Espaço Unibanco dedica ciclo a Claude Chabrol

É um dos mais fascinantes efeitos visuais da história do cinema. Nada de computador. O truque de Claude Chabrol é combinar um travelling de afastamento com uma zoom para a frente e um movimento lateral de câmera, tudo junto, no admirável desfecho de A Mulher Infiel, seu grande filme de 1969. O mais curioso é que, também em 1969, Arthur Penn usou o mesmíssimo efeito no fecho de seu filme sobre o movimento hippie, Deixem-nos Viver (Alice´s Restaurant). Nenhum sabia o que o outro estava fazendo. Chegaram, por vias diversas, à mesma solução cênica (e admirável). A Mulher Infiel é um dos seis filmes que compõem o ciclo dedicado a Chabrol pelo Espaço Unibanco, em parceria com o consulado da França.Depois do ouro de Cannes e da programação dedicada a René Clair, chega a vez de Claude Chabrol, um dos grandes da nouvelle vague. Cabe destacar que, também nesta sexta, volta ao cartaz A Mulher do Lado, de outra figura fundamental do movimento cinematográfico que irrompeu na França, no fim dos anos 50. François Truffaut foi um romântico que desconfiava do romantismo, e A Mulher do Lado, feito no auge de sua paixão por Fanny Ardant, talvez seja o filme que melhor ilustre sua temática preferida - o amor vivido como conflito entre o gesto impulsivo e a palavra consciente.Com Jean-Luc Godard, esses dois formaram a sagrada trindade da nouvelle vague, por mais que tenham sido (e ainda sejam) importantes Eric Rohmer e Jacques Rivette. Em 1995, Cahiers du Cinéma dedicou um dossiê a Chabrol, perguntando-se se ele não seria o maior cineasta francês contemporâneo. Numa entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, Chabrol ironizou: "Eles ainda têm dúvida; eu não tenho dúvida alguma, tenho certeza". Podia ser presunção do artista, mas Chabrol fez seu comentário com humor. É, realmente, um dos grandes da história do cinema francês. O ciclo, mesmo com cópias em 16 mm, é importante porque oferece uma panorâmica do diretor desde o seu começo. Ao filme Os Primos, de 1959, considerado seu primeiro grande filme, vão suceder-se, em ordem cronológica, As Simplórias (Les Bonnes Femmes), de 1960, A Mulher Infiel, O Açougueiro, de 1970, Tira-Gosto (Poulet au Vinaigre), de 1985, e Madame Bovary, de 1991. Não perca especialmente Os Primos, para saber o que pensava o jovem Chabrol, e depois prestigie A Mulher Infiel e O Açougueiro, que revelam o diretor em plena maturidade.Os críticos gostam de dizer que Os Primos forma um díptico com Nas Garras do Vício (Le Beau Serge), de 1958, que assinalou a estréia do diretor. Os dois têm os mesmos atores Jean-Claude Brialy e Gérard Blain (que virou diretor) e apresentam curiosas inversões durante a evolução do relato. Gérard Blain é o primo do interior que vai estudar em Paris. Hospeda-se na casa de Brialy. Blain é ingênuo, bem-intencionado, estudioso. Brialy representa o vício, a decadência, o cinismo. Mas esse é só um primeiro dado. Logo, as simpatias do público são niveladas e até invertidas. Blain não é tão inocente, Brialy não é tão perverso (ou pervertido).O filme também é interpretado por Juliette Mayniel, uma atriz de brilho fugaz na época da nouvelle vague e o que salta aos olhos é um certo germanismo da encenação. Não por acaso, Chabrol recorre a Wagner na trilha, com ecos de Tristão e Isolda. O germanismo é uma constante em Chabrol. Admirador de Alfred Hitchcock, ele bebe na fonte do mestre, mas a grande influência sobre sua obra é exercida por Fritz Lang, como prova sua obra-prima, O Açougueiro. Se há um filme que incorpora à perfeição o sentido da fatalidade de Lang é esse. É uma das mais belas e tristes histórias de amor do cinema. Jean Yanne é o açougueiro do título. É um assassino compulsivo. Apaixona-se por uma professora (Stéphane Audran, atriz de A Mulher Infiel e, na época, casada com o diretor). Numa cena genial, Yanne abre seu coração e conta tudo a Stéphane. Ela também o ama, mas o teme. Recua e isso sela o destino trágico de Yanne. Em outra cena, Stéphane esconde o isqueiro que deu a Yanne e é encontrado junto a uma das vítimas. Ela suprime as provas, para defendê-lo.Em A Mulher Infiel, Stéphane também rasga a foto do amante para salvaguardar o marido. As cenas (e situações) repetem-se, os nomes das personagens também. Helne, Paul, Charles, principalmente nos filmes antigos os personagens têm sempre esses nomes. (Será que vem daí, de Chabrol, a fixação de Manoel Carlos pelas Helenas que povoam suas novelas na Globo?)As Simplórias recorre a quatro (e, talvez, cinco) personagens femininas para traçar o retrato, senão da mulher, de um tipo de mulher. Chabrol não costuma ser associado a Federico Fellini, mas há um viés que relaciona esse filme com As Noites de Cabíria. Em quase toda a sua obra, mais de 50 títulos em pouco mais de 40 anos de carreira, ele trata sempre do conflito entre instinto e cultura repressora, filma pulsões destrutivas e olha crítica e causticamente a burguesia da província francesa. Por isso mesmo, costuma ser chamado de Balzac do cinema, filtrando sua visão da comédia humana por um realismo noir não isento de humor.Uma atração especial do ciclo é Tira-Gosto. Inédito no Brasil, o policial adaptado do livro de Domninique Roulet subverte sua estrutura dramática pela gozação e o deboche. Numa cena antológica, Jean Poiret, como o inspetor Lavardin (que ganhou outro filme do diretor, depois), diz uma frase perfeita - "Quando a gente é da polícia, pode fazer o que quer". Não deveria ser assim, mas quase sempre é.Mostra Chabrol - No Espaço Unibanco 4, sempre às 18 h. Amanhã: Os Primos; sábado: As Simplórias; domingo: A Mulher Infiel. Legendas em espanhol.

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