Twentieth Century Fox via AP
Sophie Turner em cena de 'X-Men: Fênix Negra'  Twentieth Century Fox via AP

Em ‘X-Men: Fênix Negra’, Sophie Turner é a primeira mulher protagonista da franquia

Depois de 'Game of Thrones', atriz passa pelo desafio de interpretar a história clássica dos mutantes; filme também represente despedida da saga da Fox, que agora pertence à Disney

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

05 de junho de 2019 | 03h00

Em uma cena no início de X-Men: Fênix Negra – que estreia na quinta, 6 –, Raven/Mística (Jennifer Lawrence) fala para o Professor Xavier (James McAvoy): “Não lembro a última vez que você arriscou alguma coisa. As mulheres estão sempre salvando os homens por aqui. Talvez você devesse mudar o nome para X-Women”.

O fato é que, fora das telas, Fênix Negra se junta a um time bem sucedido de lançamentos recentes, especialmente entre blockbusters de Hollywood, com protagonistas mulheres: aqui, Sophie Turner (a Sansa Stark de Game of Thrones) interpreta a mutante Jean Grey – e Jessica Chastain faz uma alienígena que vem à Terra atrás do poder dela. 

O filme tem expectativa de arrecadar US$ 50 milhões no primeiro fim de semana nos EUA – seria o mais baixo entre todos os X-Men. Mas ninguém pode alegar surpresa se o valor for muito maior. Já em 2019, outros filmes com perfil parecido tiveram desempenho invejável nas bilheterias: Capitã Marvel arrecadou US$ 1,1 bilhão e Alita: Anjo de Combate fez US$ 400 milhões (no mundo todo), mesmo com previsões pessimistas de Hollywood. 

No futuro próximo, ainda é possível aguardar novas produções de franquias revitalizadas com protagonistas femininas: MIB: Homens de Preto Internacional (13 de junho) e Exterminador do Futuro: Destino Sombrio (outubro), por exemplo.

Mas voltando a Fênix Negra. O filme é escrito e dirigido por Simon Kinberg – cineasta envolvido com a franquia desde X- Men 3: O Confronto Final (2006), filme bastante criticado por tentar condensar na mesma produção plots muito complexos de X-Men, entre eles, justamente, o da Fênix Negra (naquela ocasião, interpretada por Famke Janssen).

Nos quadrinhos, a saga é considerada um clássico e talvez a história mais importante dos X-Men e, até hoje, a única adaptação para outro meio bem recebida por público e crítica foi a da série animada dos anos 1990 na TV. O novo filme é mais uma chance, mas, novamente, a expectativa é baixa (apesar do elenco estrelado, que ainda tem Michael Fassbender): fãs alegam que houve pouco tempo de construção da personagem para que o capítulo final tenha o impacto suficiente (é a terceira parte de uma trilogia iniciada com Dias de um Futuro Esquecido, de 2014, segundo o diretor; Turner aparece em Apocalypse, de 2016).

Aqui, Grey é atingida por energia solar em uma missão espacial de resgate – essa energia libera lembranças dentro dela, que já não consegue controlar seu imenso poder mental. 

Uma ausência na produção é o personagem Wolverine (seja Hugh Jackman ou com outro ator). O diretor justifica: “Realmente me comprometi criativamente em contar a história de Jean. Depois de tantos anos com caras sendo o foco dessa franquia, quis focar no dilema de Jean, sua luta pessoal e nos demônios que ela está tentando exorcizar por conta dessa força fênix”, disse Kinberg, em uma entrevista recente.

Sophie Turner também está otimista. “É Fênix Negra feito certo”, disse, para a Rolling Stone americana de março. O comentário é uma provocação ao X-Men 3, mas ela complementou que “quase toda cena que eu faço no filme é como a cena mais intensa da minha vida”.

O novo filme também encerra o ciclo de X-Men sob responsabilidade da Fox – a fusão com a Disney, estimada em US$ 71 bilhões, leva a franquia para o mesmo estúdio do MCU, o Universo Marvel. Para registro, a Fox deixa de ser um estúdio independente, o que diminui o número de grande estúdios de Hollywood para cinco: Disney, Warner Bros., Sony, Universal, e Paramount. 

