Encontro inusitado de mitos alemães

Dois mitos alemães, dois caminhosdistintos - Marlene Dietrich e Leni Riefenstahl são lembradaspelas imagens marcantes que deixaram em filmes consideradosclássicos. O cinema, porém, é o único ponto em comum: do pontode vista político e ideológico, elas representaram personagensantagônicas. Enquanto Leni, com uma estética única, associou acultura à promoção da ideologia nazista, Marlene vestiu ouniforme dos aliados e emprestou sua voz e imagem na luta contrao império ariano sonhado por Adolf Hitler. Tais contradições vãobrilhar na tela da Sala Cinemateca a partir desta terça-feira,quando começa o ciclo Duas Estrelas Alemãs. São 18 filmes, cuja exibição será intercalada porperfomances entre as sessões, além da leitura de uma peça e deum debate. E ainda uma exposição fotográfica com 38 imagens deMarlene Dietrich vai ocupar o saguão da Cinemateca. Como aprogramação prevê a exibição das obras em ordem cronológica,será possível observar a ruptura que a 2.ª Guerra Mundialpromoveu na carreira das duas estrelas. Se Marlene é ´ícone dasedução´, poderíamos chamar Leni de ´ícone dos seduzidos´,afirma Bruno Fischli, diretor do Instituto Goethe de São Paulo,que também participa da realização do ciclo, ao lado daAssociação Cultural Babushka. Marlene Dietrich faria 100 anos em dezembro passado, masmorreu em 1992, aos 90 anos. Ela foi um dos maiores mitosfemininos da tela e teve uma vida marcada pelo perfeccionismo,ousadia e por amores de ambos os sexos. O mito nasceu pelas mãosdo diretor austríaco Josef von Sternberg que, em 1929, chamou-apara o papel da cantora de cabaré em O Anjo Azul, filmeinspirado no livro de Heinrich Mann, recentemente reeditado noBrasil pela editora Estação Liberdade. A imagem enigmática e fria de uma prussiana disciplinadaque a imortalizou começou a ser moldada no dia seguinte àestréia de O Anjo Azul, quando Marlene foi ao encontro deVon Sternberg em Hollywood, trabalhando com ele em outros seisfilmes, sob contrato da Paramount. Entre eles, Marrocos(1930), em que já se apresenta como a femme fatale solitária. Nesta época, Leni Riefenstahl, que completou 100 anos nodia 22 de agosto, acumulava fãs na Alemanha por suasinterpretações nos populares filmes de montanha do diretorArnold Fanck, gênero cuja concepção de heroísmo se encaixavacomo uma luva na política cultural do nacional-socialismocomandado por Hitler. Em filmes como Tempestade sobre oMontblanc (1930) e Êxtase Branco (1931), Leni enfrentavaautênticas avalanches de neve para dar mais veracidade àscenas. A década de 30 marcaria definitivamente os caminhosdistintos na carreira de cada uma. Marlene encerraria a parceriacom Joseph von Sternberg para atuar pela primeira vez em umacomédia falada, Tentação Irresistível (1936), produzida pelomestre do gênero, Ernst Lubitsch. Nesse mesmo ano, ela recebeuinsistentes convites de Joseph Goebbels, ministro da Educação ePropaganda do 3.º Reich, para retornar à Alemanha e se tornar aestrela de Hitler. Marlene, porém, recusou e, para a irritaçãogermânica, tornou-se cidadã norte-americana em 1939. Já Leni Riefenstahl alcançaria o prestígio máximo com oFührer, ao criar dois momentos imortais do cinema, tanto pelocunho político como estético. Em 1934, ela dirigiu O Triunfoda Vontade, o maior filme de propaganda da história do cinema.Leni não se limitou a documentar a convenção do PartidoNacional-Socialista, em Nuremberg - ao apresentar a massa dealemães em ângulos fotográficos inusitados e cortes pouco comuns ela mitificou os líderes nazistas e conseguiu, segundo ocineasta americano Frank Capra, a glorificação da guerra, adeificação de Hitler e a canonização de seus apóstolos. O filme garantiu-lhe carta branca para realizarOlympia (1938), documentário sobre a Olimpíada de Berlim,disputada em 1936. Nunca a maior festa do esporte foi tão bemretratada. Como sabia que o filme seria exibido dois anos depois ela preparou o projeto em detalhes, consumindo dois anos - seismeses de preparação antes do evento e um ano e meio para editaro material. Além de divulgar a estética