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Em visita ao Brasil, Abel Ferrara fala do filme inspirado em Strauss-Kahn

'Bem-vindo a Nova York' será exibido em Paulínia nesta quarta-feira, 23

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

23 de julho de 2014 | 02h00

Quando Bem-vindo a Nova York foi exibido em sessão paralela durante o Festival de Cannes, em maio, houve quem dissesse que era um filme quente demais para a Croisette. Isso porque o longa de Abel Ferrara não só não entrou na seleção oficial do evento como causou furor ao trazer cenas fortes, ou hiper-realistas, de sexo já em seus primeiros 15 minutos e rendeu, entre outras polêmicas, uma ameaça de processo por parte de seu principal ‘inspirador’, o ex-diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI), o francês Dominique Strauss-Kahn.

DSK, como é chamado, foi acusado em maio de 2011 de ter agredido sexualmente uma camareira de um hotel em Nova York. Quatro dias mais tarde, o ex-diretor pediu demissão, viu sua possível candidatura à presidência da França ir por água abaixo e, pouco tempo depois, recebeu de sua mulher, a jornalista Anne Sinclair, o pedido de divórcio. 

Nesta quarta-feira, 23, é a vez de Ferrara descobrir qual será a reação ao filme do público paulistano, que recebe o diretor e a atriz Jacqueline Bisset (que vive Anne Sinclair no longa) para a sessão especial de Bem-vindo a Nova York, no Reserva Cultural, que abre a mostra comemorativa dos 25 anos da distribuidora Imovision, homenageada também no Festival de Paulínia. 

O longa ainda encerra o festival na cidade do interior paulista no domingo, em sessão aberta ao público. Já para a plateia paulistana, o filme tem sessão também no domingo no Reserva Cultural, às 21h30. “Estou feliz de voltar ao Brasil. Foi muito bom da primeira vez (em 2012, para participar de mostra dedicada a sua filmografia). Espero que o brasileiro goste do filme”, declarou Ferrara em conversa com o Estado, na tarde de terça-feira, 22, quando o diretor americano estava a caminho de Paulínia, onde seria um dos convidados especiais da noite de abertura do festival.

Ainda que defenda que Bem-vindo se trata de obra ficcional, é exatamente sobre o processo de descida ao inferno de um dos homens mais poderosos do mundo, e ainda assim incapaz de controlar a si mesmo, que Ferrara lança olhar quase documental. 

O nome do protagonista foi trocado, por motivos óbvios, para Georges Devereaux (um impecável Gérard Depardieu). No entanto, é mais do que claro que é do ex-diretor do FMI que se está falando. “Há dois assuntos. Um é o caso real de DSK. O outro é o filme que fiz. Não filmamos um documentário. Podemos falar de um filme, de política, de tudo. Mas quando se liga uma câmera, nasce um mundo completamente diferente, que tem a própria dinâmica”, disse.

Se o público brasileiro vai gostar do filme, que estreia comercialmente em novembro, é questão em aberto. Já a plateia internacional vem se dividindo entre os que sentem repulsa diante de um retrato “inimitavelmente cruel, mas ainda assim contemplativo do caso de Strauss-Kahn”, como escreveu o crítico Scott Foundas da Variety, e os que se indignaram e definiram o filme como difamatório, degradante e até mesmo antissemita, como afirmou Anne Sinclair, em artigo do The Huffington Post francês, do qual é editora.

“Até agora, DSK não me processou. Mas tem toda a liberdade. Ele faz o que quiser. Eu faço o que quiser”, afirmou Ferrara. “Todos dizem que me inspirei nele. Como me inspirar em alguém como ele? Que tenta estuprar uma camareira? O que me inspirou foi minha consciência, meu subconsciente. Cresci em Nova York. Basta observar a vida.”

Há uma certa frieza na forma como Ferrara observa o sexo entre Devereaux e as garotas de programa. É com a mesma precisão cirúrgica que o cineasta mostra a cena do suposto assédio sexual contra a camareira. “Se filmei o sexo como se fosse quase um documentário? Talvez. Acho que esta é a única forma de filmá-lo. Tem que parecer real. É preciso que os atores façam acontecer. E tanto Depardieu quanto as atrizes foram incríveis”, comenta o diretor. 

É bem por conta das cores realistas impressas em Bem-vindo que muitos viram no filme o melhor de Ferrara desde Vício Frenético (1992). O diretor sempre foi fascinado pela relação entre sexo e poder. “Política, sexo e poder. Combinação explosiva. É sobre isso que muita coisa gira no mundo. Só que do outro lado do poder pode estar a justiça”, analisa Ferrara, que, como prólogo, inseriu uma entrevista de Depardieu afirmando que odeia políticos e é anarquista.

“A partir daí, você decide se quer ver o filme ou não. Há a ideia de que políticos e celebridades podem tudo. Mas todos somos iguais perante Deus. E perante o carma. Você pode esconder do mundo, do juiz, da sua mulher, mas não de Deus”, completa o cineasta, que estreia Pasolini, sobre o última dia de vida de Pier Paolo Pasolini, no próximo Festival de Veneza, em setembro. “Ele morreu há 40 anos em uma situação ainda misteriosa. Há muitos crimes pelos quais a polícia não se interessa. Mas que me interessam.”

Para lembrar - A derrocada de Strauss-Kahn

Advogado, economista e político francês, Dominique Strauss-Kahn assumiu a direção do FMI em setembro de 2007. Em 14 de maio de 2011, foi acusado por Nafissatou Diallo, camareira do hotel Sofitel de NY, de agressão sexual. Quatro dias depois, já em prisão provisória, se demitiu do cargo e viu ruir a sua até então certa candidatura à presidência da França, em 2012. Em 2012, DSK e Diallo entraram em acordo e o caso foi encerrado. Mas em 2013, foi acusado de proxenetismo e formação de quadrilha e aguarda julgamento em liberdade.

BEM-VINDO A NOVA YORK

Título orignal: Welcome to New York. Direção: Abel Ferrara.Gênero: Drama (EUA/ 2014, 125 minutos)

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