Claudio Onorati/EFE
Claudio Onorati/EFE

Em Veneza, um notável encontro entre amigos

Ettore Scola encerra Mostra com o ótimo ‘Que Estranho Chamar-se Frederico!’, uma celebração de Fellini

Luiz Zanin Oricchio - Enviado Especial a Veneza, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2013 | 19h06

Sabiamente, Veneza deixou para o fim a cereja do bolo – o comovente Que Estranho Chamar-se Frederico!, no qual Ettore Scola revive mais de 50 anos de amizade com Federico Fellini, morto há 20 anos. Tivesse iniciado com ele e o termo de comparação seria terrível para os concorrentes. De modo que, se a última impressão é a que fica, tendemos a dizer que Veneza 2013 foi ótimo, o que não é nem de longe a realidade. O fato é que a sessão de Scola Conta Fellini foi a mais emocionada e emocionante de todas, embora acompanhada por um público comparativamente reduzido.

O filme é um mix de ficção e documentário com sequências encenadas dos dois diretores quando jovens, mescladas a cenas documentais, gravações da voz de Fellini, trechos de filmes de ambos, cerimônias de premiação, etc. Um baú de recordações, bem arranjado e montado. De certa forma, é um projeto de família. Dois dos netos de Scola interpretam os dois diretores quando jovens. Ambos, em tempos diversos, trabalharam na revista satírica Marc’Aurelio, em Roma.

Estranhamente, o filme começa com uma voz off em espanhol e não em italiano: “Entre los juncos y la baja tarde, qué raro que me llame Federico”. Versos de outro Federico, o García Lorca, morto pelos fascistas da Espanha. Corte para o nosso Federico, Fellini, trabalhando com sátira ao longo de outro fascismo, o de Mussolini, logo ao ingressar na revista Marc’Aurelio. Scola o conhecerá em 1947, já no pós-guerra, quando tinha 16 anos. Apesar da diferença de idade, nasce a amizade, cimentada por passeios de carro na noite romana, quando conversavam com prostitutas, bêbados, artistas e desocupados. Ligação também através do cinema, que os aproxima a ponto de Scola conseguir convencer Fellini a representar a si mesmo em Nós que Nos Amávamos Tanto, seu maravilhoso filme de 1974.

A homenagem vai além do conteúdo e se inscreve na forma. Com uma estrutura assimétrica e não linear, Scola centra sua atenção no mítico Estúdio 5 de Cinecittà, no qual Fellini deu forma a alguns dos seus melhores sonhos, construindo lá dentro uma nave, um mar e a própria cidade de Veneza. Aliás, o filme usa materiais raros, como as provas de Alberto Sordi e Vittorio Gassman para Giacomo Casanova, o sedutor veneziano, papel que acabou com o canadense Donald Sutherland.

Na entrevista, irônico como seu amigo Fellini, Scola mostrou-se surpreso com a comoção causada por seu filme: “Quis fazer apenas uma coisa alegre, para lembrar meu amigo quando faz 20 anos de sua desaparição. Não há nada para chorar. Lamentamos quando alguém que nada conseguiu realizar se vai, mas Federico? Teve uma vida completa”. Silvia Scola, roteirista, disse que o pai, assim como Fellini, faz parte daquela escola italiana irônica, do distanciamento, que tem pânico pelo sentimentalismo tão peninsular. Mas não adianta. Queira ou não, o filme cala fundo em que ama o cinema de Fellini - e o de Scola. É, no fundo, a celebração da amizade entre dois grandes.

Os dois últimos concorrentes, o italiano Sacro GRA, de Gianfranco Rosi, e o argelino Les Terrasses, de Merzak Allouache, pouco agregam ao conjunto geral até agora apresentado. Sacro GRA é um documentário de ideia original – ouvir os personagens que habitam ao redor de Roma, ao longo do rodoanel que circunda a cidade (GRA é a sigla de Grande Raccordo Anulare). Eles interpretam seus próprios papéis. É um título pequeno, honesto, que tem seus méritos, mas não impressiona muito. Les Terrasses é um filme coral com retrato bastante desolador de Argel contemporâneo. O ponto de vista é sempre o dos terraços dos edifícios com os horários pontuados pelas cinco preces do Corão. O excesso de personagens e de focos narrativos talvez crie algum distanciamento indesejado. Mas tem qualidades.

O Leão de Ouro sai neste sábado (7), e todo mundo pergunta-se em que língua vai rugir. Numa mostra equilibrada pelo mediano, não existem favoritos claros. O preferido da crítica e do público ainda é Philomena, de Stephen Frears, um drama sólido, porém bastante convencional como cinema. As opções em termos de ousadia seriam, por exemplo Stray Dogs, de Tsai Ming-Liang, ou mesmo A Mulher do Policial, do alemão Philip Gröning. Agradam a parte da crítica, mas são venenos para o público. Esse é um dilema a ser enfrentado por Bernardo Bertolucci, presidente do júri, e sua equipe. Vão precisar de sorte e bom senso.

VENEZIANAS

Outra arte

A surpresa veio nas entrevistas. Tsai Ming-Liang, tido como um dos possíveis ganhadores com seu Stray Dogs, declarou que este deve ser seu último filme. O taiwanês, que já venceu um Leão de Ouro, em 1994, com Vive L’Amour, justificou: “Fazer cinema, para mim, não é uma coisa muito importante”. Mentes maliciosas exultaram com a notícia. Como Tsai Ming-Liang é um cultor do plano longo e parado, entendem que ele deve se dedicar de vez, e de maneira exclusiva, às artes plásticas.

Nepotismo

As participações familiares estão na ordem do dia. Numa espécie de nepotismo do bem, os cineastas têm empregado parentes com muita frequência. Ettore Scola disse com orgulho que tem cinco netos e os cinco estão presentes em seu Que Estranho Chamar-se Federico!. Philippe Garrel trabalha habitualmente com o filho, Louis. Em La Jalousie (O Ciúme), além do habitual Louis, entra no elenco também sua irmã, Esther Garrel, 22 anos.

Tentativa

Entre os espectadores comovidos com Que Estranho Chamar-se Federico! estava a diretora da Mostra de Cinema de São Paulo, Renata de Almeida. Depois de assistir à coletiva de Ettore Scola, ela saiu correndo atrás da produtora do filme para tentar trazê-lo para a Mostra deste ano. Se conseguir, será um gol de placa.

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