Entra em cartaz "Os Cinco Sentidos"

Um médico que se percebe ensurdecendo aos poucos, e procura fazer um arquivo sonoro em sua memória. Uma adolescente que revela prazer em seu vouyerismo, e por isso acaba parecendo pervertida. Uma confeiteira que não consegue dar gosto aos seus doces, embora os faça lindos e enfeitadíssimos. Um faxineiro bissexual, que inicia uma obcecada busca pelo cheiro do amor. Uma massagista que não consegue relacionar-se com a filha, e lembra do marido morto cada vez que toca em alguém. São essas as personagens principais do filme canadense Os Cinco Sentidos, de Jeremy Podeswa, que estréia nesta sexta-feira em São Paulo e no Rio de Janeiro.Podeswa é o tipo do diretor que não trabalha com as emoções de maneira evidente, preferindo deixá-las subentendidas e delicadamente implícitas. Ele aplica um pluralismo narrativo - do tipo Robert Altman - e concentra uma reflexão muda, indizível - quase Kurosawa. Por isso, Os Cinco Sentidos se trata, no seu íntimo, de um filme sobre conflitos. Estes são conduzidos pela trama central do desaparecimento de uma menininha num parque, que mobiliza a população e atrai a atenção das personagens. Mais abertamente e menos profundamente, fala sobre conflitos externos: acerca de sentidos que cada personagem tenta resgatar, ou entender, ou controlar. Assim, Richard (o francês Philipe Volter) tenta ouvir todos os sons que ainda sentia falta registrar, antes que sua audição desapareça de vez. Essa procura propicia momentos lindos, como a visita a um coral de uma igreja, ambientada por uma sonoridade belíssima. Há também Rona (Mary-Louise Parker, de Tomates Verdes Fritos), que ao receber um affair italiano na sua casa - além de amante excelente cozinheiro -, lida com a realidade de seus bolos, que apesar de bonitos são insossos, e percebe, assim, o medo e a pequenez de sua própria vida.Menos abertamente e mais profundamente, o filme fala sobre os conflitos internos, ou seja, as mágoas pessoais dessas pessoas, que se acham perdidas de um único sentimento comum: o amor. Melhor do que isso, através de histórias simples, o filme "sugere que todos nós podemos escolher entre encararmos a vida e as relações, amorosas ou não, de forma pessimista ou otimista. É uma simples questão de escolha" - resume o próprio diretor (também roteirista). Talvez as principais personagens que reflitam esse questionamento sejam a voyeur Rachel (Nadia Litz) e sua mãe, a massagista Ruth (Gabrielle Rose). A primeira, pelo dasamor a tudo e a todos, e a segunda, pelo amor recluso por alguém que já morreu.Bonitas tomadas com boas interpretações fazem da reflexão de Podeswa um belo filme, que merece ser visto com atenção e, principalmente, merece ser absorvido. Como se disse, são histórias simples, sobre conflitos bastante familiares, e que podem servir ao público como uma reflexão pessoal sobre o modo bruto, às vezes injusto, que encaramos as coisas.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.