nazista da glorificaçãodo corpo, remontando aos ideais gregos, a diretora conseguiuimagens impressionantes ora utilizando apenas a sensibilidade(como acompanhar uma luta de esgrima filmando apenas as sombrasdos competidores), ora a inteligência (cavou buracos na pista deatletismo, de onde as câmeras captaram ângulos inéditos desaltos e corridas). A eclosão da guerra alterou profundamente o destino dasduas alemãs. Marlene interrompeu seu trabalho como atriz nosanos de 1943 e 44 para participar dos shows que entretiam astropas norte-americanas no front na África e na Europa, além detrabalhar em hospitais. Foi nessa época que ela incluiu em seurepertório a canção Lili Marlene, que se tornou obrigatóriaem suas apresentações até o fim da vida. Pelo trabalho ao ladodos aliados, Marlene recebeu condecorações dos Estados Unidos,da França e de Israel. Em 1940, Leni Riefenstahl iniciou a produção de seufilme derradeiro, O Vale, uma história situada nos Pirineusespanhóis. Com o projeto, que só foi finalizado em 1954, elapretendia fugir de mais uma encomenda de Hitler, mas nãoconseguiu se desvencilhar da trágica história do Terceiro Reich:em agosto, uma sobrevivente do Holocausto a processou, exigindoque Leni reconhecesse publicamente que errou ao afirmar quenenhum dos figurantes do filme tivesse sofrido. Segundo a autorado processo, dos 48 figurantes, mais de 20 foram mortos emcampos de concentração. Terminada a guerra, Leni foi presa pelos aliados eobrigada a passar alguns anos na prisão. Mesmo depois deabsolvida pelo Comitê de Desnazificação da Alemanha, que aconsiderou apenas simpatizante, as portas permaneceramfechadas aos novos projetos da cineasta. Já Marlene participoude uma série de obras-primas, como A Mundana (1947) eTestemunha de Acusação (1957), ambos de Billy Wilder, e AMarca da Maldade (1958), de Orson Welles. Sua única decepçãofoi ter sido acusada de traidora em Berlim, sua cidade natal,por ter colaborado com os norte-americanos. Iniciou também uma bem-sucedida carreira de cantora,deleitando platéias (inclusive no Rio) com sua voz rouca esensual, até tomar a decisão de viver reclusa em seu apartamentoem Paris, em 1976. Eternizada como mito, inspirou doisdocumentários, Marlene (1984), de Maxmilian Schell, para oqual não se deixou filmar, comparecendo apenas com a voz; eMarlene Dietrich, Sua Própria Canção (2002), de J. DavidRiva, seu neto, que utilizou material inédito dos arquivos daatriz. Já Leni voltou-se para a fotografia, registrando tribosafricanas do Sudão, além da realização de documentários sobre avida marinha, como a filmagem de tubarões na Costa Rica. Semprenegou envolvimento político com o nazismo, como registra odocumentário Leni Riefenstahl, A Deusa Imperfeita (1993), deRay Müller, até mesmo no dia em que completou 100 anos, emagosto, quando estreou seu documentário ImpressõesSubmarinas, com imagens capturadas nos sete mares.Serviço - Marlene Dietrich, Leni Riefenstahl: Duas EstrelasAlemãs. Amanhã (17), às 19 horas, ´Marlene´/84, de MaximilianSchell; amanhã, às 21 horas, leitura da peça ´Marleni - DivasPrussianas, Loiras como Aço´/98, de Thea Dorn. Na quarta-feira,às 18h45, sexta, às 19 horas, ´Tentação Irresistível´/36, deFrank Borzage; na quarta-feira, às 20h45, ´A Mudança´/47, deBilly Wilder. Quinta, às 19 horas, ´A Mulher Desejada´/29, deKurt Berhhardt; quinta, às 21 horas, ´Beijo sua Mão, Madame´/28,de Robert Land. Sexta, às 17h15, ´Marrocos´/30, de Josef vonSternberg; sexta, às 21 horas, ´A Imperatriz Galante´/34, deJosef von Sternberg. Sábado, às 17h30, ´Êxtase Branco´/31, deArnold Franck; sábado, às 19h15, ´A Luz Azul´/32, de LeniRiefenstahl; sábado, às 21 horas, ´Tempestade sobre oMontblanc´/30, de Arnold Franck. Domingo, às 17 e 21 horas,´Marlene Dietrich, sua Própria Canção´/2002, documentário de J.David Riva; domingo, às 19 horas, ´A Vênuz Loira´/32, de Josefvon Sternberg.De quarta a domingo. De R$ 3,00 a R$ 6,00 (grátis- performance). Sala Cinemateca. Largo Senador Raul Cardoso, 207 São Paulo, tel. 5084-2318. Até 6/10

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.