ENTREVISTA-Padilha filma violência da fome em novo documentário

Esqueça as favelas do Rio de Janeiro,os tiroteios e as cenas de tortura. O novo filme de JoséPadilha, o documentário em preto-e-branco "Garapa", fala de umoutro tipo de violência que o capitão Nascimento não tem comocombater -- a fome e a miséria. O diretor vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlimseguiu por 30 dias a rotina de três famílias cearenses emsituação de "insegurança alimentar grave", um problema queatinge mais de 10 milhões de brasileiros, segundo o InstitutoBrasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase). Padilha quer mostrar como a fome se manifesta do ponto devista pessoal das famílias, dando vida a números eestatísticas, para aproximar o espectador de cinema daexperiência direta do que é conviver com a miséria. "Quis fazer um filme o mais simples possível, com o mínimode alegorias e de informações que fossem além da históriadaquelas famílias", disse Padilha à Reuters. "Filmei como se fosse um documentário sendo feito em 1930.Com lente fixa, não filmei com zoom, em preto-e-branco, não temmúsica, é todo com câmera na mão", disse. "Acho que dá a idéia, para quem está olhando, de que 'ah,estou vendo um troço em preto-e-branco, deve ter sido muitoantigamente'. E aí o cara olha e vê que é hoje." A vontade de filmar "Garapa", nome dado às misturas de águae açúcar que as crianças tomam na falta de leite, surgiu com olançamento do Programa Bolsa Família, há quatro anos. Hoje, sãoquase 50 milhões de pessoas atendidas, com repasses debenefícios básicos de cerca de 60 reais para famílias de rendade até 60 reais. Das famílias que Padilha filmou, apenas duas recebemdinheiro do programa, enquanto a terceira não tem documentospara se registrar. Uma família tem duas filhas e está na regiãourbana de Fortaleza; outra tem 12 filhos e mora perto de umacidade da zona rural do Estado, e a última tem três filhos evive no "meio do nada", no interior. Como em seus filmes anteriores, o longa de ficção "TropaElite" e o documentário "Ônibus 174", Padilha mais uma vez trazum tema que promete incendiar debates, tanto sobre a fome e aabrangência do Bolsa Família, como também o próprio processo defazer cinema. PRÓXIMA PARADA: VALE-TUDO, TERROR E POLITICAGEM Padilha viajou ao Ceará com uma equipe de três pessoas --produção, técnico de som e fotógrafo -- e filmou o dia-a-dia defamílias miseráveis, que não tinham da onde tirar o que comer.A posição do cineasta, nesta hora, balança. "Durante as filmagens, você não pode interferir... Você temque, como cineasta e os técnicos que estão lá, se propor aaguentar conviver com uma situação dramática... E isso é duropara quem está filmando", disse. "Mas, comparado à realidadedas famílias, o problema do cineasta que está filmando édesprezível, risível." Padilha afirmou que após as filmagens fez "um monte decoisa" que não podia durante o processo para ajudar asfamílias, mas evitou falar do assunto durante a entrevista,para evitar que o foco do filme recaísse sobre ele. Toda arenda obtida com o longa será revertida para as três famílias. "O importante é saber que existem famílias nessa situação,para mobilizar as pessoas a tentar acabar com a fome", disse."E se eu deixar esse filme virar um debate sobre mim, sobre oque eu fiz ou deixei de fazer, é contraproducente no debatesobre a fome." Mais um documentário do diretor nascido no Rio de Janeirodeve ficar pronto até o final deste ano. Feito em parceria coma BBC e o canal franco-alemão Arte, o filme discorre sobre aspolêmicas pesquisas de antropólogos estrangeiros com índiosianomâmis no Alto Orinoco, no final dos anos 1960. Depois, ele tem três projetos em andamento para filmes deficção, incluindo um com a Warner Bros. sobre uma investigaçãode financiamento de terrorismo na Tríplice Fronteira (Brasil,Paraguai e Argentina). O roteiro ainda está sendo trabalhado. Os outros dois projetos são um filme com roteiro de BráulioMantovani (roteirista de "Cidade de Deus") sobre lutas devale-tudo pelo mundo e outro sobre o processo de financiamentode campanhas políticas no Brasil, com roteiro do antropólogoLuiz Eduardo Soares, um dos autores do livro que inspirou"Tropa de Elite".

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