Emoção na dança de "Billy Elliot"

Desde que passou em Cannes, fora de concurso, no ano passado, Billy Elliot, de Stephen Daldry, virou um fenômeno. É o Tudo ou Nada deste ano. O tipo do filme pequeno que o público adora e faz sucesso independentemente dos recursos investidos na promoção. Exibido no Festival do Rio BR 2000, em setembro, teve sessões lotadas. Na Mostra Internacional de Cinema São Paulo, em outubro, dividiu o troféu Bandeira Paulista com Capitães de Abril, de Maria de Medeiros e Tempo de Embebedar Cavalos, de Bahman Ghobadi.É a história de um menino numa comunidade de mineiros da Inglaterra. O pai quer que ele freqüente a escola de boxe, mas no mesmo estádio há uma professora de dança e Billy prefere o balé. A sapatilha em vez das luvas de boxe. A princípio, ele sofre as conseqüências da incompreensão familiar, mas depois... Billy Elliot chamava-se Dancer quando passou em Cannes. Mas havia, na competição, o filme Dancer in the Dark (Dançando no Escuro), de Lars Von Trier, que recebeu a Palma de Ouro e, no mercado, outro filme initulado The Dancer. O diretor Daldry resolveu rebatizar o filme. Daldry concorre ao Oscar de melhor diretor, mas seu filme não está entre os cinco finalistas. Daldry tem 40 anos e é diretor de teatro. Não sonhava com uma carreira no cinema e também não é muito ligado em dança. Mas um amigo - Lee Hall - escreveu Billy Elliott e lhe pediu que dirigisse o filme. Como recusar? Ele admite que gosta de filmes comerciais e é vidrado em melodramas. Adorou a experiência. O público, também. A história de Billy beneficia-se enormemente do elenco, Jamie Bell, que faz o protagonista, é otimo e o mesmo pode-se dizer de Julie Walters, que interpreta a professora (e concorre ao Oscar de coadjuvante). O ator que faz o pai é melhor que ótimo - Gary Lewis é excelente, responsável por algumas das cenas mais emotivas do filme, senão as mais, mas não está no Oscar, o que é típico de Hollywood.Para um diretor que se liga em melodramas, Daldry consegue policiar-se, evitando que a narrativa de Billy Elliot fique muito derramada. O filme é sóbrio. O mais discutível em torno de Billy Elliot é o contexto social em que se desenvolve a história do menino. Daldry situou-a no quadro das greves de mineiros dos anos 80, reprimida a ferro e fogo pela então primeira-ministra Margaret Thatcher, a Dama de Ferro.Há coisas que realmente impressionam. O pai, convencido de que o filho tem mesmo talento, fura a greve para garantir a Billy os recursos de que precisa para tentar a nova carreira, para desespero do outro filho, dirigente sindical. O filme é, também, e talvez seja até principalmente, uma crônica familiar sobre a aceitação da diferença num meio que não é o mais esclarecido, mas em que prevalece o afeto sincero. Isso é bonito. Mas o diretor trabalha muito com montagens paralelas - a máquina da repressão nas ruas, a dança no interior do estádio. Numa cena, os mineiros, de volta ao trabalho, descem para o subsolo num elevador. Simultaneamente, Billy aparece na escola de dança. A idéia é clara.Expressa um conceito - a ascensão social de Billy, por meio da dança. Só que nem sempre as associações são assim transparentes. Há momentos em que são mesmo gratuitas. Fica parecendo, às vezes, que Daldry e seu roteirista usam o quadro para forçar a dimensão histórica e social de sua história. Seja como for, você vai ver Billy Elliot. Terá de ver Billy Elliot. Há todo um movimento espontâneo para fazer desse filme um acontecimento.Billy Elliot - (Billy Elliot). Drama. Direção de Stephen Daldry. Grã-Bretanha/99. Duração: 110 minutos. 12 anos

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.