Bruno Machado
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‘Estado’ indica lista de filmes imperdíveis da 43.ª Mostra de Cinema

Hostilizado pelo governo federal e cheio de dúvidas quanto ao seu futuro, o cinema nacional ainda mostra força e oferece nada menos que 60 títulos ao público da Mostra

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

16 de outubro de 2019 | 17h29

Quebrou a cara quem achou que, em virtude da crise, a 43ª Mostra de Cinema faria uma edição mais fraca este ano. A tradicional festa paulistana do cinema já anunciou seu portfólio para 2019 e este contém nada menos que 327 títulos, que se espalharão por dezenas de cinemas da cidade. Várias salas estão no eixo da Avenida Paulista e a elas se soma o circuito SPcine, em várias localidades da capital. A mostra começa hoje, no Espaço Ibirapuera Oscar Niemeyer, com a exibição, para convidados, de um longa muito aguardado, Wasp Network, de Olivier Assayas, que competiu no Festival de Veneza deste ano. 

Assayas vem ao Brasil e, junto com ele, parte do elenco - o brasileiro Wagner Moura, o venezuelano Édgar Ramírez e o argentino Leonardo Sbaraglia. Eles contam uma história incrível - e real - baseada no livro de Fernando Morais, Os Últimos Soldados da Guerra Fria, sobre agentes cubanos infiltrados em grupos terroristas anticastristas de Miami. Vale esperar muito deste filme, pois Assayas já se revelou craque em unir ação, alta temperatura política e contexto histórico em Carlos, sobre Carlos, o Chacal, aliás interpretado pelo mesmo Édgar Ramírez de Wasp Network. 

No dia seguinte, 17, a Mostra abre para valer e começa a rolar para o público cinéfilo. Há que fazer um planejamento, pois nem o mais intrépido maratonista dispõem de fôlego para ver tudo, e nem mesmo parte considerável do que é oferecido nas diversas seções do evento: apresentações especiais, homenagens, restaurações, novos diretores, mostra Brasil e perspectiva internacional. Um paradoxo desses grandes eventos é que o cinéfilo, embora saia exausto e satisfeito, sempre fica com a sensação de ter perdido alguma coisa irrecuperável. E o pior é que essa impressão é, em geral, verdadeira. Sempre escapa alguma obra fundamental. 

De qualquer forma, há diferenças de planejamento para explorar o oceano da Mostra. Quem prefere valores sólidos pode se concentrar em títulos oriundos dos grandes festivais do mundo. Alguns exemplos: Parasita, de Bong Joon-Ho, Palma de Ouro em Cannes e Sinônimos, de Nadav Lapid, Urso de Ouro em Berlim. Dois campeões. Mas também deve ter em mira Family Romance LTDA, de Werner Herzog (Cannes), Cicatrizes, de Miroslav Terzic (Cannes), Joana D’Arc, de Bruno Dumont (Cannes), além do próprio Wasp Network (Veneza). 

Outro campo exploratório interessante é o do cinema brasileiro. Hostilizado pelo governo federal e cheio de dúvidas quanto ao seu futuro, o cinema nacional ainda mostra força e oferece nada menos que 60 títulos ao público da Mostra.

Haveria muito que destacar entre eles, a começar por Uma Vida Invisível, de Karim Aïnouz, escolhido para representar o Brasil no próximo Oscar. Pacarrete, de Allan Deberton, tem arrebatado corações e mentes por onde passa - só no Festival de Gramado levou oito troféus. Babenco - Alguém tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou, de Bárbara Paz, levou o prêmio de documentário em Veneza. Há outros títulos a serem explorados, como Amazônia Sociedade Anônima, de Estevão Ciavatta, sobre um tema premente nesta época de luta inglória pela preservação da floresta. Também convém conferir filmes como Sete Anos em Maio, de Affonso Uchoa, representante da criativa escola mineira, e Três Verões, novo trabalho de Sandra Kogut. Isso para ficar em alguns exemplos. Na verdade, o cardápio nacional parece muito saboroso e cheio de promessas. 

Há também as apostas de risco - e frequentadores mais antigos da Mostra sabem que é entre elas que se descobrem as pepitas. De olho nas preciosidades, é preciso ficar atento à competição de novos diretores, da qual só participam os que têm até dois longas no currículo. Há nessa sessão um mar de filmes de países como Espanha, Portugal, Estados Unidos, Itália, Rússia, Sérvia, Eslovênia, Irã, México, Israel e um longo etcétera. Inclusive com diretores do Brasil, entre os quais destaco o pernambucano Camilo Cavalcante com seu segundo longa, Beco. Há estreias curiosas, como a do filósofo Francisco Bosco (em parceria com Raul Mourão) com O Mês que não Terminou. E a da estudiosa de cinema Lúcia Nagib, hoje radicada na Inglaterra, que faz seu début com Passagens, co-dirigido por Samuel Paiva. Um lembrete: é desse universo dos novos diretores que, escolhidos pelo voto do público, saem os finalistas ao Troféu Bandeira Paulista. Os classificados pelo voto popular serão submetidos ao júri oficial, composto este ano pela atriz portuguesa Maria de Medeiros, a produtora francesa Xénia Maingot e o cineasta argentino Lisandro Alonso

Preste atenção também aos homenageados. Olivier Assayas, além de abrir a mostra, recebe o Prêmio Leon Cakoff e ganha uma retrospectiva de sua obra com 14 títulos, entre eles Clean, Depois de Maio, Horas de Verão e Vidas Duplas

Já o cineasta palestino Elia Suleiman recebe o Prêmio Humanidade e mostra seu novo filme, O Paraíso Deve ser Aqui, premiado em Cannes. 

