'Entre Les Murs', de Cantet, ganha a Palma de Ouro em Cannes

Filme vence por 'unanimdade' do júri; prêmio foi entregue pelo ator norte-americano Robert de Niro

Flávia Guerra, enviada especial a Cannes,

08 de maio de 2025 | 15h13

A França ganhou uma Palma de Ouro em Cannes após anos de ausência. O filme chama Entre Les Murs (Entre as Paredes), uma "fábula política" baseada na história real de um professor francês e sua luta para integrar seus alunos de várias origens culturais e religiosas em uma sala de aula. "Eu estou muito feliz e surpreso. Devo muito desse prêmio a todos os jovens que trabalharam comigo com muita energia", declarou o diretor Laurent Cantet.   Veja também: Sandra Corveloni recebe prêmio de melhor atriz em Cannes Após 22 anos, Sandra quebra jejum do Brasil em Cannes Galeria com fotos da premiação do Festival de Cannes    A Escolha do Júri, presidido pelo ator Sean Penn, que tem forte tradição de prestigiar o cinema político, não surpreendeu e foi por decisão unânime. No sábado, Penn declarou em entrevista ao jornal Le Monde que estavam faltando filmes mais otimistas. Diante de uma seleção que primou por temas sociais e políticos, Entre as Paredes foi a escolha ideal. Ao colocar "o mundo em uma sala de aula" e falar da realidade dos imigrantes na França, Laurent faz cinema político sem fazer discurso.   No que diz respeito ao Brasil, que concorria com Blindness, de Fernando Meirelles, e Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, o País não saiu de mãos abanando. Sandra Corveloni, atriz de larga experiência no teatro, levou o surpreendentemente prêmio de Melhor Atriz e desbancou favoritas de peso. Um prêmio mais que merecido pela bela atuação. Sandra encarnou com maestria a figura de uma mãe suburbana que sustenta os quatro filhos com o salário de uma empregada doméstica na metrópole paulistana.   "Eu quero agradecer em português toda a equipe pela grande energia do filme. Estou muito feliz porque você, Sandra, não pode estar aqui com a gente, mas a sua grande força sempre nos acompanhou nessa viagem de puro prazer que foi mostrar nosso filme aqui", disse Daniela Thomas, explicando que a atriz não pode ir a Cannes porque havia acabado de sofrer um aborto. "Este é um dos piores momentos da vida de uma mulher. Por isso, esse prêmio pra Sandra vem num momento muito especial."   Patriotismo a parte, esse belo filme da dupla Walter e Daniela é digno de uma Palma, mas essas decisões de júri são sempre imprevisíveis e surpreendentes.   A Palma de ator também foi para outro latino. Benicio Del Toro, que encarnou Che Guevara, no filme de Steven Soderbergh, foi aplaudido de pé. "Agradeço muito à Wild Bunch e à Warner e a todos que ajudaram a produzir esse filme. Um agradecimento também ao 'homem Che' e outro para Steven, que me ajudou todos os dias da filmagem. Às vezes eu estava perdido, mas Steven sempre estava lá para me ajudar".   O cinema latino (ainda que baseado na Europa) continuou fazendo "bella figura" na noite de premiação. O Prêmio do Júri foi para o italiano Il Divo, uma forte e ao mesmo tempo satírica crítica do diretor Paolo Sorrentino à história política da Itália. Ao retratar a vida de Giulio Andreotti, uma das figuras mais polêmicas do poder político italiano, o filme confirma a tradição do país em primar pelo cinema político.   A Itália levou também o segundo prêmio mais importante da noite. O polêmico Gomorra, uma radiografia da máfia napolitana, baseado no livro reportagem homônimo de Nicola Sagino, surpreendeu e trouxe um novo olhar sobre uma das mais antigas e poderosas instituições italiana, ou seja, a máfia.   O melhor roteiro foi para os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne pelo rigoroso O silêncio de Lorna. A dupla já levou em outros anos duas Palmas de Ouro e sai dessa edição com mais um prêmio merecido.   O melhor diretor da noite "ficou de fora da Europa, mas dentro de uma escola não tradicional de cinema". O prêmio foi para Nuri Bilge Ceylan pelo belíssimo Uç Maymun (Os Três Macacos), o filme "menos político desta edição", que fala do drama de uma família turca.   O prestigiado Caméra d´Or ao melhor diretor estreante, entre todos os filmes em exibição no festival, foi para Steve McQueen por Hunger. A Palma de Ouro foi entregue pelo ator Robert De Niro que lembrou que Entre as Paredes passa a figurar no hall de filmes que ele mesmo estrelou e que marcaram época, como Taxi Driver, de 1977. "Após décadas, fico muito feliz de ver que o cinema se renova. Palmas para todos", declarou o ator, que também é a estrela do filme que esta sendo exibido após a apresentação e fechou o festival What Just Happened?. "Eu disse que era uma ironia o Festival de Cannes fechar justamente com esse filme porque vocês iriam se perguntar depois de saber quem ganhou what just happened?", brincou o ator (que também está no elenco do filme) e presidente do Júri, Sean Penn.   Para concluir, vale lembrar uma grande ausência entre os premiados, o israelense Valsa com Bashir, um original e forte documentário em animação dirigido por Ari Folman. Um dos melhores e mais favoritos filmes dessa edição saiu sem nada, mas marcou sua posição e deve fazer bela carreira internacional. Para quem ficou curioso, o filme já foi comprado pelo distribuidor brasileiro, Jean-Thomas Bernardini e deve estrear em breve no Brasil.

Tudo o que sabemos sobre:
Festival de Cannes

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.