Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

Escritor John Green, fenômeno de público, lança filme de 'Cidades de Papel’

No País, escritor explica significado de escrever sobre cidades de papel e faz metáfora para decifrar o mundo

Luiz Carlos Merten , O Estado de S. Paulo

02 Julho 2015 | 03h00

RIO - Em plena Flip, um dos escritores norte-americanos mais bem-sucedidos da atualidade veio ao Brasil para cumprir uma agenda... cinematográfica. John Green participou ontem do tapete vermelho de Cidades de Papel, longa de Jack Schreier adaptado de seu terceiro livro. Com ele, veio o ator Nat Wolff, que já estava no elenco de A Culpa É das Estrelas, outra adaptação de Green que virou êxito planetário e, no País, registrou o maior público do ano passado – 6.207.112 espectadores. A Culpa só não registrou a maior bilheteria porque o segundo colocado – Malévola, com Angelina Jolie – beneficiou-se do ingresso mais caro nas salas 3-D. A Culpa alcançou o número superlativo passando em 661 salas. O circuito de Cidades de Papel ainda está sendo fechado. O filme vai estrear na próxima quinta, dia 9, e, além de ser feriadão, o número de salas também vai subir. Serão no mínimo 800, número expressivo, considerando-se que Meu Passado Me Condena 2, a comédia de Júlia Rezende com Fábio Porchat (e Miá Mello) estreia hoje em 600 salas, somando-se a outros blockbusters que permanecem em cartaz.

Na quarta-feira, 1, o tapete vermelho de Cidades de Papel no Cine Odeon, na Cinelândia carioca, foi transmitido ao vivo para salas que também abrigavam pré-estreias em outras cinco capitais. São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Salvador e Curitiba. Nos Estados Unidos, o filme estreia somente dia 23 – o Brasil será o carro-chefe do lançamento mundial, um pouco pelo feriadão, mas também pelo sucesso de A Culpa. Ontem, havia uma multidão de jovens na frente do Hotel Copacabana Palace, na expectativa de ver Nat, mas principalmente na expectativa de colher o autógrafo de John Green.

Ele virou um fenômeno pop, idolatrado por jovens que agradecem ao autor por lhes haver dado não apenas voz, mas o respeito dos adultos. Cidades de Papel é sobre garoto que tem fixação na vizinha. Amigos de infância, separam-se na puberdade, mas um dia ela lhe pede ajuda para uma transgressão. Ele é todo certinho, mas não perde a oportunidade para uma reaproximação. Só que Margo some no mundo e Q – são os nomes dos dois, o Q é de Quentin – move céus e terra para encontrá-la. 

Para o repórter, Cidades propõe o encontro de Conta Comigo com Clube dos Cinco, dois filmes faróis dos anos 1980, quando o próprio Green era garoto. “Uau, são dois filmes que reverenciamos. O Clube é um de nossos favoritos, não, Nat?” Com a sintonia, a entrevista, a seguir, rola ‘redonda’.

Metáfora para decifrar o mundo

John Green e Nat Wolff foram muito simpáticos na coletiva de imprensa de Cidades de Papel, realizada na manhã de ontem, no Hotel Copacabana Palace. Green tornou-se um fenômeno editorial por seus livros que vendem muito em todo o mundo. A Culpa É das Estrelas virou filme e arrebentou nos cinemas brasileiros. A expectativa da distribuidora Fox é repetir ou aumentar o faturamento com Cidades de Papel. Palavras de John Green – “Em nenhum outro lugar, meus livros e o filme fizeram tanto sucesso. Viemos aqui para agradecer”. Quando se tornou escritor, ele não fazia ideia de que seria editado em todo o mundo e traduzido para o português. “Quando estava na faculdade, imaginava que, nesta fase da minha vida, já estaria acomodado, esperando a morte chegar.”

