Eryk Rocha e Tunga lançam parceria no cinema

A interação entre cineastas e artistas plásticos, nos Brasil dos anos 1960, fez nascer uma nova linguagem da qual Glauber Rocha se tornou o arauto, ao assumir as cores e o discurso tropicalistas em O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969). Rocha estabeleceu um diálogo íntimo com a cabeça de Hélio Oiticica, desenhista e pintor que criou, em 1967, o ambiente Tropicália, sinalizando o caminho para uma interpretação onírica da cultura brasileira. Mais de três décadas depois, o escultor Tunga, um contemporâneo de Oiticica - ou melhor, seu legítimo sucessor -, realiza, aos 51 anos, seu primeiro filme, justamente com o filho de Glauber, Eryk Rocha, 26. Quimera, que estréia hoje, em São Paulo, é mais que um filme. É um manifesto estético.Na mitologia grega, quimera é um cruzamento híbrido de vários animais (leão, cabra, serpente). No filme de Tunga e Eryk, o espectador vira um gato vadio, que assiste um homem se barbear e transformar-se, gradativamente, num gato, que, por seu turno, vira barba e confunde-se com o protagonista masculino. O filme paga tributo à tradição surrealista no cinema - que, entre outros clássicos, consagrou o Entr´acte (1924), de René Clair, e L´Âge D´Or (1930), da dupla Buñuel-Dali -, mas avança em outra direção. Se os pioneiros mantiveram-se reféns da narrativa, a dupla brasileira busca a autonomia da imagem. Os realizadores não seguem lógica nenhuma. Não rodam um filme, mas um sonho."Fazemos o contrário de Freud, que interpretava os sonhos", brinca Tunga. "Nós preferimos trazer a realidade para o sonho", conclui o artista, que já representou o Brasil na Bienal de Veneza e é um nome obrigatório em todas as mostras internacionais. O parceiro Eryk observa que a construção de sonhos entre artistas era mais freqüente no tempo de seu pai. Lembra que, depois de Câncer, o polêmico documentário de Glauber sobre a morte do pintor Di Cavalcanti, houve um "retrocesso" no diálogo entre as artes visuais. Em Quimera, esse hibridismo faz ferver o caldeirão brasileiro com novos seres míticos.Tunga é um especialista no assunto. Criou sereias para desfiles de moda, gêmeas siamesas unidas pelos cabelos e, agora, com a ajuda de Eryk, homens que se transformam em gatos vadios. Sem narração, a conspiração felina é traduzida por uma trilha sonora tão complexa que Giovanni Fusco (o parceiro eletrônico de Antonioni) parece um primitivo perto dela. A dupla usa a imagem de gatos abandonados olhando para a câmera quase como uma alegoria da condição humana no Brasil. Nesse mundo pré-verbal, em que o sofrimento só pode ser esboçado por miados ou gestos rudes, a criação de um animal mítico, arcaico, insinua que há uma conspiração em marcha - contra ou a favor desses gatos, desprezados pela madame.Eryk jura que não se trata de uma metáfora política. Longe disso. "O que interessa é investigar como anda nossa percepção hoje, como imaginar uma nova linguagem entre animais míticos." Cinema de poesia, enfim. Em seu outro filme inédito, Intervalo Clandestino, o cineasta trata, sim, de política, mas por meio de vozes anônimas. A figura do presidente Lula é desfocada para dar lugar ao povo."A política institucional não me interessa", diz o cineasta, realizador do elogiado Rocha Que Voa, seu filme de estréia. "Para mim, cinema é o fluxo imprevisível da existência, uma viagem iniciática", define o jovem diretor.Tunga complementa ao dizer que Quimera busca um estado mental desconhecido. Coloca o espectador diante de uma "cena-instalação" de 16 minutos, cuja montagem obedece ao mesmo critério (i)lógico de um sonho. Para tanto a dupla mobilizou amigos e familiares em torno de um projeto destinado a ser o marco zero de outros filmes. Tunga e Eryk estão criando um pólo de produção para realizar novos projetos. "Não faço obras de arte; abro frentes de trabalho", diz o escultor, lembrando que o russo Dziga Vertov também pensava o cinema como uma atividade industrial. "É falso esse antagonismo entre cinema e indústria no Brasil", resume Eryk, preparado para exibir seu filme em outros países e representar o País em festivais importantes como Oberhausen e Cannes.

Agencia Estado,

13 de abril de 2004 | 16h26

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