Emma Thompson, mais que Tom Hanks, faz a diferença em 'Walt nos Bastidores de Mary Poppins'

Embora a história não tenha sido exatamente como aparece na tela, vale a pena seguir a quebra de braço a escritora e o produtor

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

05 de março de 2014 | 19h02

Emma Thompson diz que foi libertador para ela interpretar P. L. Travers em Walt nos Bastidores de Mary Poppins. Pamela era rude, não tinha papas na língua e para a atriz foi muito divertido fazer uma personagem que diz o que pensa e não se desculpa. De cara, Tom Hanks a chama de ‘querida Pamela’ e ela o corta. "Chame-me de Miss Travers."

É o primeiro de uma série de choques ou embates que se prolongam ao longo de quase todo o filme, até que ‘Walt’ (Disney) e Miss Travers comecem a se respeitar. Embora a história não tenha sido exatamente como aparece na tela – muitas das brigas foram por meio de memorandos –, vale a pena seguir a quebra de braço entre a escritora e o produtor.

Disney queria comprar os direitos de Mary Poppins porque prometeu às filhas que faria um filme sobre a governanta que elas amavam do livro. Pamela resistiu durante 20 anos porque temia pelo que o rei do entretenimento familiar faria com sua personagem. Brigavam por tudo, desde as canções – Disney decidira-se pelo formato musical –, pelo ator (Dick Van Dyke) e, claro, pelo conceito da coisa toda.

Mary Poppins conta a história da governanta que desce de uma nuvem, contratada por um pai para cuidar de seus filhos. Nem ele nem a mãe têm tempo, e as crianças só esperam que a nova babá seja divertida. No seu jeito rude de ser, Mary – Miss Travers irrita-se se ela não for chamada pelo nome todo: Mary Poppins – supera as mais delirantes expectativas dos baixinhos. O que vira tema de polêmica é uma questão de ordem. Mary Poppins vem para salvar as crianças?

É a visão de ‘Walt’, que Miss Travers contesta. Ela termina por revelar que Mary Poppins baseia-se numa personagem real de sua infância, e que se liga à memória de seu pai. Uma trama familiar, no fundo – bem como o velho Walt gostava. Mais do que canções ou liberdades no tratamento do mundo de fantasia que a babá carrega consigo, o que muda é o pai da ficção, daí o título original – Saving Mr. Banks, Salvando o Sr. Banks. Por que ele tem de ser salvo, e do quê, remete a vivências da própria Pamela Travers. E esse vira o foco principal da trama.

John Bill Hancock, roteirista de Clint Eastwood, dirigiu Um Sonho Possível, com Sandra Bullock. Aqui, beneficia-se enormemente do que Emma Thompson e Tom Hanks trazem para os papéis. Ela é ótima como excêntrica; ele, o próprio sr. Simpatia. Cabe ressaltar que não são muitos, na história do cinema, os filmes que se tornam tão cultuados que a própria filmagem se torna tema de novos filmes. Em geral, são documentários, mas dois de Alfred Hitchcock (A Tortura do Silêncio e Psicose) e pelo menos um de F. W. Murnau (Nosferatu) viraram boas, senão admiráveis ficções.

Toda essa história não teria existido se não houvesse o filme de 1964, dirigido por Robert Stevenson. Era mais que um mero artesão dos estúdios Disney, mas não era certamente um ‘autor’ e, menos ainda, de prestígio. Mas certas obras produzem o milagre. O que poderia sair errado, eventualmente dá certo. Foi assim em Casablanca, de Michael Curtiz, em Mary Poppins. Você vai gostar de ver como nasce um clássico. E o original com Julie Andrews – ela ganhou o Oscar –, vale lembrar, está saindo em Blu-Ray, na edição de colecionador, por seus 50 anos.

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