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Escritor conta a história de grandes diretores que voltaram da Segunda Guerra

'Five Came Back' conta a história de John Ford, William Wyler, John Huston, Frank Capra e George Stevens

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

11 de abril de 2015 | 16h00

William Wyler estava em sua mansão de Bel Air, naquele domingo. Jogava tênis com o amigo John Huston quando sua mulher irrompeu nervosamente na quadra, no jardim, anunciando que os japoneses haviam atacado Pearl Harbor e os EUA estavam em guerra. Naquele dia, John Ford e a mulher integravam o grupo que almoçava na casa do almirante Andrew Pickens em Alexandria, na Virginia. Também lá, a refeição festiva foi interrompida por um telefonema do Departamento da Guerra para o militar. Ele voltou minutos depois e anunciou gravemente o que havia ocorrido em Pearl Harbor. “Gentlemen, we’re in war.”

John Ford já pressentia que a guerra era só uma questão de tempo e, em setembro daquele mesmo ano – 1941, o ataque à base norte-americana foi em dezembro –, tomou a iniciativa de ir para Washington. Fez contatos com o alto-comando militar, anunciando sua intenção de formar um grupo que chamou de Naval Volunteer Photographic Unit. A intenção de Ford já era treinar fotógrafos e técnicos de som para operar em zonas de guerra. Conservador como era, o grande diretor, que já havia vencido dois de seus quatro Oscars – por O Delator, de 1935, e Vinhas da Ira, de 1940 –, via com apreensão o avanço dos nazistas na Europa e a formação do eixo da Alemanha com o Japão. Já que a guerra não apenas era inevitável, como iminente, ele queria estar pronto.

Em torno de Ford, arregimentaram-se outros grandes nomes da indústria – e Hollywood foi para a guerra. É uma história que muitos cinéfilos conhecem, mas faltava um livro para esmiuçá-la. Ele surgiu. Chama-se Five Came Back, Cinco Regressaram. Editado pela Penguin Books, o volume de Mark Harris entrou para a lista do The New York Times Bestseller. Na capa da brochura – 514 págs., US$ 18 –, há uma frase do The Wall Street Journal. “Harris tem uma história urgente para contar, e a conta de forma brilhante.”

Harris é autor de Pictures at a Revolution, sobre cinco filmes que, entre 1967 e 72, deram nascimento à nova Hollywood – um monumental fracasso de público, Dr. Dolittle, e quatro obras viscerais, A Primeira Noite de Um Homem, Bonnie & Clyde, No Calor da Noite e O Poderoso Chefão. Cinco também foram os grandes diretores que fizeram a guerra munidos de câmera e voltaram para contar a história. John Ford, William Wyler, John Huston, Frank Capra, George Stevens. O que os levou à medida extrema? Na primavera de 1938, três anos antes, o todo-poderoso Jack Warner, que dirigia com os irmãos o estúdio Warners Bros, sediou um jantar em homenagem ao escritor Thomas Mann, que se exilara nos EUA, para fugir do nazismo. Warner chamou a elite de Hollywood para discutir o crescente poder de Adolf Hitler na Alemanha e a inevitabilidade da guerra. Quatro anos antes, a Warner já deixara de trabalhar com os alemães. No dia seguinte do evento, fechou seus escritório na Áustria. Já era uma declaração de guerra, mesmo parcial, contra Hitler.

Em 1941, com 46 anos – nasceu em 1895 –, John Ford já tinha idade para ser pai dos jovens que iriam combater os nazistas na Europa e no Pacífico. Mark Harris conjetura se esse comprometimento tardio não terá sido uma revanche contra o fato de o jovem Sean Aloysius – o nome verdadeiro de Ford –, 25 anos antes, ter sido rejeitado pela Academia Naval de Annapolis? Por conta disso, ele não participou da 1.ª Grande Guerra. Não perderia a 2.ª. Frank Capra já havia vencido três vezes o Oscar nos anos 1930 – por Aconteceu Naquela Noite, O Galante Mr. Deeds e Do Mundo Nada Se Leva. Ítalo-americano, chegou a flertar com o fascismo e somente Arthur Cohn, dono da Columbia, o impediu de fazer um filme sobre Benito Mussolini. Teria sido desastroso para sua reputação. Em 1943, Capra ganharia o prêmio de melhor documentário por Prelude to War/Prelúdio para a Guerra.

O envolvimento desses grandes diretores na guerra, os filmes que fizeram e as experiências que viveram, mudaram não apenas suas vidas. George Stevens filmou a liberação dos campos de extermínio dos nazistas. John Huston documentou os efeitos da guerra em soldados que voltaram traumatizados – e Let There Be Light provocou tanta polêmica que foi censurado pelas autoridades. John Ford venceu dois Oscars de curta, por The Battle of Midway e December 7th. William Wyler filmou as fortalezas voadoras. Para Harris, os cinco, ao regressar traziam uma visão mais madura (soturna?) de mundo. Forjaram as mudanças que sacudiram Hollywood nos anos 1950 e 60. É um livro apaixonante, que se lê como um romance denso e bem escrito.

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