permite, seja pelo menor custo de produção, seja pelo conciso tempo de exposição que se impõe, a realização de um ideal sonhado pela arte moderna, o da redução a um quase nada da distância entre o realizador e o espectador da obra de arte; se apresenta como um espaço ideal para pensar o cinema brasileiro em toda a sua dimensão", analisa o diretor da distribuidora Riofilmes.Avellar defende a tese de que o curta-metragem pode e deve ser um legítimo representante do cinema brasileiro. Diz que assistindo a obras como Aruanda (1960), de Linduarte Noronha; Maioria Absoluta (1964), de Leon Hirszman; A Velha Fiar (1964), de Humberto Mauro; Vereda Tropical (1977), de Joaquim Pedro de Andrade; Ilha das Flores (1989), de Jorge Furtado; e Caramujo-flor (1989), de Joel Pizzini, ninguém pergunta se são longas ou curtas. "São filmes", atesta.

Agencia Estado,

17 de setembro de 2000 | 17h04

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