"Encantadora de Baleias" traz candidata ao Oscar

A Encantadora de Baleias pode servisto como um filme sobre a permanência das tradições em umtempo em tudo contrário a elas. Ou pode ser tomado como umaespécie de simpático manifesto feminista em um ambientetipicamente machista. Estamos na Nova Zelândia e em plena cultura maori estagnada e ameaçada diante da ocidentalização rápida do país.Há uma menina, Pai (Keisha Castle-Hughes, indicada para o Oscarde melhor atriz), devota do avô, Koro (Rawiri Paratene), umguardião dos antigos costumes. O pai de Koro foi tentar a vidaem outro país e deixou a menina com os avós. Volta, mas é umestranho no lugar. Koro quer encontrar líderes jovens para manter umatradição a cada vez mais sentida como frágil. O problema é queprecisa de candidatos homens. Pai quer seguir a tradição, élíder nata, mas mulher. Sofre com isso e tem de enfrentar o avô,a quem ama e que é tambémum líder comunitárioA menina está justamente no ponto de inflexão dessa dupla relaçãode forças - que opera dentro e fora da família. O que poderia se transformar numa série de caricaturasdesse tipo de situação, desdobra-se, em vez disso, numdesenvolvimento sutil. A surpresa é que a garota Pai não é uma rebelde clássica.Lidera uma suave e silenciosa revolução.Saga étnica - Desnecessário dizer, nesse ponto, que ofilme é, também, um comentário lateral sobre tudo o que, nomundo moderno, parece levar à uniformização, à extinção dasdiferenças, sobretudo quando essas diferenças são expressão daspartes mais fracas, como é o caso dos maoris, apenas 10% dapopulação na Nova Zelândia, uma ex-colônia britânica. É um casode uma cultura dominada tentando sobreviver diante de umacultura dominante, e num país cujo índice de desenvolvimentohumano (IDH) é um dos mais altos do mundo. Essa saga étnica é narrada com despojamento. Trata-se deum ponto de vista feminino, e a diretora Niki Caro não deixanunca que a paisagem suntuosa sobrepuje as idéias que pretendetransmitir e discutir. Depois de O Senhor dos Anéis, a NovaZelândia tornou-se um cartão-postal da humanidade e esse é umperigo terrível - deixar que a força da paisagem natural dêconta do recado de maneira integral. Em a Encantadora deBaleias, isso não acontece. A beleza plástica da paisagemaparece sempre em função daquilo que se quer dizer, semchantagem ou embotar o espectador.Encantadora de Baleias (Whale Rider). Drama. Direção de NikiCaro. N.Zel-Ale/2003. Duração: 105 minutos. Livre

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