Eminem leva jeito como ator

Vamos logo ao que interessa: fãs e inimigos declarados - que o rapper de Detroit tem às centenas - com certeza querem saber como se sai Eminem em sua estréia cinematográfica. A notícia talvez não seja boa para os segundos, que gostariam de ver o mais branco dos rappers de sucesso quebrar a cara em Hollywood. Que 8 Mile - Rua das Ilusões seja um bom filme nem causa tanto espanto, já que é assinado por Curtis Hanson, o talentoso diretor de Los Angeles - Cidade Proibida. Desde que ganhou o Oscar de roteiro por aquele filme, Hanson tem corrido o mundo, e já esteve no Brasil, ministrando oficinas para roteiristas. Hanson sabe como construir narrativas eficientes para contar boas histórias. A surpresa fica por conta de Eminem. Ele é, realmente, bom ator.Não é apenas mais um músico estreando no cinema. De Elvis Presley a Madonna, cantores, transformados em atores, representam o próprio papel à base de um naturalismo que procura disfarçar sua falta de técnica. Eminem representa - é outro trunfo do diretor Hanson, que, justamente em Los Angeles - Cidade Proibida, conseguiu extrair de Kim Basinger, bela mulher mas atriz de talento limitado, a melhor interpretação de sua carreira e ela até ganhou o Oscar de coadjuvante pelo papel. Em 8 Mile, Hanson repete a dose: oferece a Kim seu melhor papel desde Los Angeles e, de quebra, mostra que Eminem é bom ator, o que, só para lembrar, o ótimo Don Siegel dizia que Elvis também era, citando para isso um western com o rei, que ele próprio fez: Estrela de Fogo.Hanson construiu, em torno de Eminem, uma ficção com toques autobiográficos. Ele faz um metalúrgico que sonha fazer carreira como rapper. Logo no começo, participa de um concurso de improvisações. De cara fica bloqueado. Não emite um som e sai do palco sob vaias de seus concorrentes negros. O restante do filme pode ser considerado uma espécie de preparativo para a segunda chance que o personagem, como bom herói americano, não deixa de reivindicar. Parece clichê - o gran finale da apoteose -, só que a fábula de Hanson continua mais um pouco e é aí que fica interessante.Não é um filme miserabilista sobre a miséria do herói, muito menos a história edificante sobre o garoto que supera todas as dificuldades para vencer na vida e realizar o sonho americano. Importa muito a ambientação da trama em Detroit. É a cidade de Eminem, mas também é peculiar. No cinema, já foi vista como cenário para expressar a idéia de uma decadência futurista (na série Robocop). Detroit tem uma cena musical forte, tendo abrigado, por exemplo, a Motown. É uma cidade industrial, conhecida por seu parque automobilístico. Sua cena, portanto, também é social. Hanson sabe disso. Pode ter aceitado o filme de encomenda, mas tratou de adaptá-lo ao que vem dizendo já há algum tempo.Em Los Angeles e, principalmente, Garotos Notáveis - que é menos atraente do que 8 Mile -, Hanson voltou-se para personagens que constroem histórias, em especial a deles mesmos. Eminem, no filme, tem problemas com a mãe, como tem na vida. É um rapper branco num meio de negros, mas não é Vanilla Ice, a quem não se cansa de ironizar. Como na vida, tem um produtor negro ou parceiros negros para levar a carreira adiante. É rebelde, mas talvez venha de Hanson o sentido de comprometimento que caracteriza a persona do herói. Pode até ser que fosse uma exigência do produto proposto. Mostrar uma imagem menos agressiva de Eminem para ganhar o público americano mais conservador. Hanson soube usá-la para criar um personagem dramaturgicamente interessante.O herói possui uma ligação muito forte com a irmã menina. Mora com a mãe num trailer e ela não é exatamente uma lady: dorme com um colega de aula do filho, comenta com ele, com uma franqueza constrangedora, detalhes de sua vida sexual. É vulgar, mas não um estereótipo. Possui humanidade e Kim Basinger, meio matrona, enfeiada, consegue passar esse sentimento. Eminem chega a provocar: são poucos os rappers que, a despeito de desigualdades sociais, não tiveram uma educação decente. A inteligência do diretor consiste em havê-lo transformado em personagem de um filme que faz o retrato do artista como trabalhador. A de Eminem, em adaptar-se ao papel. Ele tem uma cena que não é só erótica, a mais erótica, talvez, dos últimos tempos (vê se aprende, Leonardo DiCaprio). A maneira como integra a palavra aos gestos, até nessa cena, é a grande sacada do filme. Eminem, no filme, é um corpo e uma voz. Representa o flow, a linguagem das ruas transformada em música, uma maneira de dizer as palavras das canções - como a dos créditos finais, Lose Yourself, indicada para o Oscar -, e também os diálogos, que são cuspidos como metralhadoras que expõem problemas sociais. O branquelo faz uma boa estréia no cinema. E Hanson, justiça seja feita, acaba de assinar o primeiro grande musical americano rap. Ou você acha que existe algum melhor que esse?

Agencia Estado,

21 de março de 2003 | 11h40

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