ENTREVISTA-Depois de Saramago, Meirelles mergulha em Shakespeare

O cineasta Fernando Meirelles foifisgado pelo universo de William Shakespeare, por onde deveorbitar pelo próximo ano, cuidando de um projeto para a TV e umlonga-metragem, após um período intenso debruçado sobre umlivro de José Saramago. A minissérie "Som e Fúria", sobre uma companhia de teatroshakespeariana em crise, começou a ser rodada nesta semana emSão Paulo. E o livro de Jorge Furtado "Trabalhos de AmorPerdidos", uma adaptação livre da obra de mesmo nome do poetainglês, deve ser rodado na sequência, em 2009. "Shakespeare é droga pesada. Quanto mais você lê mais vocêquer ler. Cada linha tem poesia, filosofia, uma profundacompreensão do que nós somos", disse o diretor à Reuters. Parte das filmagens de "Som e Fúria", que estréia noprimeiro semestre de 2009 na Globo, será no Teatro Municipal,com um elenco repleto de nomes famosos da TV e do teatro, comoas comediantes Andréa Beltrão e Regina Casé e os atores GeroCamillo, Cacá Rosset, Felipe Camargo e Dan Stulbach. A minissérie é uma adaptação de um programa canadense emostrará um grupo montando "Hamlet", "Sonhos de uma Noite deVerão", "Romeu e Julieta" e "Macbeth". "É uma comédia romântica que se passa nos bastidores. Émais sobre atores do que sobre as peças mesmo, mas há belostrechos destas lindas obras", disse por email Meirelles,responsável pela adaptação e direção-geral. O diretor paulistano, de 52 anos, afirmou que o pontapéinicial para embarcar no mundo de Shakespeare veio ao ler oromance de Furtado, diretor de "O Saneamento Básico -- O Filme"e roteirista de "Lisbela e o Prisioneiro". Furtado está escrevendo o roteiro. A história se passa emNova York e Londres e segue um brasileiro que ganha uma bolsapara estudar Shakespeare com outros estudantes do mundo todo. "Quero de fato fazer um pouco de comédia paracontrabalançar os temas que andei abordando", disse o diretorindicado ao Oscar por "Cidade de Deus" (2002). Meirelles também dirigiu "O Jardineiro Fiel" (2005), umdrama ambientado no Quênia que valeu Oscar à atriz RachelWeisz, e o inédito "Ensaio sobre a Cegueira", baseado no livrohomônimo de Saramago e que abriu o Festival de Cannes de 2008. "Mas não acho que se possa comparar (esses projetos sobre)Shakespeare a 'Domésticas' ou ao 'Maluquinho'. O que estoufazendo é leve, mas de outra maneira, para uma outra direção",explicou, citando seus primeiros trabalhos como diretor, como"Menino Maluquinho 2". SARAMAGO DEU "O MELHOR PRESENTE" Antes de Shakespeare, Meirelles passou mais de um ano com aobra do escritor português, que se emocionou recentemente aover o filme ao lado de Meirelles, uma cena registrada noYouTube, "quase acidentalmente pelo meu filho Quico", disse. "A projeção do filme estava péssima, muito abaixo doaceitável e esperava que os poucos presentes ficassem muitodecepcionados, inclusive o autor da história", disse. "Mas, para minha surpresa, ele ficou comovido e disse quese sentia tão feliz por ver o filme como quando acabou deescrever o livro. Foi o melhor presente que poderia receber." Mesmo com o aval do prêmio Nobel, o diretor mexeu mais umavez no filme, que acabou tendo 12 versões. Os nove meses demontagem, as angústias e as idéias que fizeram o longa-metragemforam narradas em blog pelo próprio diretor. "Num próximo filme, se tiver tempo e cabeça, acho querepito a dose", prometeu. "Ensaio", uma co-produção Brasil, Canadá e Japão, contoucom atores de vários países -- como a norte-americana JulianneMoore, a brasileira Alice Braga e o mexicano Gael GarcíaBernal. Meirelles disse que, apesar de se falar cinco línguasno set, "nunca tive um elenco e uma equipe que se entenderamtão bem". "Foi quase mágico." No filme, Moore faz a única pessoa que não é afetada pelaepidemia de cegueira que devasta a cidade. Além da doençafísica, o longa também trata da cegueira psicológica. Ao ser questionado se o Brasil era afetado pela doença,frente aos escândalos políticos sem solução, o diretor disseacreditar que cegos mesmo são os Estados Unidos. "A grande potência mundial hoje me parece bastante cega.Elegem duas vezes um camarada visivelmente inadequado, nãoconseguem ver nada além do seu próprio território ...",afirmou. "Sinto que no Brasil temos mais vontade de realmente nosolharmos. Mas isso tudo são generalizações, sempre perigosas deserem feitas, então é melhor eu parar por aqui."

FERNANDA EZABELLA, REUTERS

08 de julho de 2017 | 14h28

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