'Encantados', de Tizuka, estreia este mês no Pará e, em 2018, entra em circuito nacional

'Encantados', de Tizuka, estreia este mês no Pará e, em 2018, entra em circuito nacional

Finalizado em 2014, filme conta a história da pajé paraense Zeneida Lima; sobre José Mayer, que está no elenco, a diretora diz: 'Não tenho nada a ver com a vida pessoal dele, tenho o maior respeito com o trabalho de ator dele' 

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2017 | 06h01

SOURE (PARÁ) - Rodado entre 2008 e 2009, e finalizado em 2014, o filme Encantados, de Tizuka Yamasaki, entra agora em uma etapa pela qual a cineasta batalhava há tempos: vai chegar ao público. A estreia ocorre no próximo dia 7 apenas em salas de cinema do Pará. O motivo? O Estado é cenário para o novo longa de Tizuka. E, em março, está previsto o lançamento nacional, com distribuição da RioFilme. Coprodução entre Globo Filmes e Scena Filmes, Encantados já rodou festivais no Brasil e no exterior – foi premiado na 38.ª Mostra de São Paulo, na categoria Festival da Juventude, em 2014, e abriu o Brazilian Film Festival of Miami, em 2016.

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No dia 18 de novembro, houve a pré-estreia especial do filme, ao ar livre, na Praça Independência, em Soure, na Ilha do Marajó, com plateia lotada. Pouco a pouco, o público se ajeitava nas cadeiras de plástico distribuídas em fileiras na frente do telão, montado ali na tarde daquele mesmo dia. Quem não conseguiu lugar na plateia trazia a própria cadeira e se posicionava nos espaços vagos. Adultos, adolescentes, crianças. Todos estavam ali para assistir a uma história de sua terra, de uma personagem local, a pajé Zeneida Lima, hoje com 83 anos, educadora, escritora e fundadora da Instituição Caruanas do Marajó Cultura e Ecologia. 

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Na plateia, estavam ainda Tizuka e Zeneida, além de Marco Aurélio Marcondes, diretor-presidente da RioFilme, Nilcemar Nogueira, secretária municipal de Cultura do Rio, e políticos locais. Do elenco, só o ator Ângelo Antônio, que interpreta o pajé Mestre Mundico no filme – figura importante na vida de Zeneida –, conseguiu ir a Soure. Ali, Ângelo assistiu ao filme pela primeira vez. Depois da projeção, ele disse ao Estado que estava impressionado. “O filme não cai, tem uma levada o tempo inteiro. Tizuka consegue manter uma tensão o tempo inteiro”, comentou, entusiasmado, o ator (leia entrevista com ele abaixo). Zeneida estava emocionada: “Ali senti como se fosse um grito da natureza, por tudo aquilo que eu lutei a vida inteira para preservar a memória caruana”.

Dira Paes e Thiago Martins, que também estão no longa, mandaram recado por vídeo. A agenda dos dois estava atribulada – Dira estava envolvida com um novo filme e Thiago, com as gravações da novela Pega Pega. Paraense, Dira foi representada na sessão por sua mãe, D. Florzinha, como é carinhosamente chamada. José Mayer, que faz o advogado Angelino na história, também não foi ao evento. O ator foi acusado de assédio e, por isso, sua ausência era esperada. O fato de ele estar no elenco pode prejudicar o filme? “Não, acho que o ator Zé Mayer está acima disso tudo”, responde Tizuka, que o dirigiu também na minissérie da Globo, O Pagador de Promessas (1988). “Não tenho nada a ver com a vida pessoal dele, tenho o maior respeito com o trabalho de ator dele.” 

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Percalços. Inspirado no livro de Zeneida, O Mundo Místico dos Caruanas da Ilha do Marajó, o filme conta a história de Zeneida (Carolina Oliveira), então menina, que sai de Belém, com a mãe Zezé (Letícia Sabatella), os sete irmãos e a empregada Cotinha (Dira), e vai para Ilha do Marajó, por determinação de Angelino (Mayer), pai ilegítimo dos oito filhos que teve com Zezé. 

É na ilha que Zeneida passa por seu rito de passagem: seu dom de pajé, que era sufocado pela família, se aflora quando ela entra em contato direto com a natureza. É ali também que descobre o amor (proibido) por Antônio (Thiago), um encantado, como são chamados os seres da natureza (daí o título do longa). O filme traz ainda no elenco Anderson Müller, como o capataz Fortunato, além da participação especial de Laura Cardoso e Cássia Kis, como índias ancestrais. 

Foi um longo caminho para Encantados até o lançamento de agora. Enfrentou percalços como falta de dinheiro e problemas com distribuição. “Acho que tem vários motivos para o atraso do filme, mas a gente está entrando com ele no melhor momento. O Pará está bombando, a cultura paraense está bombando. Ficou uma certa conjuntura a favor”, comemora Tizuka, referindo-se ao sucesso da novela A Força do Querer, que tinha personagens – e locações – paraenses. 

"Quando apresentei o projeto pela primeira vez, eu falava da pajé Zeneida e não conseguia investimento. Quando eu coloquei a pajé lá no final do currículo dela, apareceu o primeiro investimento. O Brasil foi descoberto, os portugueses vieram aqui, vieram vários invasores, sempre se sufocou a cultura local e continua assim até hoje. Essa experiência, a gente teve no processo de realização do Encantados.”

 

 

"Respeito demais a sabedoria dos índios’, diz Ângelo Antônio

Em entrevista ao Estado, o ator falou sobre seu personagem e o sucesso de 2 Filhos de Francisco

Vocês filmaram há cerca de 10 anos. Como foi ver o longa agora?

É legal, porque eu não sabia das cenas que ficaram. E acho que o mais importante é essa atualidade do filme com relação à questão da natureza, do que a gente está vivendo hoje – essa agressão com a natureza, de falta de compreensão de que a gente é parte dela. 

Como foi a preparação para o papel do pajé Mundico?

Tenho uma relação com índios há muito tempo, sou batizado indígena. Respeito demais a sabedoria que eles têm.

Você está no ar em Malhação. Quais seus outros projetos?

Teve o filme do Breno (Silveira), Entre Irmãs, fiz participação. Filme bonito, elenco está bacana. 

2 Filhos de Francisco, de Breno, ainda é forte na sua carreira?

Até hoje as pessoas se lembram. Uma pessoa tremia quando veio falar comigo no metrô em Londres. Ela tinha feito a tradução do filme num país europeu.

As pessoas, então, se lembram muito de você como Francisco...

Que nem o Beija-Flor (da novela ‘O Dono do Mundo’). Até hoje se lembram. 

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