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Emoção e beleza estão na guerra de 'Na Ventania'

Longa do estoniano Martti Helde propõe narração fora dos moldes

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

02 Julho 2016 | 03h00

Existem filmes cuja proposta estética e circunstâncias de produção terminam ganhando espaço sobre o que, afinal, os autores querem dizer. Basta pensar no plano-sequência de Arca Russa, de Alexander Sokurov, ou na sensação de claustrofobia que se tem em O Filho de Saul, devido à escolha do diretor Laszlo Nemes que adotar o ângulo do protagonista, só mostrando o que ele consegue ver. Um filme da Estônia propõe agora uma dessas experiências que fogem ao que o espectador está acostumado a ver na tela. Na Ventania, de Martti Helde, viaja sobre imagens fixas que vão sendo animadas pelo trabalho da câmera. Não é bem o tableau-vivant – formato que Jean-Luc Godard usou em Paixão, de 1982. É outra coisa, e bem exigente.

Tem gente se queixando de que Na Ventania é lento, que reúne os piores defeitos de um filme que se pretende artístico e até que não tem emoção, o que seria fatal para um drama ambientado na guerra – a 2.ª. O que isso prova é que todo filme se completa no olhar do espectador. É possível ver muito mais no belo trabalho de Helde, mas, claro, vai depender da adesão do público. Notas de produção informam que cada um dos 13 quadros que compõem a narrativa foi filmado num único dia – seriam, assim, 13 dias no total. O que as notas acrescentam é que cada quadro exigiu de dois a seis meses de preparação e que o diretor e o fotógrafo Erik Pollumaa, que optaram pelo preto e branco, fizeram uma extensa pesquisa de pintura e escultura para compor a imagem. Usaram até uma técnica chamada de ‘Alexander’ para dar dinamismo às expressões dos atores, mesmo com a imagem fixa.

Tudo isso é realmente impressionante, mas tem a história. Mais que um requisitório antinazista, Na Ventania visa o stalinismo. A história começa em 1941, numa paisagem idílica. A protagonista chama-se Erna e vive com o marido e a filha numa fazenda. A guerra mantém-se distante desse paraíso – ou mantinha-se. Face a rumores preocupantes, os vizinhos começam a debandar. Fogem. Erna e o marido permanecem – ele integra a Liga de Defesa da Estônia. Chegam as forças soviéticas e o casal é separado. São considerados inimigos do povo. Erna e a filha são enviadas para um campo de reeducação. Comem o pão que o Diabo amassou – ou melhor, nem comem, porque o alimento é escasso. Para alimentar a filha, Erna rouba comida e é punida por isso.

Na Ventania prescinde de diálogos. O que se ouve são os trechos de cartas lidas por Erna, as que escreve e as que consegue receber (e são raras). Não apenas. Assim como possui um elaborado trabalho de imagem, Na Ventania também tem um acurado trabalho de som. Música, ruídos, tudo é cuidadosamente construído. Mas o mais inusitado nisso tudo é a participação da atriz Laura Peterson, que faz Erna. Seu desafio é imenso. Como se constrói uma personagem com a voz e o corpo imóvel (na foto)? Emma é atriz de teatro e cinema. Domina seu instrumento – o corpo. Há uma tensão na sua presença que a música (piano e violino) ajuda a construir. De uma maneira que é até difícil explicar, mas que o espectador ‘sente’, o diretor e ela passam uma emoção profunda, dilacerante, na citada cena do roubo de comida. Fosse uma história de nazismo e o significado seria um. Diante de eventos mais recentes, como a violenta anexação da Criméia pelo czar Vladimir Putin, antes mesmo de ter o resultado do referendo, a tragédia da Estônia em Na Ventania fica mais próxima, e é essa a intenção do diretor.

 

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