"Espanta Tubarões", a estréia das crianças

O Espanta Tubarões, nova animação da DreamWorks, também faz do fundo do mar uma imitação da sociedade dos homens e os peixes são devidamente antropoformizados. Ganham feições humanas. A sociedade do Recife, muito parecida com Nova York, é habitada por seres pacíficos que convivem com suas diferenças (esta é a ideologia americana por excelência nos tempos do politicamente correto). No entanto, essa sociedade pacífica é ameaçada pelos tubarões, cujo capo é Don Lino, que tem a infelicidade de ter um dos seus descendentes adepto da doutrina vegetariana. Os tubarões são imediatamente associados à máfia, e esta à comunidade ítalo-americana, que no seu devido tempo se sentiu ofendida com a referência. Mais ainda porque na versão dublada, a voz do capo tubarão é a de Robert De Niro, que viveu Dom Vito Corleone no segundo episódio dos Chefões de Francis Ford Coppola. Martin Scorsese empresta sua voz a Skykes, dono de um lava-rápido de baleias e ligado ao crime organizado. O "consegliere" de Don Lino ganha a voz de Peter Falk, o Columbo da série de TV. A historinha é a seguinte. Oscar (voz original de Will Smith) conhece o tal tubarão vegetariano, Jenny e montam uma farsa. Através dela, o medroso Oscar passa por matador de tubarões e portanto defensor dos fracos e dos oprimidos. O desenho é de boa qualidade. No que toca à representação que o desenho faz da sociedade, há dois fatos interessantes. Primeiro, a caracterização da máfia, que custou críticas aos produtores do filme, e também aos ítalo-americanos que emprestaram suas vozes - De Niro e Scorsese. A segunda coisa digna de nota é a crítica à espetacularização da nossa sociedade de fachada embutida neste filme em tese dirigido às crianças. Depois que Oscar vira uma celebridade, passa a usufruir de todas as benesses da fama, cai na isca de belas mulheres como a gostosona Lola, "peixa" de grande boca, devidamente dublada por Angelina Jolie.A graça se perde muito na cópia dublada, sem as vozes dos ítalos De Niro e Scorsese, em especial. A versão nacional, com aqueles peixes todos falando no mais puro carioquês, fica meio insípida, para os adultos. Já as crianças, não ligam.

Agencia Estado,

08 de outubro de 2004 | 16h15

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