"Espinha do Diabo" retrata drama humano sob olhar infantil

Em A Espinha do Diabo, Guillermo del Toro filtra o caos de um final de guerra pela perspectiva intimista de um orfanato. No mundo de fora, a Guerra Civil Espanhola caminha para o seu fim. Não parece haver mais esperança para os republicanos e os franquistas avançam. No mundo de dentro, um menino de 12 anos, Carlos, é obrigado a enfrentar um ambiente doentio, minado por rivalidades, obsessões (sexuais ou não), violência. No centro desse ambiente sórdido existe um crime, do qual ninguém fala, mas que determina a vida de todos. Filme desse tipo, você sabe, tem de se sustentar no clima ? e isso Del Toro, que é mexicano e chegado ao cinema trash, consegue. O garoto Carlos chega ao orfanato porque seu pai é um republicano que morreu em combate. O menino não sabe disso. A instituição, que vive no limite da miséria, é dirigida por Carmen (Marisa Paredes), que teve de amputar a perna, e por Casares (Federico Luppi). Entre os empregados, há um casal mais jovem, Jacinto (Eduardo Noriega) e Conchita (Irene Visedo). Acredite: é um excelente elenco, especialmente Marisa e Luppi, veteranos de outros tantos filmes. Luppi é um dos atores preferidos de cineastas argentinos como Adolfo Aristarain e Marcelo Piñeyro, e Marisa trabalhou várias vezes com Pedro Almodóvar. Desse elenco, e de uma fotografia realizada com luz reduzida, Del Toro tira o clima que deseja para a história. Uma trama de desespero e morte, viciosa e tensa. Porque A Espinha do Diabo é, sobretudo, um filme de suspense. Carlos é o olhar infantil, que precisa se adaptar a um universo em desordem, o orfanato. Era também infantil o olhar que enfrentava o sobrenatural em O Iluminado, de Stanley Kubrick, provavelmente o mais perfeito exemplar do gênero já visto em uma tela de cinema. Esse olhar infantil aparece desarmado (é uma de suas vantagens para a comodidade da narrativa) pois o mundo é algo relativamente novo para uma criança de 12 anos. Portanto, ele pode encarar com a mesma surpresa, mas também o mesmo interesse, fatos de ordem diversa, como a existência de um fantasma que habita a cisterna do orfanato e o relacionamento amoroso entre uma mulher mais velha e frustrada e um homem jovem e ambicioso. Por outro lado, há algo de infantil na própria trama. Assim, ao tema adulto da guerra e seus desastres alia-se o motivo infanto-juvenil por excelência da caça ao tesouro. Pois há ouro naquele orfanato, e esse ouro pertence a uma causa que já não pode triunfar. Entra então em disponibilidade e passa a ser disputado por aventureiros. Como em todo fim de guerra, neste também há grupos disputando butins. Del Toro não toma partido. De um lado coloca homens maus e cobiçosos; de outro gente desesperada. Mas parecem igualmente perdidos. Órfãos da vida e da ordem, todos. Mas, de fato, a Guerra Civil Espanhola está lá, na história, como poderia estar qualquer outra. Quem conhece os filmes anteriores de Del Toro, Cronos e Mutação, sabe que o interesse social nunca foi seu forte. Não iria começar agora e portanto o embate entre republicanos e fascistas é apenas pretexto para um drama humano, visto pelo olhar de um menino, que também faz parte dessa contingência. Essa pequena ampliação de interesses é um passo adiante na carreira do cineasta. Mas não é tudo, ainda, como se andou festejando prematuramente. Algumas grandes marchas e certas carreiras artísticas fazem-se a um passo de cada vez.

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