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Eric Rohmer modernizou a tradição do cinema francês

Nova edição em DVD de 'A Carreira de Suzanne', de 1963, joga luz sob o legado do cineasta, que conseguiu ser brilhante em alguns filmes

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

12 Setembro 2014 | 15h42

Eric Rohmer, pseudônimo de Maurice Sherer, foi sempre um autor à parte no cinema francês. Dublê de professor de literatura e crítico, ele chegou a ser redator chefe de Cahiers du Cinéma na fase de eclosão da nouvelle vague, entre 1957 e 62, quando a revista era o principal sustentáculo do movimento que revolucionou o cinema francês e mundial. Admirador de Murnau, Mizoguchi e Alfred Hitchcock - escreveu, com Claude Chabrol, um livro sobre o mestre do suspense -, era católico nos limites da carolice e, por isso, carregou, no começo, o título de 'jansenista da mise-en-scène'. O curioso é que esse jansenista criou o ciclo dos contos morais, modernizando a tradição francesa do século 18. São histórias que, invariavelmente, abordam a sedução e até a libertinagem.

É tempo de apreciar as qualidades de Rohmer, graças a um lançamento em DVD da Cult Classics. A Carreira de Suzanne/La Carrière de Suzanne, de 1963, é o segundo dos contos morais e vale assinalar, como metodologia do autor, que Rohmer fez o quarto, La Collectioneuse, antes do terceiro, Minha Noite com Ela. Pode-se ver Suzanne como uma possibilidade de diálogo de Rohmer com seu contemporâneo François Truffaut, que havia feito, dois anos antes, Jules et Jim/Uma Mulher para Dois, baseado no romance de Henri-Pierre Roché. Suzanne também trata da ligação de dois homens e uma mulher. Bertrand é um estudante muito sério, Guillaume, seu colega, é o maior galinha da universidade. Para se divertir, ele se aproxima de Suzanne, que trabalha para pagar os estudos. Guillaume a despreza e seu olhar contamina o de Betrand. Há também Sophie, que é o verdadeiro interesse sentimental de Bertrand, mas ela parece comprometida com outro estudante rico.

Numa noite em que Suzanne dormiu na casa de Betrand, desaparece o dinheiro do rapaz, e ele a acusa de roubo, mas Sophie, sem exatamente acusar Guillaume, diz que o viu fuçar nos livros do amigo, onde estava a quantia. Como todo Rohmer, A Carreira de Suzanne reserva uma ironia. No final, a conclusão deixa claro que Suzanne não é, nunca foi, a simplória desdenhada por Bertrand e Guillaume. O desfecho tem algo a ver com o de Ma Nui Chez Maud/Minha Noite com Ela, três anos mais tarde. No outro filme, Jean-Louis Trintignsant resiste, a noite toda, às investidas sexuais de Maude/Françoise Fabian. Ele alega sua condição de comprometido, mas pela manhã sabemos o que a noivinha estava fazendo enquanto seu casto enamorado resistia.

Tudo garantia a Rohmer seu lugar particular no cinema da França. Não só os temas, o estilo depurado e dialogado, mas também a própria economia de produção. Rohmer fez sempre filmes baratos. Até os que seriam seus filmes mais caros - Perceval le Gaullois, A Marquesa de O e A Inglesa e o Duque, por serem de época - obedeceram à mesma e restrita forma de produzir. A Inglesa e o Duque, de 2001, tornou-se modelar pelo uso do digital e pela forma de representar a história (com H). Na fase de crítico, Rohmer não deixou de ser um discípulo de André Bazin, o crítico referencial da França no pós-guerra, de quem acaba de sair no Brasil, com décadas de atraso, o volume O Que É o Cinema? Como Bazin, mas de forma mais coerente, Rohmer acreditava na inocência absoluta do olhar da câmera, que não mentiria, e também era um católico tão cândido que até os amigos da nouvelle vague tomavam suas afirmações (e defesas de autores) como provocações.

Como Jacques Rivette, outro 'clássico', Rohmer não obteve a consagração imediata de Jean-Luc Godard e François Truffaut na nouvelle vague, mas conseguiu se impor e terminou alcançando, ao longo de sua carreira - morreu em 2010, aos 90 anos -, mais público, na França e no mundo, que os outros dois juntos. Na vida, Rohmer foi sempre reservado, quase tímido. Resistia à mundanidade, às entrevistas. Dizia que ser anônimo era fundamental para seu trabalho como diretor. Seu prazer sempre foi tomar o metrô, sentar-se nos cafés para observar as pessoas. Usava depois, tudo isso, em seus filmes. Há, em Rohmer, uma concepção clássica do espaço. Somada ao tom de seus filmes, esculpiu a fama do grande reacionário, mas ele subverte, de dentro, o próprio classicismo por meio de enquadramentos e movimentos de câmera de grande sensibilidade. Rohmer usa a cor como se fosse um pintor e, principalmente nos filmes históricos, falsas perspectivas criam efeitos de distanciamento. Além dos contos morais, criou outras séries - comédias e provérbios e os contos das estações.

Sua regra número um - "Não demonstro nada." E ele era um grande diretor de atores, tendo revelado inúmeros talentos. Ninguém é muito conhecido em A Carreira de Suzanne. Ou melhor, ninguém é conhecido, a começar por Catherine Sée, a Suzanne. Cinéfilos de carteirinha encontram nas bancas a edição de julho/agosto da revista FilmComment, editada pelo Lincoln Center, de Nova York. Nela, há uma longa entrevista de Phillpe Garrel, o pai de Louis, que compartilha 'palavras de sabedoria' (como diz o texto) representativas de sua carreira de 50 anos. Philippe faz uma espécie de revisão da nouvelle vague e do próprio cinema. O que ele fala de Godard e Truffaut, mas também de Rohmer, Rivette e Jacques Démy, é não apenas interessante como acurado. Mais que isso - brilhante, como o próprio Rohmer conseguiu ser em alguns filmes.

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