Ao invés disso, Green virou o escritor que dá voz à juventude. Na internet, você encontra depoimentos de jovens que dizem que os livros mudaram suas vidas. Que os fizeram ser entendidos e respeitados pelos adultos. Green reflete – “Tenho leitores adultos, claro, mas me interessa reproduzir o ponto de vista de vocês” (falava para uma plateia de jornalistas e comunicadores predominantemente jovens)”. Recentemente, ele se desculpou pela fala de um de seus personagens, que chama o outro de ‘retardado’. Em plena fase do politicamente correto, como é reproduzir o linguajar dos jovens, que muitas vezes não têm freios na língua? “Como escritor, tenho de ser honesto em busca da verdade, mas isso não me isenta de responsabilidade.” Nat Wolff foi adiante – “O jovem muitas vezes diz coisas sem pensar. O importante é não propagar o preconceito.”

Cidades de Papel começou a nascer há muitos anos, quando Green viajava com uma namorada e chegaram a um lugar ermo, onde, no mapa, deveria haver uma cidade. Pesquisando, ele descobriu a existência das cidades de papel. “Tudo começou quando dois cartógrafos (Earnest G. Alpers e Otto Lindberg, da General Drafting Company) inventaram a cidade de Agloe, no Estado de Nova York, e a incluíram no mapa. A ideia era proteger seus direitos autorais. Se a cidade fictícia aparecesse em algum outro mapa, ficaria configurado o caso de plágio. Achei interessante como metáfora para falar de coisas que ocorrem no mundo atual. Mas tenho de dizer que Agloe está deixando de ser fictícia. Depois do livro, muita gente passou a ir para a intersecção das estradas de terra no sul das montanhas Catskill, em busca de Agloe.”

O filme estreia na próxima quinta-feira, dia 9, no Brasil. Nos EUA, a estreia será no dia 23. Em algumas praças da Europa, no dia 16. O escritor revela que gostou de A Culpa, mas acha Cidades de Papel melhor. Até o set foi mais gostoso. “Como era um filme menos triste que o Culpa, o clima era mais descontraído.” O repórter investe na discussão. Define Cidades como um filme na interseção de Conta Comigo, que Rob Reiner adaptou de Stephen King, com outra obra cultuada, Clube dos Cinco, de John Hughes. Em Cidades, o garoto, Q (de Quentin), cai na estrada com os amigos em busca de Margo, que sumiu no mundo. Como em Conta Comigo, os amigos embarcam numa missão, seguem pistas. E como em Clube dos Cinco, ao falar – ao se abrir –, os jovens se revelam.

“É isso mesmo. São dois filmes de culto e Clube dos Cinco é um dos nossos favoritos, não é, Nat?”, pergunta o escritor. Os dois riem quando o repórter diz que batem uma tabelinha legal. “O Nat já tinha um papel em A Culpa das Estrelas. Definimos que ele seria o protagonista quando ainda nem tínhamos um roteiro. Foi muito tempo de convivência e agora ainda estamos viajando juntos para divulgar o filme. Isso fortalece a amizade”, diz Green. Nat acrescenta – “Embora mais velho, ele é fácil de conviver, caso contrário não seria nosso porta-voz (dos jovens)”. Sobre as diferenças entre livro e filme – elas existem e são muitas –, Green defende as escolhas do diretor Jack Schreier. “O importante é que ele foi fiel ao espírito do livro. O filme reforça a ideia de que Margo, a garota (interpretada por Cara Delevingne), não é um milagre. Ela é humana. E o filme também passa mais que o livro a força da amizade, o que ela representa. Gostaria de ter explicitado mais no livro. No filme, é melhor.”

Nat é músico, com o irmão Alex. Vivem em Nova York. Green mora com a mulher e os filhos em Indianópolis. Possuem rotinas diferentes. Nat vive imerso no ritmo trepidante da metrópole gigantesca. Green curte a cidade pequena. Leva e traz os filhos da escola, mas admite que gostaria de ser mais disciplinado para escrever. O que Nat espera a seguir? “Que ele escreva outro papel para mim”, brinca. E seriamente – “Isaac (Klausner, produtor-executivo de A Culpa) me disse que lesse o Cidades. Li e passou a ser meu livro preferido do John. Me identifiquei totalmente com o personagem. Quando eles me convidaram para o papel, foi como se tivesse ganhado a loteria.”

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