EFE/Julien Warnand
EFE/Julien Warnand

Emblema da Nova Hollywood, Steven Spielberg faz 70 anos e quer mais trabalho

Programação especial resgata obras importantes do cineasta

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

18 Dezembro 2016 | 03h00

Em Cannes, em maio, o repórter teve um encontro de meia hora com Steven Spielberg para falar de O Bom Gigante Amigo. Ele estava relaxado. Tirou o sapato, colocou os pés para cima e falou sobre sua extraordinária carreira – incluindo a trilogia informal constituída de O Terminal, Guerra dos Mundos e Munique. Sem nenhuma referência explícita ao 11 de setembro, os três filmes compõem a mais importante reflexão feita pelo cinema sobre a ‘América’ de George W. Bush e o pós-ataque às torres gêmeas.

Este domingo, 18, é um dia especial para Steven. Nascido em Cincinnati, ele chega aos 70 anos. “Eu deveria estar cansado, mas não estou. Adoro o que faço, adoro contar histórias, fazer filmes e trabalhar com grandes atores. Quero trabalhar o maior tempo possível”, afirma. “Eu não penso no meu legado porque estou muito ocupado agora, olhando para o futuro”, declarou em entrevista ao jornal britânico Evening Standard.

Filho de uma pianista e de um engenheiro eletricista, ele herdou de um a sensibilidade artística e de outro a base tecnológica que o transformaram num dos grandes diretores do cinema. Os seus pais se separaram cedo e o jovem Steven foi criado em Phoenix, antes de ir para a Califórnia. Conta a lenda que, nas reuniões de família – as irmãs haviam ficado com a mãe –, o garoto as usava como cobaias dos filmes experimentais que gostava de fazer. O pai odiava essas brincadeiras. Não via futuro nelas.

Dois Oscars – por A Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan, em 1994 e 99 –, muitos Globos de Ouro, Baftas e importantes prêmios em Cannes e Veneza, além de um César honorário. Spielberg tudo conquistou. Somado a todas essas honrarias, o reconhecimento do público transformou-o, como empresário do entretenimento, num dos homens mais ricos do mundo. Segundo a revista Forbes, seu patrimônio líquido ultrapassa US$ 3,7 bilhões. Mas o bilionário é capaz de gestos de grandeza fordianos – e não por acaso o Homero de Hollywood, John Ford, é um de seus mestres declarados.

Judeu, abriu mão de salário e participação nos lucros ao realizar A Lista de Schindler. Disse que não seria ético ganhar dinheiro com um filme sobre a barbárie nazista, e doou tudo à Shoah Foundation. O Talmude, o livro sagrado dos judeus, tem sido uma de suas fontes de referência e inspiração. Lá está que uma vida vale todas as vidas. É o conceito de Soldado Ryan e de toda a base humanística do cinema de Spielberg.

A data – o domingo especial – será celebrada pela Rede Telecine, que promete uma overdose de Spielberg. O Telecine Premium começa exibindo, às 10h50, Ponte dos Espiões. O Touch apresenta, na sequência, mais três filmes – às 13h35, Soldado Ryan; às 16h40, Prenda-me se For Capaz; e às 19h15, A.I. – Inteligência Artificial. O Telecine Cult encerra o dia de homenagens, às 22 h, com Tubarão. E, no Telecine Play, será possível assistir a qualquer momento a Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros, Munique, Minority Report – A Nova Lei, Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida, Indiana Jones e o Templo da Perdição, Indiana Jones e a Última Cruzada e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal.

Seus primeiros filmes profissionais foram feitos para TV, mas, em 1971 – há 45 anos –, Encurralado foi considerado tão bom que teve lançamento nos cinemas. Um homem na estrada, na direção de seu carro, é perseguido por um caminhão. O suspense é angustiante e virou terror com os ataques do Tubarão, quatro anos mais tarde. O filme foi um estouro de bilheteria, seguido de outro – Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Spielberg e seus colegas de geração – George Lucas, Francis Ford Coppola, Martin Scorsese – iam tomar de assalto o cinemão e estabelecer o que se chamou de ‘nova Hollywood’. Os filmes viraram eventos – artísticos e/ou mercadológicos.

Muitos críticos resistiam – Spielberg seria um menino crescido brincando de cinema. Colaram nele um rótulo – ‘síndrome de Peter Pan’. E.T. – O Extraterrestre foi a maior das fantasias. E logo, sem abrir mão delas, Spielberg fez-se cada vez mais sério. A Cor Púrpura, O Império do Sol. E A Lista de Schindler e O Soldado Ryan. E a trilogia do 11 de setembro, Amistad e Lincoln. Spielberg, pensador político? Ele sorri. Acredita que o comprometimento é dever do artista. Mas não abre mão de sonhar. É o que faz sua mágica. Vida longa a Spielberg.

 

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