Entra em cartaz o quinto Dogma

Que tal encenar o Rei Lear, de Shakespeare quando se está morrendo de fome, sede, calor e desespero? Essa é a proposta de O Rei Está Vivo, de Kristian Levring. O filme é o quinto exemplar do Dogma-95, movimento que prescreve a volta do cinema à sua pureza original. Se isso é possível ou não, seria um bom tema para debate. O fato é que o Dogma tem produzido filmes no mínimo muito interessantes como Festa de Família, Os Idiotas e Mifune - os títulos dos três anteriores, feitos por dinamarqueses.O Rei Está Vivo é do mesmo estofo. Um bom tema, tratado de maneira radical (ou seja, sem as infantilidades de Hollywood) e interpretado por excelentes atores. Não se perde tempo com recursos de produção estratosféricos. A iluminação é chapada, natural, o que dá bom efeito em cenas mais cruas. Usa-se vídeo para captar as imagens e o resultado final é passado para película de 35 milímetros. O Dogma é uma maneira de filmar sem frescuras, que concentra esforços naquilo que interessa, o empenho artístico da obra.Na história, 11 passageiros atravessam de ônibus um deserto africano. Lá pelas tantas, o motor entra em pane e eles são obrigados a parar nas ruínas de um vilarejo fantasma. Nele, há apenas um habitante - um velho que não entende nada do que fazem aqueles turistas, não conhece a língua deles nem seus estranhos códigos de conduta.Filtrada pelo olhar do velho, a situação parece cada vez mais bizarra. Isso porque um dos passageiros, ator e diretor de teatro, resolve que uma boa maneira de passar o tempo seria dirigir o grupo numa encenação do Rei Lear. Como não tem o texto com ele, o jeito é reescrevê-lo, de memória. Depois, precisa explicar aos outros o que é o Lear e ensaiá-los, cena por cena.O Lear é, entre outras coisas, um estudo sobre a dificuldade de divisão do poder. Sentido-se velho, o rei decide dividir o reino entre as filhas. Caberá o trono àquela que provar que o ama mais. Ou seja, o Lear é, também, uma observação sobre o ridículo da vaidade humana. Quem quiser saber porque a adulação continua sendo eficaz, mesmo quando o adulado percebe a falsidade do adulador, não tem outra coisa a fazer senão ir ao Rei Lear e ler. Lear é tolo, porque abdica do poder, mas não da dignidade da realeza. Exige uma escolta de cem cavaleiros a seu serviço de soberano aposentado. Esses guerreiros não têm função mas, mais adiante, servirão de pretexto para violência, pois quem governa não pode admitir cem homens armados que não estejam sob seu comando. O poder não admite divisões, em especial no absolutismo, contexto em que Shakespeare escreve a peça.O Lear é tudo isso, mas também o fluxo de sentimentos ambíguos entre o patriarca e suas filhas de temperamentos tão diferentes, Cordélia, Regan e Goneril. Uma é bondosa e sincera. Por isso não consente bajular o ancião vaidoso e é suplantada pela falsidade das outras. Lear sente a morte próxima, mas deseja ainda se sentir amado. Não pode renunciar ao desejo de amor e esse é o seu ponto fraco. Portanto, a peça revela a permanência do desejo mesmo na situação-limite que é o fim de uma vida.Esse é o achado de Levring. Seu filme mostra o que acontece quando um grupo de desesperados resolve mergulhar num texto poderoso como o Rei Lear. Um texto que fala deles. A situação crítica daqueles "náufragos" do deserto torna-se mais aguda com os ensaios. Os conflitos explodem, a sexualidade parece mais premente. Passam a se comportar com o senso dramático de personagens de Shakespeare. Claro, na verdade, estão encenando o principal ato trágico de suas próprias vidas. O velho habitante do lugar funciona como coro, que comenta a cena de fora. Mas comenta sem entender o que está acontecendo. O efeito de distanciamento é curioso. Torna ainda mais absurdas as ações dos homens e mulheres que tentam sobreviver a qualquer custo.O interessante é verificar que a sobrevivência não é apenas física. Esse grupo heterogêneo, composto, entre outros, por um casal de americanos, Ray e Liz (Bruce Davison e Janet McTeer), a insinuante Gina (Jennifer Jason Leigh) e uma intelectualizada parisiense, Catherine (Romane Bohringer), precisa sobreviver também mental e emocionalmente. Quanto mais necessitam uns dos outros, menos podem contar com seus parceiros de desastre. Esse paradoxo faz parte da lei de Murphy do jogo subjetivo. Quem está bem, tende a ficar melhor. Quem está numa pior, tende a ir para o buraco de vez. Variante daquele antigo ditado popular: só se concede empréstimo aos ricos.O melhor de O Rei Está Vivo é a densidade com que a situação terminal é apresentada. Os meios técnicos para alcançá-la ficam em segundo plano. Esta talvez seja a sacada original do Dogma. Num tempo de supervalorização da tecnologia, eles descobriram o óbvio. Guardados certos limites, os espectadores pouco se lixam para o virtuosismo técnico do produto que bate na tela. Interessa mesmo é que a forma encontrada seja adequada ao conteúdo.O Rei Está Vivo (The King Is Alive). Drama. Direção de Kristian Levring. Din/2000. Duração: 109 minutos. Cinearte 1, às 15h10, 17h20, 19h30 e 21h40. Espaço Unibanco 1, às 15 horas, 17h10, 19h20 e 21h30. Lumière 2, às 15h20, 17h30, 19h40 e 21h50. 14 anos

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