Enfim teremos um Oscar verde e amarelo?

Enfim teremos um Oscar verde e amarelo?

Brasil vai tentar mais uma vez emplacar uma indicação a melhor filme estrangeiro com 'Que Horas Ela Volta?', de Anna Muylaert

Amilton Pinheiro, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

22 Setembro 2015 | 07h55

Quando William Hurt subiu ao palco para receber o seu Oscar de melhor ator pelo seu trabalho em 'O Beijo da Mulher Aranha', de Hector Babenco, em 1986, em suas poucas palavras de agradecimento, citou o Brasil quando falou “Saudades do Brasil”. O filme era uma produção do Brasil com os Estados Unidos, com atores americanos e brasileiros – tinha Sônia Braga no elenco –, falado em inglês e dirigido por um argentino radicado no Brasil. Simbolicamente foi o único Oscar que teve um gostinho brasileiro até hoje.

Em fevereiro desde ano, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood realizou a sua 87ª edição do Oscar e o Brasil, que concorria na categoria de melhor documentário com 'O Sal da Terra', de Wim Wenders e Juliano Salgado, uma produção Brasil-França, codirigido pelo filho do artista retratado no filme, o fotógrafo Sebastião Salgado, saiu mais uma vez de mãos vazias. O País nunca ganhou a estatueta, tendo sido indicado (nominado) algumas vezes, diretamente como produção brasileira, como coprodução ou como produção estrangeira sobre artistas brasileiros, perdeu em todas as ocasiões.

No próximo ano, a 88ª cerimônia do Oscar, poderá ter uma produção brasileira, caso o filme 'Que Horas Ela Volta?', de Anna Muylaert, nosso representante na categoria de filme estrangeiro, consiga ficar entre os cinco indicados - a lista final será divulgada no dia 14 de janeiro do 2016, mas antes o filme precisa figurar entre os nove pré-selecionados (em 2008, o filme 'O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias', de Cao Hamburger, ficou entre os nove pré-selecionados, mas não teve fôlego de emplacar entre os cinco finalistas ao Oscar de filme estrangeiro e a coisa só pirou, pois de lá para cá, os filmes brasileiros não entraram nem na lista dos nove).

O filme de Anna Muylaert (leia uma entrevista exclusiva com a cineasta), antes mesmo de ser escolhido para representar o Brasil, já havia começado uma carreira de sucesso internacional, inclusive nos Estados Unidos, no final de janeiro, quando ganhou um prêmio de atuação no importante festival de cinema independente Sundance - a premiação foi para as protagonistas do filme, Regina Casé, que faz a empregada Val, e Camila Márdila, sua filha na ficção, que é criada longe da mãe. “Estou nos Estados Unidos fazendo reuniões com o distribuidor daqui e meu produtor, Fabiano Gullane, para saber como vamos organizar a campanha do filme para uma vaga no Oscar do próximo ano”, revelou a diretora.

Campanha  para o filme

A campanha de um filme estrangeiro para o Oscar consiste em exibi-lo o maior número de vezes, fazer encontros com o público, anunciar as sessões de exibição na mídia, dar entrevistas na imprensa especializada, tudo isso com o objetivo de torná-lo visível aos membros da Academia que votam nessa categoria.  Mas a Academia, por sua vez, escolhe uma comissão de votantes para verem as sessões que ela organiza e, como são muitas produções estrangeiras (mais de 100 esse ano), ela divide a comissão e o número de filmes nas diversas exibições programadas.

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O editor do Caderno 2, do Estadão, Ubiratan Brasil, que desde 2004 acompanha nos Estados Unidos a cerimônia de premiação do Oscar para o jornal, diz que todos os anos a Academia realiza um evento para que o público e a imprensa encontrem com os cinco diretores dos filmes estrangeiros e lá conheçam também alguns membros das comissões que votam nessa categoria. “Quando comecei a cobrir o Oscar para o jornal se dizia que os membros que votam na categoria de melhor filme estrangeiro eram todos velhinhos, mas não é bem assim, pois nesse evento, que geralmente é um dia antes da festa de premiação, conhecemos eles e nem todos são velhinhos, tem gente nova também”, explica. 

Saindo na frente?

'Que Horas Ela Volta?'  já estreou nos Estados Unidos há alguns meses com sucesso de público (proporcionalmente, claro, a esse tipo de filme, estrangeiro e com legendas). Houve boa aceitação do filme por parte da crítica especializada, que o aponta como um dos fortes candidatos a uma das cinco vagas a melhor filme estrangeiro e, alguns, com uma dose de exagero, já que são conhecidos todos os filmes estrangeiros ainda, o considera com vantagem sobre os outros. Mas primeiro ele tem que ficar entre os nove pré-selecionados, e mesmo que entre na lista dos cinco nominados depois, ganhar é outra história, como se verificou em outros anos, em que o país era considerado favorito e saiu de mãos abanando. 

