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Eskil Vogt filma história de mulher que se isola ao perder a visão

'Blind' levou estatuetas em Sundance e Berlim

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

16 Março 2015 | 03h00

Sim, Eskil Vogt viu todos aqueles filmes que você sabe sobre personagens que perderam a visão. Um Clarão nas Trevas, de Terence Young, Blink, Num Piscar de Olhos, de Michael Apted, Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meireles, até o velho Sublime Obsessão, de Douglas Sirk. Nenhum se assemelha ao filme que fez - e que está em cartaz. Antes de falar sobre Blind (Cega), sobre essa mulher que está perdendo a visão, já não enxerga praticamente nada, e se isola em casa com o marido, vale falar um pouco sobre o diretor e roteirista.

Numa entrevista por telefone, de Oslo, Vogt falou sobre sua parceria com o também diretor Joachim Trier, que já dura 20 anos. “Começamos a trabalhar juntos em 1995. Tínhamos 19 anos e éramos assistentes de câmera num quiz show da TV norueguesa. Sempre fui, na verdade sempre fomos cinéfilos, mas Joachim teve a sorte de começar a dirigir antes. Tornei-me seu roteirista, uma atividade prazerosa, porque sempre gostei de criar as cenas que ele desenvolvia depois com os atores.”

Mas, há tempos, só escrever não bastava mais para Vogt. Ele começou a desenvolver os próprios projetos. Escreveu longas que viraram curtas, filmou alguns. Cursou cinema. O financiamento era sempre o nó górdio. “A Noruega não investe muito dinheiro na produção, e a preferência nunca é dos principiantes, e sim de quem já tem currículo.” E aí ocorreu de ele ler o texto de um amigo sobre os pensamentos densos, profundos, assustadores de uma mulher que perdeu a visão. “Li o monólogo de uma só vez, sem conseguir parar. Aquela mulher ficou comigo. Quando o projeto no qual trabalhava, mais uma vez, não deu certo, pensei comigo que essa história eu teria de contar de qualquer jeito, mesmo sem dinheiro. Só precisaria da atriz e de uma equipe mínima.”

A atriz é ótima – Ellen Dorrit Petersen. Tem uma fala reveladora (“o real não importa, desde que eu visualize bem as coisas”, pode ser uma árvore ou um cachorro). Ellen tem a pele clara, mas mesmo para os padrões das mulheres da região ela tem a pele muito clara. Parece albina, e isso realça o estranhamento da personagem. Vogt reflete sobre filmar personagens cegas. “Olhar e ver são coisas diferentes mas que, em geral, estão associadas para a maioria de nós. Muitas vezes olhamos sem ver realmente as coisas e, no próprio cinema, não é raro que os cegos tenham uma percepção que lhes permite captar coisas que passam despercebidas pelos que enxergam. Meu desafio inicial foi compartilhar a ausência de visão de Ingrid (é o nome da personagem).”

E o diretor prossegue – “Tentei colocar-me na situação dela, e depois, como diretor e roteirista, passei a encarar os problemas. Grandes autores já disseram que o cinema é a melodia do olhar. Cortamos muitas vezes seguindo as sugestões do olhar. Aqui, tinha um conceito que desenvolvia em cada sequência – um plano geral e alguns possíveis cortes, em função dos personagens e situações em que ou com quem Ingrid está envolvida. Era ao mesmo tempo divertido e complicado, porque o procedimento não é o usual em termos de linguagem cinematográfica. Só depois, imerso no processo, me dei conta de que como filmar a cegueira subverte conceitos básicos do próprio cinema.”

Vogt foi atraído de forma quase inconsciente pela personagem, mas agora já tem um pouco de distanciamento para refletir sobre isso. “Não queria ficar no clichê da cega como vítima. Até pelo tato, tenho uma câmera que é sensorial, mas a ideia era fazer com que o público mergulhasse nos abismos da mente de uma pessoa fragilizada, compartilhando seus pensamentos e medos mais profundos, aquelas coisas que muitas vezes temos medo de encarar e, mais ainda, de verbalizar. Coisas secretas que desestabilizam a mente. Há algo de duro e aterrorizador aqui, mas não joguei a carta do filme de gênero, como outros diretores já fizeram. Preocupava-me – será que o filme que estou querendo fazer, que fiz, vai interessar ao público? A recepção calorosa que Blind teve em Sundance foi uma catarse para mim. Teria sido frustrante ter feito o filme só para mim.” Blind levou o prêmio de argumento em Sundance e o Label Europa Cinemas de Berlim, virando uma aposta dos programadores europeus de salas de arte.

Há uma leva de diretores nórdicos que estão fazendo carreira em Hollywood, mas Vogt resiste a ser cooptado para fazer não importa o quê. “Tenho dois ou três projetos que ficariam melhores se conseguisse mais dinheiro para filmar, mas não quero apressar as coisas. Quero fazer do meu jeito. Agora mesmo, escrevo o próximo filme de Joachim (Trier).” O amigo gostou de Blind? “Ele viu o filme várias vezes na ilha de edição. Diz que gosta muito.” O repórter não se furta a elogiar o elenco de apoio. Vogt alegra-se. “Que bom que você achou isso. Trabalhei com muito carinho todas essas figuras. Encontrar os atores certos não foi nem um pouco fácil. Apesar do pouco dinheiro, procurei na Suécia, na Dinamarca. Não importa quanto tempo os atores ficam em cena. Queria que fossem verdadeiros, como você sentiu.”

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