Sarah Meyssonnier/Reuters
Sarah Meyssonnier/Reuters

Em 'Vórtex', Gaspar Noé fala sobre a velhice e as dicotomias da memória

O filme é um tristíssimo conto existencial sobre a velhice em analogia à própria arte cinematográfica e seus suportes, os físicos e os digitais

Rodrigo Fonseca, Especial para o Estadão

14 de agosto de 2021 | 05h00

Assistir a Gravidade (2013), de Alfonso Cuarón, com morfina nas veias e em recuperação de uma hemorragia cerebral foi uma das experiências que mais alteraram a percepção estética do diretor franco-argentino Gaspar Noé. Alteração essa vivida nos meses que antecederam as filmagens de Vórtex, drama bem-recebido no Festival de Cannes e que repete a dose no Festival de Locarno, cuja 74ª edição termina neste sábado, 14.

A experiência de quase morte sofrida pelo diretor, dias antes de a pandemia começar, seguida de um processo convalescente em que ele via dois clássicos por dia, produziu a necessidade de ele falar sobre a finitude. E falar de maneira afetuosa – algo que seus filmes nunca foram –, mas sem perder a inquietude estética. 

Por isso, seu novo longa, uma cartografia do envelhecimento, tanto de pessoas quanto do cinema, é narrado com uma tela dividida, com ações distintas acontecendo em dois hemisférios paralelos, construídos a partir de improvisos com o elenco. E é em sua trupe que Noé tem seu principal chamariz: ao lado da veterana Françoise Lebrun e do jovem Alex Lutz está em cena um mestre do terror, o diretor Dario Argento. E a atuação do diretor comoveu Locarno, no retrato de um artista acossado pelo tempo e pela gradual destruição da lucidez de sua mulher.

“Falava sempre ao Dario: ‘Você é o diretor aqui, pois eu sou seu aprendiz’. E, ele, de uma doçura notável, embarcou nas minhas ideias e improvisou. Eu trouxe fotos dele jovem para a narrativa, que usa muitos elementos do passado. Era um homem lindo aos 20 anos... e ainda é, hoje, aos 80. Mas eu queria aquela imagem de ontem, de outrora, num painel vivo sobre o envelhecimento, filmado basicamente numa locação”, explicou Noé ao Estadão, em Locarno, onde exibiu Vórtex fora da competição. 

O filme é um tristíssimo conto existencial (e psicanalítico) sobre a velhice e as dicotomias da memória, em analogia à própria arte cinematográfica e seus suportes, os físicos e os digitais. De um lado da tela dividida, vemos, quase todo o tempo, Françoise Lebrun a atuar, no papel de uma mulher às voltas com o Alzheimer e, ora ou outra, com seu filho dependente químico, vivido por Alex Lutz. Do outro lado vem a apoteose desse “filme-saudade”: Argento, hoje octogenário, interpreta um crítico de cinema devotado a escrever um livro, chamado Psiquê, sobre sonhos e o audiovisual.

“Quando soube que havia um antigo apartamento vazio, em Paris, fui lá com meu diretor de fotografia, Benôit Debie, e decidimos transformar aquela locação em um mundo paralelo, no qual o casal guarda quinquilharias que nos apontam aquilo que há de perene”, diz Noé. “A gente se enfurnou lá, para proteger a equipe do contágio da covid, e rodamos em 25 dias.”

Na trama, o personagem de Dario não usa computadores, preferindo datilografar suas ideias. E, paralelamente à criação de seu livro, a rotina é ocupada pelo esforço hercúleo de proteger sua companheira, sempre roubada de sua lucidez por apagões em suas recordações. O que Noé faz é desfiar o novelo de duas vidas ameaçadas pelo esquecimento. “Assim que escrevi as primeiras dez páginas de Vórtex, fui à Argentina visitar meu pai (o pintor e escritor Luis Felipe Noé), que está com 88 anos. Minha mãe (Nora) teve Alzheimer. Lembro que, quando contei para ele o que estava pretendendo filmar, tomei uma bronca: ‘Veja lá o que vai falar da gente’. Foi quando percebi que não poderia tornar Vórtex um desabafo pessoal, mas uma reflexão mais universal.”

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