Ainda não há informações sobre o que vai acontecer com os mutantes na Disney, mas a própria Sophie Turner disse considerar complicada uma junção com o universo dos Vingadores, por exemplo. “Acho que as complexidades de os X-Men serem excluídos da sociedade não é algo que acontece ali”, comparou, em entrevista ao Entertainment Weekly.

Fênix Negra pode ser, nesse sentido, uma despedida definitiva.

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ANÁLISE: 'X-Men: Fênix Negra' aponta para o protagonismo feminino entre super-heróis

Da astúcia do ‘sexo frágil’ à prática direta do poder com as super-heroínas

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2019 | 06h00

Relembrando a frase dita pela personagem Raven/Mística ao Professor Xavier (“As mulheres estão sempre salvando os homens por aqui. Talvez você devesse mudar o nome para X-Women”), descobre-se aí a linha de chegada do protagonismo feminino nas histórias de super-heróis, do qual X-Men: Fênix Negra seria a face mais vistosa. Ou mais radical. 

Mas quem acompanha os filmes não ficará lá muito surpreso com esse destaque para o papel feminino. Esta é uma tendência que vem se esboçando e ganha contornos bastante nítidos. Basta pensar nas recentes Mulher Maravilha e Capitã Marvel. Há planos de colocar ainda mais mulheres no protagonismo de outras histórias da Marvel, que domina o setor. No caso das heroínas, elas já estavam disponíveis nos gibis há décadas, tanto a Mulher Maravilha quanto a Mulher Gato, Supergirl e a perigosa Elektra. Agora, ocupam o centro da cena. 

Não há por que estranhar o fenômeno. A cultura pop, apesar de baseada em mitos, jornadas do herói e condições básicas do ser humano, como o antagonismo simplista entre Bem e o Mal, reflete a mentalidade de uma época e também se adapta a ela. Com quarta onda feminista, as mulheres passaram a exigir representação de gênero mais condizente nas telas – e os blockbusters não seriam exceção a essa demanda. Mesmo porque são produtos globais, movimentam cifras de às vezes mais de um bilhão de dólares e, portanto, não podem se dar ao luxo de desagradar a clientela. Ainda mais quando essa freguesia representa um público de mais de 50% da humanidade. 

Pressionados pelas exigências da época, os estúdios prestam cada vez atenção a essas questões de gênero e também de representação racial. Para dar outro exemplo, Pantera Negra, dirigido e protagonizado por elenco negro, fez enorme sucesso mundo afora e foi celebrado como afirmação da negritude nos Estados Unidos e em vários outros países, Brasil inclusive. Além disso, passa imagem positiva da sofisticada cultura africana, em geral confinada a preconceitos de pobreza e primitivismo.

Já o poder feminino representado nas obras artísticas sempre esteve presente, mas sob a forma de uma astúcia. Se as mulheres eram em aparência mais frágeis, dominavam a arte de manobrar nos bastidores para alcançar seus objetivos. Basta lembrar da ardilosa Mme de Merteuil de Ligações Perigosas, que traça planos de conquistas amorosas com requintes de um general no campo de batalha. Ou das femmes fatales dos filmes noir, que usam seu poder de sedução para manipular homens brutos e pouco inteligentes. 

No caso de X-Men: Fênix Negra, temos a heroína Jean Grey (Sophie Turner) no exercício direto do poder, sem subterfúgios. Ela é, desde garotinha, uma superdotada, cujos talentos serão administrados pelo professor Xavier (James McAvoy). A partir de determinado acontecimento, o poder de Jean multiplica-se e torna-se virtualmente incontrolável. É o poderio feminino chegando ao máximo. A ponto de desconcertar e perturbar o resto da trupe, colocando-a em perigo. Não deixa de ser uma bela metáfora: quando o poder feminino aumenta demais, os homens, habituados ao papel de comando, perdem o rumo. E o rebolado. 

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