Encontro com Jorge Furtado no CCBB

Giba Assis Brasil, montador deHouve uma Vez Dois Verões, cita Luis Buñuel, o diretorgaúcho Jorge Furtado prefere citar Shakespeare. Pode parecerpretensioso, mas a comédia que terá pré-estréia amanhã noCentro Cultural Banco do Brasil, no programa Encontro com oCinema Brasileiro, em São Paulo, disfarça tão bem sua erudiçãoque você vai se divertir apenas a partir de uma constataçãobásica: Houve uma Vez Dois Verões é melhor do que qualquerdesses filmes teens que Hollywood despeja às dúzias nas telas detodo o mundo. Não admira que tenha recebido o prêmio da críticano Cine Ceará.Talvez seja uma limitação comparar Houve uma Vez DoisVerões às comédias americanas sobre (e com) adolescentes.Alguns elementos estão lá: a corrida pela perda da virgindade,as piadas sobre sexo, mas o filme vai muito além disso. E aindaoferece um regalo: Ana Maria Maineiri - você não pode terdeixado de reparar nela em Tolerância, de Carlos Gerbase -ganha um papel que ressalta, além da beleza, seu talento. Essa"guria", para usar um termo bem gaúcho, é sensacional.Quem costuma prestigiar as sessões do Encontro com oCinema Brasileiro sabe como funciona o horário, no CCBB. Às18h30, passa o filme e, na seqüência, começa o debate com odiretor, coordenado pelo crítico e pesquisador Ismail Xavier.Você vai poder discutir o filme à vontade, mas é pouco provávelque deixem de surgir perguntas sobre Ilha das Flores, ocurta do diretor Furtado que é uma das obras-primas do cinemabrasileiro, e também seu trabalho na Globo, integrando o núcleode Guel Arraes, no qual ajudou a formatar, por exemplo, aComédia da Vida Privada.Houve uma Vez Dois Verões é o primeiro longa deFurtado. O primeiro, em termos, porque ele acha que LunaCaliente, que fez para TV, já era um longa. Ele talvez venha aser acusado de usar a linguagem da TV, a da publicidade. Suacomédia passa-se, em parte, na praia, fora do veraneio. Trata dedois garotos que só pensam naquilo. Surge a personagem de AnaMaria. Faz sexo com um dos meninos e tira dinheiro dele, sob aalegação de que ficou grávida e precisa abortar. Ana Maria fazgato e sapato do garoto. Está grávida, não está, está de novo. Éambivalente - e, por isso, Giba Assis Brasil faz a ponte comBuñuel. Em Esse Obscuro Objeto de Desejo, o mestre fez comque duas atrizes (Angela Molina e Carole Bouquet) interpretassema mesma personagem, para expressar sua ambivalência. Furtado usauma só atriz, mas a ambivalência é a mesma. Ele lia Shakespearequando começou a desenvolver o roteiro. Colocou um Romeuapaixonado, um bobo como o de Rei Lear, uma manipuladora comoLady Macbeth. É um filme trilegal, ainda para usar a linguagemgaúcha.Encontro com o Cinema Brasileiro. No Centro CulturalBanco do Brasil (Rua Álvares Penteado, 112 - centro, São Paulo).Amanhã (29), às 18h30: Houve uma Vez Dois Verões. Na seqüência,ocorre debate com o diretor Jorge Furtado. Entrada franca.

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