José Patrício/AE
José Patrício/AE

Entrevista com Daniel Filho, diretor de Chico Xavier

Cineasta conta que fez muita pesquisa para realizar o filme, mas que para ele, 'essa é uma história de emoção'

Luiz Carlos Merten - O Estado de S. Paulo,

29 de março de 2010 | 10h37

"Era um santo, mas também era um homem", diz Daniel Filho sobre o médium mineiro que é tema de seu mais recente filme, também denominado 'Chico Xavier'. O diretor conta que fez uma longa pesquisa e  sobre um encontro que teve com o médium.

 

No começo de Chico Xavier, você adverte que é impossível dar conta de uma vida inteira num filme. É uma defesa antecipada das acusações que poderão ser feitas ao seu recorte?

É como você diz, um recorte. Um filme é feito por muita gente, muitos deram sua contribuição e eu sou, por natureza, um cara aberto, que ouve. Mas, por mais que o cinema seja um trabalho de grupo, a responsabilidade de um filme é individual. As escolhas são minhas. Brinco dizendo que quando um filme faz sucesso tem muitos autores. Quando fracassa, a culpa é do diretor. Ouvi muita gente antes e durante a feitura de Chico Xavier, me preparei mais do que para fazer qualquer outro de meus filmes. Isso se reflete na tela.

 

A ideia de usar como eixo a entrevista de Chico Xavier no programa Pinga-Fogo é muito interessante. E no final você tem as imagens do próprio Chico no programa, contando, do jeito dele, coisas que vimos recriadas com atores. Como veio o Pinga-Fogo?

Pesquisei muita coisa e aquele programa foi um marco da própria TV brasileira. Tenho essa ligação muito forte com a história da TV no País. Achei que seria uma âncora muito firme para a narrativa. O que o espectador não sabe é que aquilo me deu um trabalho imenso. As câmeras usadas na época nem existem mais. Precisamos recriar tudo, foi um trabalho de muita pesquisa. Ao mesmo tempo, o próprio Chico entrar no filme foi... uma necessidade. Ele tinha humor, humaniza o próprio relato. E eu queria que as pessoas vissem o homem, como eu o conheci.

 

Como foi o encontro com ele?

Muito breve, um aperto de mãos, algumas palavras, mas dava para sentir a energia. Para mim, essa é, fundamentalmente, uma história de emoção. Poderia citar muitos momentos da filmagem em que a equipe toda experimentava essa emoção, essa energia no próprio set.

 

Você tem amor e respeito pelo personagem, mas não foge à controvérsia. Os trejeitos, a vaidade. A história da peruca é divertida. Chico se indispunha muito com o espírito de Emmanuel?

Não estou inventando, nem quando tomo liberdades para ser fiel à essência. Quem conviveu com Chico conta que ele discutia muito com Emmanuel, a quem ninguém via, só ele. Acho que a questão da peruca, a vaidade, não é desrespeitosa. Ela humaniza o personagem. E eu pesquisei, sim, a sexualidade, a esquizofrenia. Chico tinha aqueles trejeitos femininos, mas depois de muito pesquisar me convenci de que era assexuado. Li os dados de sua avaliação psicológica, para tentar entender se seria uma fraude. Ele vinha de uma família com distúrbios mentais, mas o laudo é inconclusivo. Entramos no território da fé, e a fé não se explica. De qualquer maneira, a psicografia, que podia ser motivo de discussão, terminou aceita como prova jurídica válida num tribunal de júri. Isso é fundamental e está no filme.

 

O público ri quando o pai leva o jovem Chico ao bordel e ele puxa a reza das prostitutas, mas a cena do Pinga-Fogo em que defende a sexualidade como intrínseca ao homem é coisa de visionário.

A Olivia (aponta para a mulher) enfatizou que aquilo era muito forte e não poderia faltar (A própria Olivia intervém e lembra que aquela janela aberta para a compreensão do outro, inclusive quanto a preferências sexuais, era ousadíssima, ainda mais em 1971, sob a ditadura militar). O Chico falando aquilo na televisão era uma revolução na época. São momentos que não podem faltar.

 

A cena do avião, quando Chico tem uma crise e admite seu medo de morrer, é cômica. Mas, depois, quando ele conta a história, é ainda mais engraçado. O humor é um risco?

É possível que muita gente esperasse um filme sério, o tempo todo, para dar conta do personagem, mas acho que são esses momentos, essas quebras, que o definem. O homem era um santo, no sentido da bondade, da dedicação ao outro, mas era justamente um homem. Abro o primeiro flash-back com a cena em que a madrinha o obriga a lamber a ferida do amigo porque justamente isso define o que vai ser a vida de Chico. O movimento da câmera, pegando o isolamento daquela fazenda, atrás do monte, também é para realçar o mistério. Como esse homem surgiu naquele lugar, no fim do mundo, para espalhar sua mensagem de amor.

 

Você tem grandes atores em pequenos papéis. E tem os seus três Chicos. Existem momentos em que Nelson Xavier parece estar interpretando Ângelo Antônio. Como chegaram a isso?

Ah, me desculpe, mas sou um grande diretor de atores. Aceito que critiquem tudo em mim, menos que não sei dirigir atores. Quando eles são bons como o Nelson e o Ângelo, nada é impossível. Havia a preocupação de dar uma continuidade. A prosódia foi cuidada porque o jeito mineiro de falar é importante nessa história. Nelson e Ângelo vão dizer que se conhecem há anos, já trabalharam juntos e não é difícil para eles criar essa unidade de interpretação. Não é mesmo, mas isso era intencional e foi buscado. Nada me orgulha mais neste filme do que o elenco. São 135 personagens. Todos têm a mesma importância. Não há um figurante que não tenha sido preparado para interpretar seu papel. Se o filme acontecer, como espero, vou dever muito a esse elenco maravilhoso.

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