ENTREVISTA-Nachtergaele leva misticismo da Amazônia a Cannes

Matheus Nachtergaele não temreligião, mas acredita em milagre. Foi assim que o atorembarcou para Barcelos, a 400 km de Manaus, para rodar seuprimeiro filme como diretor, "A Festa da Menina Morta", no qualcria uma religião a partir de um ritual misterioso. "A Festa", que contou com apoio do governo do Amazonas, foiselecionado para a prestigiosa sessão Un Certain Regard, doFestival de Cinema de Cannes, que começa nesta quarta-feira. Entre bezendeiras, pajés, padres, pais-de-santo,evangélicos e batistas, um novo grupo religioso é formado napequena comunidade ribeirinha de Barcelos, a partir de ummilagre, que é o aparecimento de um vestido rasgado de umamenina desaparecida. "Eu tive esse desejo concreto e acho que a gente conseguiu,de alguma forma e sem ser um filme de antropologia, fazer de a'Menina Morta' um amálgama das nossas religiões", disseNachtergaele à Reuters por telefone. "Tem traços catolizantes, traços da pajelança indígena,traços do candomblé, do espiritismo", disse. "É o pai-nossodito em tupi." Na frente desta nova religião está Santinho, interpretadopor Daniel de Oliveira (ator de "Cazuza"). O rapaz encontra ovestidinho da menina após o suicídio de sua mãe e faz de suacasa um santuário para tal relíquia. O filme se passa em dois dias, um para a preparação dafesta da menina morta e outro para a festa-ritual propriamentedita, ápice da história, o qual o diretor faz suspense. Aspessoas rezam em frente ao vestido, e acredita-se que Santinhoreceba a menina morta. "O meu espanto diante do fato de a gente morrer permeia ofilme todo, e também a minha comoção pelo fato de a genteconseguir dar sentido à vida", disse o diretor paulista de 39anos, que assina o roteiro ao lado de Hilton Lacerda(roteirista de "Baixio das Bestas"). A idéia inicial para "A Festa da Menina Morta" surgiu em1999, quando Nachtergaele filmava "O Auto da Compadecida" emCabaceiras, interior da Paraíba. Em um dia de folga, o ator presenciou uma cerimôniareligiosa na casa de uma família, que oferecia seu terreno paraa celebração do milagre de sua filha, que havia desaparecido,mas "enviado" seu vestido após muitas preces e peregrinações. "Isso me deixou muito perturbado, no melhor dos sentidos.De repente, estava diante da capacidade infinita que o homemtem em criar fé para tentar dar algum sentido às dores davida", disse o diretor. "Acho que o tamanho de uma fé me pareceexatamente proporcional ao pavor da morte." FÉ BRASILEIRA Nachtergaele passou a visitar Manaus e Barcelos todos osanos desde 2003, após descobrir que ali na Amazônia seria olugar perfeito para sua história. Ele descobriu a pequenacomunidade ao filmar "Eclipse", filme de um diretor austríacoque permanece inédito no Brasil. "Barcelos é um lugar pequeno, isolado e ali você conseguedistinguir com muita clareza as religiões que formam oimaginário da fé brasileira", disse o diretor, que passou cincosemanas na cidade filmando e um mês produzindo em 2007. "Tem muito índio lá ainda ... índios de várias etnias, comseus filhos e netos, morando em cidades, com mercado, telefone,com banco, contas para pagar, que assistem a novelas, dançamforró, hip hop." O diretor fez questão de chamar atores e atrizes da regiãopara atuar ao lado de nomes reconhecidos como Cássia Kiss eDira Paes. Realizou quatro workshops na capital, e escalouEdnelza Sahdo, "considerada a Fernanda Montenegro de Manaus". "O Brasil já se retrata com muito talento como carioca,como paulista, como gaúcho, como baiano, nordestino. Mas achoque a gente ainda não se retrata bem como amazônico", afirmou. "Acho que a Amazônia ainda é para o nosso cinema um lugarbem distante, bom para documentários e filme de aventura. Achoque é bem mais que isso." Nachtergaele embarca no final de semana para Cannes, onde ofilme será exibido dia 21. Esta será sua primeira vez nofestival, embora tenha uma longa carreira como ator de filmes. Entre ter a idéia do roteiro e o começo das filmagens, oitoanos se passaram, além de dezenas de filmes, novelas eminisséries da Globo, como "América", "Da Cor do Pecado" e"Queridos Amigos". Entre os filmes, atuou em "Árido Movie"(2004), "Tapete Vermelho" (2005) e "Baixio das Bestas" (2007). Nachtergaele, que começou sua carreira como ator de teatro,pretende seguir com outros projetos como diretor, mas semdeixar a atuação de lado.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.