Escola de Cinema Darcy Ribeiro já ensina

É um projeto de Paulo Mendes da Rocha. Quer dizer: o grande arquiteto redesenhou o espaço da antiga agência dos Correios, na Rua da Alfândega, no Rio, adaptando-o às exigências da Escola de Cinema Darcy Ribeiro. O projeto é de Irene Ferraz. Concretiza um sonho de dez anos. Mas o mentor é o homem que dá nome à escola de cinema - o inesquecível Darcy Ribeiro. Irene fala com carinho sobre a consciência e o entusiasmo do antropólogo e educador, de quem esteve perto nos últimos anos da vida dele. Darcy foi um personagem multifacetado e contraditório. Ele próprio sabia disso e deixou claro no seu livro autobiográfico, Confissões. Mulherengo, autoritário e prepotente, mas também lúcido, apaixonado e bem-humorado. O mineiro (de Montes Claros, quase na divisa com a Bahia) que se tornou o ministro da Educação e chefe da Casa Civil no governo de João Goulart, foi expurgado do poder pelos militares e correu mundo reformando universidades. Acreditava na educação como ponta-de-lança do desenvolvimento. Sonhava com universidades livres. Irene dedicou-se a tornar realidade um sonho de Darcy, aplicado a um objeto de interesse dela: o cinema. Darcy defendia o ensino acessível, Irene queria fazer, no Brasil, uma escola de cinema do tipo da de San Antonio de los Baños, em Cuba, na qual trabalhou como coordenadora, durante alguns anos. A Escola de Cinema Darcy Ribeiro realiza esse duplo sonho - o dela e o de Darcy. Como todo projeto que pensa alto, ainda depende de investimentos para viabilizar-se no patamar sonhado por Irene. Mas ela já tem números para exibir: a escola de cinema recém-inaugurada (em outubro) já está operando com capacidade superior à disponibilidade do prédio, que ainda está sendo adaptado. O núcleo de roteiro teve de ser ampliado para atender à demanda de alunos. Os núcleos livres de fotografia e restauração atraem grupos de jovens que sonham com o cinema e encontram ali, naquele espaço, o nirvana para a concretização de suas aspirações. Ou você acha que existem outros cursos superiores de cinema que você possa freqüentar pagando R$ 30 e poucos por mês ou nem isso, se você não tiver condições de não pagar nada? Esse é o desafio de Irene Ferraz. Ela precisa de apoio financeiro e institucional para manter a escola de cinema no nível exigido por ela própria e pela memória de Darcy. Precisa de recursos para terminar a reforma do prédio e manter as turmas. O primeiro apoio já veio -por parte da BR Distribuidora, a grande mãe quando o assunto é o apoio a projetos de desenvolvimento do cinema brasileiro. A BR apóia filmes, festivais, publicações, restaurações, museus de cinema. Deu o ponto de partida para a concretização da Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Não - na verdade, o começo de tudo foi o apoio dos Correios, que cedeu a Irene, como patrocínio, o seu prédio desativado, na Rua da Alfândega, no centro do Rio, quase ao lado do Centro Cultural Banco do Brasil. Esse prédio tem história: construído em 1914, ali funcionou o Banco Germânico da América do Sul até 1943. Em plena guerra contra o Eixo, o imóvel foi incorporado ao patrimônio da União e entregue aos Correios e Telégrafos. Em janeiro de 2001, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos cedeu-o ao Instituto Brasileiro de Audiovisual, entidade mantenedora da Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Encontrado o prédio com que Irene sonhava, Paulo Mendes da Rocha0 criou o projeto e a BR entrou com os recursos para a restauração do velho edifício, que apresentava todo tipo de problema de conservação, sem perder a beleza que o levou a ser tombado pelo Patrimônio Histórico. Cursos - A BR deu a Irene - ao Instituto Brasileiro de Audiovisual - R$ 1,3 milhão, que ela investiu na primeira etapa da restauração do prédio. Aplicou um pouco do dinheiro nos cursos que já começaram a funcionar. Precisa agora de bem mais para concluir o projeto arquitetônico e seguir adiante com os cursos livres e regulares. Acredita, como Darcy, que "se o Brasil não investir em tecnologia de ponta no ensino corre o risco de ser colonizado". Foi pensando assim que ela agrupou um monte de notáveis no Instituto Brasileiro de Audiovisual, todos dispostos a dar seu aval ao projeto de criar um novo conceito de escola de cinema no País. Ao entrar no prédio, você encontra uma exposição de fotos de Darcy Ribeiro, em diferentes momentos de sua vida, e uma coleção de frases. Uma delas é exemplar: "Tentei criar uma universidade livre e fracassei. Tentei salvar os índios brasileiros e fracassei. Mas minhas derrotas são minhas vitórias. Detestaria estar no lugar dos que me venceram." Assim era Darcy, um sonhador que chegou ao poder, dele foi apeado e que voltou para reafirmar os princípios nos quais acreditava - e que estão expressos nas suas Confissões. Sem nenhuma autocensura, ele não poupa, no livro, a família, os amigos, os políticos - e nem a si mesmo, sendo, aliás, o principal alvo das próprias farpas. Alguns notáveis deram seu apoio ao Instituto Brasileiro de Audiovisual, traduzindo-o em frases que Irene Ferraz apresenta como exemplos da seriedade do trabalho que está empreendendo. Cacá Diegues: "A instalação dessa escola no Rio é indispensável para o fluxo de novos artistas e técnicos, capazes de fazer da produção de audiovisual uma atividade permanente nesta cidade e em nosso País." E Nelson Pereira dos Santos acrescenta: "Tenho certeza de que na Escola de Cinema Darcy Ribeiro renascerá o cinema, como arte e como indústria." Sob o signo renovador das estruturas do ensino superior no Brasil, a Escola de Cinema Darcy Ribeiro tem o compromisso de dominar as novas tecnologias e formar profissionais capacitados para atender às exigências crescentes do mercado. Será um centro permanente de formação dinâmica e interativa, por meio de cursos livres e workshops, mas principalmente de um curso regular para a formação integral do estudante, a partir da reflexão teórica, da informação de base e do treinamento técnico. Para chegar ao Curso Superior de Cinema, o estudante tem como pré-requisito a freqüência e aprovação num curso preparatório de três meses. Com duração de três anos, o curso superior pretende oferecer 4 horas/aulas diárias para turmas de, no máximo, 30 alunos, durante cinco dias da semana, de fevereiro a junho e de agosto a dezembro, totalizando 920 horas anuais. O projeto arquitetônico integral está orçado em R$ 6 milhões. Falta ainda bastante para arrecadar por meio das leis de incentivo. Mas Irene Ferraz também está contatando os governos eleitos do Rio e do Brasil, cujos apoios são fundamentais, até para o reconhecimento da escola. Interessados em investir e até em aprofundar o conhecimento sobre a Escola de Cinema Darcy Ribeiro podem telefonar para (0--21) 2516-3527.

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