Equívoco conceitual entrava documentário

Em apenas três anos, Evaldo Mocarzel estabeleceu-se como um dos mais ativos (e premiados) documentaristas do País. Neste período, ele fez À Margem da Imagem, Mensageiras da Luz - Parteiras da Amazônia, Do Luto à Luta e À Margem do Concreto. Com exceção do segundo, todos os demais foram premiados em importantes foros nacionais - À Margem da Imagem ganhou a Margarida de Prata da CNBB, Do Luto à Luta venceu o Festival do Recife concorrendo com obras de ficção e À Margem do Concreto levou o prêmio especial do júri no recente Festival de Brasília. Mocarzel, niteroiense por nascimento e paulistano por afinidade, é o que se pode chamar de diretor com consciência social. Mas nem sempre acerta. Mensageiras da Luz, que estréia hoje, é seu filme menos interessante. Mocarzel começou no jornalismo. Não o renegou. O enfoque jornalístico faz-se presente no seu trabalho, mas ele não pretende ficar apenas numa linha verista de documentário.Seus filmes apresentam uma acentuada preocupação com a linguagem. E obedecem a algumas regras muito rígidas, porque Mocarzel venera Robert Bresson acima de todas as coisas e todo cinéfilo sabe que o mestre francês renega o artifício. Um dos mandamentos de Bresson, que o diretor de Mensageiras da Luz também comunga, é a ausência de trilha. A música pode até entrar no trabalho de ambos, mas é pontual. Do Luto à Luta, sobre a síndrome de Down, termina com música ambiental numa festa com downianos que cantam e dançam ao som de Don´t Let me Down. Em Mensageiras da Luz, Mocarzel documenta as parteiras da Amazônia. São mulheres simples que falam sobre sua atividade numa região que não se destaca pela assistência hospitalar. Há uma cena particularmente incômoda, que mostra um parto - e um parto difícil, no qual o bebê fica entalado - , provocando estresse na tela e aflição na platéia. Mocarzel, quando fez o filme (em 2003), estava muito impressionado com o genial Depois da Vida, de Kore-Eda Hirokazu. Você vai perceber pela insistência com que ele pergunta às suas parteiras que imagem da vida elas gostariam de levar para a eternidade, como no filme japonês. O grande problema é conceitual. Parteiras da Amazônia, até por suas personagens, faz a defesa do parto natural, mas o diretor, no que não deixa de ser uma incoerência, encerra seu filme com uma cesariana. Há críticos que consideram exibicionista o fato de Mocarzel haver filmado o nascimento do próprio filho. Talvez seja só uma atitude confessional, como em Do Luto à Luta, que ele fez impulsionado pelo próprio caso da filha, que é downiana. Aqui, influenciado pelas teorias de montagem do russo Dziga-Vertov, Mocarzel quis mostrar como nasce um filme. O nascimento do filho e o do filme viram uma coisa só, em montagem paralela. Mas o fato de ser uma cesária contradiz o que dizem as parteiras entrevistadas. Mensageiras da Luz - Parteiras da Amazônia (Br/2004, 72 min.). Documentário. Dir. Evaldo Mocarzel. 12 anos. Cineclube Vitrine 2 - 17h, 18h30, 20h. Cotação: Regular

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