Além de Assayas, quem recebe o Prêmio Leon Cakoff é o israelense Amos Gitai, habitué e amigo da Mostra. Gitai verá a projeção de dois dos seus longas mais conhecidos, Berlim-Jerusalém e Kadosh, além de presenciar o lançamento de um livro muito especial. Em Tempos como Estes, correspondência da mãe de Gitai entre 1929 e 1994, será lançado pela Mostra e trechos das cartas serão lidas por Camila Márdila, Bárbara Paz, Regina Braga e Gabriel Braga Nunes

Há outra novidade este ano, as sessões no Theatro Municipal nas quais se exibirão títulos brasileiros que tiveram sucesso no exterior como Babenco - Alguém tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou (Veneza) e A Vida Invisível (Cannes). 

Por outro lado, mantém-se a tradicional sessão na parte externa do Auditório Ibirapuera com acompanhamento da Orquestra Jazz Sinfônica. Este ano, o título escolhido é um clássico do expressionismo alemão, de Robert Wiene. O motivo da homenagem é o centenário da obra, mas seria difícil escolher filme mais adequado ao panorama político atual que o sombrio Gabinete do Doutor Caligari, obra que prenunciava a ascensão do nazismo na Alemanha, segundo especialistas. 

A mostra termina dia 30, com a distribuição de prêmios e a exibição de Dois Papas, novo longa-metragem de Fernando Meirelles, de Cidade de Deus. Anthony Hopkins e Jonathan Pryce interpretam os papas do título na passagem de bastão de Bento 16 para Francisco

Com o encerramento, a roda não para e dá início à repescagem, última chance dos cinéfilos de recuperar algum título perdido ao longo da maratona. 

 

Apostas

Wasp Network, de Olivier Assayas. Inspirado no livro de Fernando Morais, Os Últimos Soldados da Guerra Fria, o longa mostra a ação de agentes cubanos infiltrados em grupos anticastristas em Miami. 



A Vida Invisível, de Karim Aïnouz. Por caminhos diferentes, duas irmãs tentam enfrentar a sociedade machista brasileira no Rio de Janeiro dos anos 1940 e 1950. Adaptação livre do romance de Martha Batalha



Parasita, de Bong Joon-Ho. Curiosa maneira de observar a disparidade gritante entre classes sociais, através de uma família de subempregados que consegue se infiltrar aos poucos na mansão de uma família rica. Palma de Ouro em Cannes.



Papicha, de Mounia Meddour. O longa ambienta-se na Argélia dos anos 1990, onde um grupo de jovens mulheres, estudantes de moda, precisa enfrentar a intolerância e violência de milícias de fundamentalistas religiosos. 



Joana D’Arc, de Bruno Dumont. Revisita uma personagem emblemática da história francesa, Joana D’Arc, presa e levada à fogueira durante a Guerra dos Cem Anos, entre Inglaterra e França. O diretor Bruno Dumont (de A Humanidade) inspira-se em uma peça de Péguy na qual Joana é uma antibelicista que dizia querer “matar a guerra”. 



Chão, de Camila Freitas. Não se trata de mais um filme sobre o MST, mas de um estudo observacional cuidadoso do movimento, do modo de vida nos acampamentos, dos temores e esperanças dos seus componentes. Movimentos são feitos de homens e mulheres de carne e osso e muitas vezes os filmes políticos se esquecem disso. Em Chão, essa dimensão é realçada. 



Pacarrete, de Allan Deberton. Inspirando-se numa personagem real de sua cidade, Russas, no interior do Ceará, Deberton vem ganhando prêmios em cima de prêmios por onde passa. A personagem-título, uma bailarina envelhecida que deseja oferecer sua arte à cidade onde vive, tem em Marcélia Cartaxo sua intérprete ideal. Faz rir e faz chorar. Às vezes ao mesmo tempo. 



O Jovem Ahmed, dos irmãos Dardenne. Os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne são conhecidos (e premiados) por seu cinema despojado e de alta voltagem social, como Rosetta e A Criança. Nesta história, Ahmed é um garoto de 13 anos, convencido por seu imã de que a professora que o educa não passa de uma pecadora e deve ser punida. 



La Llorona, de Jayro Bustamante. O diretor é um talento guatemalteco. Nesta história, ele atualiza, em termos políticos, a lenda da “chorona”. Um general, acusado de genocídio, é absolvido pelo júri, mas a alma de uma mulher assassinada passa a atormentá-lo. Ganhou o prêmio de direção na seção Jornada dos Autores, do Festival de Veneza. 

 

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