 

Em 1998, o filme 'Que é Isso, Companheiro?', de Bruno Barreto, era apontado como o favorito ao Oscar de filme estrangeiro, mas perdeu para uma produção holandesa que ninguém citava nas bolsas de aposta, Caráter, dirigido por Mike van Diem. “Eu estava sentado nas poltronas reservadas para alguns diretores de filme estrangeiro, com minha mulher na época, a atriz Amy Irving, quando anunciaram o vencedor da categoria, lembro de ter escutado o nome do filme, 'Caráter', e do pulo que o diretor holandês deu. Ele me abraçou e disse que não estava acreditando, pois para ele eu seria o vencedor”, lembra Bruno Barreto (Por coincidência, dois anos antes, em 1996, o irmão de Bruno, o também cineasta Fábio Barreto, havia concorrido a melhor filme estrangeiro por 'Quatrilho', mas perdeu para uma produção holandesa, 'A Excêntrica Família de Antônia', de Marleen Gorris, mas nesse ano, o concorrente era o franco favorito).

Campanha para melhor atriz

O diretor Bruno Barreto, que gostou muito do filme da Anna Muylaert, acredita que ela deveria pensar numa campanha para o Oscar visando não somente uma indicação para melhor filme estrangeiro, mas também para Regina Casé a melhor atriz. “A campanha deve ser direcionada a melhor filme estrangeiro e, sobretudo, para melhor atriz para Regina Casé, que está excepcional”. Não se deve esquecer que esse feito de duas indicações para um filme estrangeiro no Oscar não será inédito no Brasil, caso ocorra, pois em 1999, 'Central do Brasil', de Walter Salles, abocanhou indicação a filme na categoria e para  a atriz Fernanda Montenegro, mas ambos perderam injustamente para 'A Vida é Bela', de Roberto Benigni e para Gwyneth Paltrow, por Shakespeare Apaixonado, de John Madden, respectivamente.

 

Termômetro da Crítica 

O Crítico do Caderno 2, do Estadão, Luiz Carlos Merten acredita que tanto a produção brasileira estará na lista dos cinco finalistas a melhor filme estrangeiro como Regina Casé tem chances de ter seu nome nas nominações a melhor atriz. “Acho que o filme tem grande chances de ganhar o Oscar, já que é dado como quase certo sua escolha. Em relação a Regina Casé, se for feita uma campanha orientada para nominá-la, pode perfeitamente figurar entre as cinco atrizes, como aconteceu com Fernanda Montenegro, em Central do Brasil”, diz. Mas essa confiança de já ganhou não é compartilhada pelo crítico Antônio Gonçalves Filho, também do Caderno 2, do Estadão, que não gosta do filme, o considera bem mediano, ao ponto de classificá-lo de esquemático, inclusive não gosta de premiações e acha o Oscar uma caipirice só. “O filme é irregular, assim como os outros da diretora Anna Muylaert, e tampouco gosto do trabalho da Regina Casé. A crítica resolveu de uma hora para outra achar que o cinema brasileiro contemporâneo descobriu a luta de classes”, ironizou. E indagado o que acha do Oscar foi categórico. “Não acompanho o Oscar, achou cafona e sem valor, é coisa de caipira”. 

No meio do caminho existem os concorrentes

Mesmo tendo recebido críticas favoráveis nos Estados Unidos ao ponto de colocar 'Que Horas Ela Chega?', entre os cinco finalistas ao Oscar, antes mesmo de ser pré-selecionado entre as nove produções de língua estrangeira não inglesa, não se pode entrar na euforia do já ganhou. A diretora Anna Muylaert diz que não é muito de sonhar, mas pelo que vem escutando dos especialistas americanos e da recepção que seu filme teve lá, é bem provável que o filme consiga uma indicação. “Eu não sou muito de esperança e de sonhos, mas falando lá com os americanos, eles têm muita confiança que o filme chegue na lista dos cinco, ou seja, eles já esperam que seja nominado”, diz.  Mas ganhar são outros quinhentos, como mesmo ela reconhece. “Existem os filmes favoritos, e, claro, que não somos nós, acho que quem tem mais chances, até agora, é o filme húngaro 'Son of Saul', que dizem que é muito bom e trata de um tema que a Academia adora, que é o holocausto”. De fato filmes com temática sobre guerra e holocausto têm predileção na hora dos votos da Academia. Já se viu, desculpe o trocadilho, esse filme antes, quando 'Central do Brasil' perdeu para 'A Vida é Bela'. O filme húngaro 'Son of Saul', de László Nemes, além de tocar num assunto que comove os membros do Oscar, ao narrar a busca de um judeu que trabalha no campo de concentração pelo corpo de uma pessoa executada pelos nazistas, tem a seu favor também o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes desde ano, um dos mais importantes do mundo.

Mas temos outros concorrentes que podem surgir do nada, mesmo não tendo recebido prêmio em nenhum festival importante (veja tabela com os filmes indicados pelos respectivos países). Para o diretor Bruno Barreto prêmios em festivais importantes não quer dizer nada. “Tenha em mente uma coisa, muitos filmes que ganham festivais importante raramente ganham o Oscar, não só na categoria de filme estrangeiro, mas também os filmes de língua inglesa, por uma razão muito simples, os votantes da Academia têm um olhar diferente do júri dos festivais quando vão escolher seus vencedores”, e cita, como exemplo, 'O Segredo dos Seus Olhos', do diretor Argentino. Juan José Campanella, que venceu o Oscar de filme estrangeiro, sem ter ganho nenhum festival importante e bateu o favorito 'A Fita Branca', de Michael Haneke (diferente do futebol, os nossos hermanos argentinos estão na nossa frente, com dois Oscar, o primeiro foi conquistado em 1986 com o filme 'A História Oficial', de Luis Puenzo).

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