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Em 'Vício Frenético', Harvey Keitel vive um policial drogado e corrupto

Ele tenta encontrar os estupradores de uma freira, em Nova York

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

02 Agosto 2015 | 03h00

Faz alguns anos, Abel Ferrara ganhou reputação de autor junto à crítica francesa. Como se sabe, quando um cineasta vira “auteur” é como se tivesse entrado para uma Academia de Letras, uma confraria de notáveis ou coisa parecida. Passa a ter salvo-conduto para fazer qualquer coisa e será sempre reconhecido. Isso dura a vida inteira. A verdade é que a trajetória de Ferrara é para lá de irregular, com alguns pontos baixos e outros altos. Um deles, talvez o mais elevado, seja justamente este Vício Frenético (1992), estrelado por Harvey Keitel e agora lançado pela Versátil.

O DVD vem acompanhado de um extra muito interessante, contendo o making of do filme. Compõe-se de uma série de entrevistas, inclusive com Ferrara e com o policial de verdade que inspirou o personagem de Keitel. Este se apressa em dizer que é muito diferente do tenente drogado, bêbado e corrupto vivido por Harvey. Acontece que o policial estava à frente do caso verídico que está na origem do longa - o estupro de uma freira por dois rapazes em Nova York. Os dois entraram no convento e abusaram da religiosa, violentando-a com um crucifixo. 

Enfim, este é o material extra-cinematográfico. Trágico e em todo adequado ao espírito de Ferrara e seu catolicismo exacerbado. Sim, porque Vício Frenético é todo pontuado pelos sentimentos do desejo e da culpa, a começar por seu protagonista, um tipo cínico, porém atormentado. Quer dizer, um canalha pouco convicto, pois os cínicos vocacionais não se arrependem ou sentem remorsos. De qualquer forma, o tenente representa a configuração ideal para servir a Ferrara como veículo de seu estudo religioso. O que ele diz? Não existe virtude se não há tentação. E nem redenção se não se cai no pecado.

Daí a situação paradoxal. O tenente busca por todas as maneiras descobrir os culpados pelo estupro, mas a freira, que conhece os rapazes, não entrega seus nomes sequer ao confessor. Diz que jamais viu tamanho desespero como naqueles que a estupraram. E, assim como o Senhor havia perdoado os que o agrediram, ela também perdoava seus ofensores.

A filmagem se encaixa nesse clima um tanto delirante e o adota como forma e estilo, em sons, movimentos de câmera, diálogos. É Ferrara em seu hábitat, à vontade, debatendo, através dessa história escabrosa, seus próprios dilemas existenciais e religiosos. Daí a impressão de sinceridade que se sente. Isso não se inventa.

Outro ponto é Harvey Keitel em sua composição de tenente corrupto da polícia de Nova York. Tão perfeito, tão adequado, que fica difícil, senão impossível, imaginar qualquer outro no papel. Nos extras, um crítico se refere a esse fato. Diz que Keitel é mesmo a escolha única de que dispunha Ferrara, pois tem temperamento de “gato de rua”. Exibe esse ar de quem conhece a sarjeta e sabe o que significa estar por baixo. Por isso pode aspirar com tanta força à redenção. Um janota não viveria esse ser dilacerado com igual convicção. 

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