ENTREVISTA-Brasil boleiro e inventivo inspira Walter Salles

Futebol, religião e improvisação. Sãoesses os três esportes tipicamente brasileiros que o cineastaWalter Salles Jr., 52, escolheu para filmar "Linha de Passe",que trata da vida de quatro irmãos abandonados pelo pai aindano primeiro tempo de suas vidas. Quando era apenas um jovem torcedor do Botafogo, o cineastapremiado por "Central do Brasil" e "Diários de Motocicleta" jánotava o tom quase religioso que o esporte bretão adquiriu noBrasil. Essa mistura, somada ao desregramento do pós-jogo, dizele, o inspiraram para revelar nas telas uma metáfora do país. "Futebol e religião se encontram em mais de uma frente noBrasil. Primeiro, naquilo que é mais facilmente perceptível: naproximidade entre o fervor das torcidas e a fé dos crentes", disse Salles à Reuters em entrevista por e-mail. "Depois, no fato de que para um jovem desfavorecido, ofutebol representa uma saída desejada, embora raramentepossível. A religião, de alguma forma, também", completou. A escolha do tema, diz o cineasta, tem como base doisdocumentários dirigidos pelo irmão dele, João ("Futebol" e"Santa Cruz"). Com estréia prevista para o segundo semestre,"Linha de Passe" mostra "a capacidade de improvisação dosbrasileiros e o comportamento da sociedade como um todo". "O que me fascina é a capacidade de reinvenção que essaspessoas têm, enfrentando situações adversas. Todas as formas deexílio me interessam, mas a capacidade de sobrepujá-las meinteressa mais ainda.". A história se desenrola na capital paulista, em uma famíliachefiada por Cleuza (Sandra Corveloni), uma empregada domésticaque cria os quatro filhos e espera um quinto de mais um paidesconhecido. Reginaldo (Kaique de Jesus Santos), o único negro entre osfilhos, tenta obstinadamente encontrar o pai. Dario (Viniciusde Oliveira) insiste, já aos 18 anos, em se tornar jogador defutebol. Dinho (José Geraldo Rodrigues) busca refúgio nareligião e o mais velho, Dênis (João Baldasserini), se esforçapara manter o filho, fruto de uma gravidez indesejada. FICÇÃO E DOCUMENTÁRIO Salles tem se referido ao filme como um retrato de um paísfraturado, onde o futebol é um "constitutivo da identidadenacional" e "a capacidade de improvisação dos jogadores temalgo a ver com a maneira com que a sociedade se comporta". "A diferença é que ali no gramado existem regras... (e) oBrasil é um país onde as regras não são muitas vezes cumpridasfora das quatro linhas do campo. O futebol é, portanto, umespaço onde conseguimos nos ver representados", afirmou. O único pretenso boleiro entre os irmãos é o interpretadopor Vinicius de Oliveira, que se tornou famoso pelo papel dogaroto Josué em "Central do Brasil". O longa metragem dirigidopor Salles conquistou o Urso de Ouro do Festival de Berlim em1998 e foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Acostumado a dirigir estrelas como os atores Gael GarcíaBernal ("Diários de Motocicleta"), Rodrigo Santoro ("AbrilDespedaçado"), o cineasta optou --junto da co-diretora DanielaThomas-- por trabalhar com atores estreantes e diálogos livresem "Linha de Passe", transitando entre ficção e documentário. "Procuramos incorporar a pulsação da cidade no filme,integrar aquilo que estava acontecendo na rua, à nossa frente,dentro da narrativa", afirmou o diretor. Para 2009, o cineasta brasileiro trabalha em umdocumentário sobre o livro de cabeceira daquela que se tornoufamosa como a geração beat, "On the Road" ("Pé na Estrada" emportuguês), de Jack Kerouac (1922-1969). Depois de reencontrar e filmar os personagens do livro queainda estão vivos, Salles conversou com poetas influentes nomovimento pelo qual se interessa desde os 18 anos de idade. "Existem várias matrizes dentro do movimento beat, mascinco poetas que estão na sua origem me marcaramprofundamente", afirmou o diretor brasileiro. "(Allen) Ginsberg, pela sua admirável capacidade deinvenção. Gary Snyder, que introduziu o conceito de ecologia nomovimento e que é um homem de uma profunda sensibilidade einteligência; Michael McClure, intelectual de uma precisão eradicalidade incomuns; e Diane di Prima e LawrenceFerlinghetti, que alimentaram a veia anarquista do movimento,tão presente em São Francisco." O lançamento do filme marca os 50 anos da morte de Kerouac,consumido pelo álcool aos 47 anos de idade. (Texto de Maurício Savarese)

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.